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Colunas

Comer na rua ou comer em casa, o que é mais perigoso? 

15/09/2025 às 15h33 - Atualizado em 29/09/2025 às 18h26
Higienização de alimentos
Depois que chegar do mercado é importante higienizar frutas, hortaliças e legumes (Pexels)

Muita gente acha que tudo que é feito em casa é mais seguro do que o que consumimos na rua, mas infelizmente isso é um engano. A maior parte das intoxicações por alimentos e líquidos contaminados acontece em casa por erros simples de higiene. 

Vivemos o tempo todo rodeados de microrganismos, a maior parte deles não faz mal e são importantíssimos para nossa saúde. Mas no meio deles existem os patógenos, microrganismos causadores de doenças simples à graves, que podem se esconder na nossa própria cozinha. E as doenças que podemos adquirir devido a estes equívocos são agrupadas como Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA), causadas pela ingestão de água e/ou alimentos contaminados com vírus, bactérias, parasitas, toxinas, e/ou substâncias químicas.  

Os números  

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 600 milhões de pessoas – quase 1 em cada 10 pessoas no mundo – adoecem e 420 mil morrem todos os anos devido às DTHA. As crianças menores de 5 anos são as mais afetadas, com 125.000 mortes a cada ano. Pessoas com a imunidade debilitada (imunossuprimidos), como transplantados, HIV positivos e portadores de doenças crônicas também têm maior risco de morte por estas doenças. 

Desde 1999, o Brasil faz a vigilância destas doenças e o informe epidemiológico de 2024 mostrou que desde 2011 o país teve 6.874 surtos de DTHA que deixaram 110. 614 pessoas doentes e causaram 121 mortes; 31 vidas perdidas só em 2023, ano em que ocorreram mais surtos (1.162). A maioria ocorreu no sudeste (considerando o ano de 2023) e a maioria na residência dos acometidos (34,3%), seguidos por restaurantes/padarias (14,6%) e creches/escolas (12,5%). Em Minas Gerais, foram registrados 5.823 casos e 1 óbito em 2024, e em Belo Horizonte foram registrados 23 surtos só em 2025, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. 

Equívocos na cozinha 

Um simples erro na cozinha pode levar a consequências indesejáveis, que também pode acontecer nos estabelecimentos comerciais. Quais os erros mais comuns? 

1 – Não lavar as mãos – “Lave as mãos!” Todos nós ouvimos isso, diversas vezes ao longo de nossas vidas, de pais, professores ou entes queridos e mais ainda na pandemia da COVID-19. Apesar disso, muitas pessoas não lavam as mãos corretamente (ou não lavam de jeito nenhum). Não lavar as mãos corretamente pode espalhar germes para os alimentos e deixar você e outras pessoas doentes. Segundo a OMS, em 2021,  95% da população mundial não lavava as mãos com frequência e não fazer isso pode ser responsável por  80% da transmissão de doenças infecciosas como diarreias, gripe, resfriados, hepatite e micoses. 

A lavagem adequada das mãos é a melhor defesa contra doenças transmitidas por alimentos, então lave as mãos antes, durante e depois de preparar alimentos, depois de usar o banheiro, tocar no telefone, assoar o nariz, tossir ou espirrar, ou brincar com animais de estimação. Para lavar corretamente, molhe-as com água corrente, aplique sabão e esfregue-as por pelo menos 20 segundos (palmas, dorsos, entre os dedos, embaixo das unhas e os punhos) enxague bem também com água corrente, e seque com uma toalha limpa ou ar quente.  

2 – Lavar carnes cruas – é comum ver as pessoas lavando o frango na pia antes do preparo, e até outras carnes. Pode parecer inofensivo e até higiênico, mas este hábito pode espalhar bactérias patogénicas como a Salmonella e a Campylobacter na pia, utensílios, e outras superfícies. Em vez de reduzir o risco de doenças, o ato de lavar carnes aumenta a probabilidade de contaminação cruzada, e assim o risco de doenças. O cozimento adequado é a melhor forma de eliminar os microrganismos que estão nas carnes. 

3 – Uso incorreto e má higiene de tabuas de corte – Você já fatiou carne crua em uma tábua de corte para depois usar a mesma tábua para picar vegetais? Este é um ótimo exemplo de contaminação cruzada, ou seja, a transferência de microrganismos nocivos de um alimento para o outro. Para evitar a contaminação cruzada use tábuas separadas e limpas para diferentes alimentos, como carnes, aves, frutos do mar, e uma para produtos frescos, ou higienize e seque adequadamente entre cada tipo de alimento. Escolha tábuas de superfície não porosa, vidro ou plástico preferencialmente, e com água e sabão. Para limpeza profunda use hipoclorito de sódio. 

4 – Descongelar alimentos à temperatura ambiente – Para preparar alimentos a partir de itens congelados deixar descongelar naturalmente pode ser um risco à saúde pois no nosso clima quente os microrganismos se multiplicarão rapidamente favorecendo infecções (por exemplo: a população de bactérias dobra a cada 20 minutos a 37 graus celsius). Métodos seguros são: Descongelar na geladeira, em água fria, no micro-ondas ou como parte do processo de cozimento. 

5 – Comer alimentos mal-cozidosSalmonella e Escherichia coli são causadores comuns de infecções alimentares diarreicas provocadas por carnes e ovos mal-cozidos, e não podemos nos esquecer dos parasitas como a solitária (Taenia solium – tênia do porco e Taenia saginata  – tênia dos bovinos). Estas doenças podem ser evitadas pelo cozimento adequado dos alimentos. Quando a temperatura externa e interna do alimento é alta o suficiente estes microrganismos morrem e assim não há risco de adoecer.  

6 – Não higienizar frutas e hortaliças adequadamente – Depois que chegar do mercado é importante higienizar frutas, hortaliças e legumes, mas preferencialmente antes do consumo e de forma correta. Podemos higienizar antes de guardar na geladeira, mas para isso todos os estes itens devem estar bem secos pois a umidade favorece a proliferação dos microrganismos, e podem estragar mais rapidamente. Frutas e legumes devem ser higienizados com água e sabão e hortaliças com solução de hipoclorito de sódio, a famosa água sanitária (1 colher de sopa para cada litro de água). É importante manter estes alimentos refrigerados, inclusive os ovos (estes fora da porta da geladeira, onde a temperatura oscila entre as aberturas). Também não lave os ovos antes de colocar na geladeira, isso pode contaminá-los. Se houver sujeira passe apenas um papel toalha limpo e só higienize com água e sabão imediatamente antes de utilizá-los. Além disso, enlatados e alimentos ensacados também devem ser limpos (água e sabão, ou papel toalha com álcool 70%). Lembre-se que as superfícies podem estar carregadas de microrganismos que causam doença. 

E a água? 

Medidas importantes para evitar doenças transmitidas pela água na sua casa são a limpeza da caixa d’água a cada 6 meses pois apesar do tratamento eficaz da nossa Companhia de Saneamento, a presença de sujeira nas caixas pode causar doenças graves.  Beba sempre água filtrada, mas se você não tiver filtro pode tratar a água com solução de hipoclorito de sódio ou ferver a água por 5 minutos. E se você usa garrafinhas de água higienize-as diariamente pois a agua parada dentro é ambiente propício para o crescimentosde fungos e manutenção de bactérias que podem até levar à morte. Lave as garrafas com água e sabão e use escovinhas próprias, pode também lavar com água quente e usar solução de água sanitária.  

Na página do Ministério da Saúde você encontra informações úteis para prevenção de doenças transmitidas por alimentos e água Use e abuse das fontes oficiais de informação em saúde. 

Viviane Alves

Viviane Alves é bióloga, mestre em Ciências, com ênfase em Microbiologia pela Universidade Federal de Minas (UFMG), doutora em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É professora adjunta do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, com atuação há 15 anos na instituição. Também é divulgadora científica.

Viviane Alves

Email: [email protected]

Professora da UFMG

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