TikTok
Youtube
X (Twitter)
Instagram
Facebook
Whatsapp
Logomarca BHAZ

Colunas

A Escola Estadual Pedro II e as origens do neocolonial em BH

28/06/2026 às 12h35
Fachada frontal da Escola Estadual Dom Pedro II, projetada pelo arquiteto Carlos Santos. (Crédito: Iepha-MG).

Inaugurada em agosto de 1926, a Escola Estadual Dom Pedro II, outrora Grupo Escolar, chama a atenção pela exuberância da sua fachada, marcada por referências à arquitetura colonial mineira. Porém, além de figurar entre os mais belos edifícios escolares de Belo Horizonte, está entre os principais exemplares da arquitetura neocolonial brasileira e constitui um marco na busca por uma linguagem arquitetônica genuinamente nacional.

Nas primeiras décadas do século XX, a arquitetura neocolonial consolidou-se no Brasil como uma corrente que procurava valorizar a produção artística desenvolvida durante o período colonial. Em contraposição ao predomínio dos modelos europeus do ecletismo, especialmente os de influência francesa, seus defensores propunham que a produção arquitetônica nacional encontrasse inspiração no legado colonial brasileiro. Embora originada em matrizes europeias, essa arquitetura havia adquirido características próprias ao longo de mais de três séculos, sobretudo em Minas Gerais, onde mestres como Aleijadinho e Manoel da Costa Ataíde produziram algumas das mais notáveis expressões do barroco e do rococó brasileiros.

O governador Fernando Mello Vianna e a placa de fundação do Grupo Escolar Pedro II, mandado construir durante o seu governo e inaugurado em agosto de 1926. (Crédito: Correio da Manhã / Ulisses Morato / Montagem).

Em Minas Gerais, a introdução da arquitetura neocolonial contou com decisivo incentivo do poder público. Em 1925, o então presidente do estado, Fernando Mello Vianna, decidiu adotar o estilo nos futuros edifícios oficiais e promoveu uma iniciativa pioneira para embasar essa diretriz. O arquiteto Dario Renault Coelho e o fotógrafo J. M. Retes foram encarregados de percorrer cidades históricas como Mariana, Ouro Preto e Congonhas, produzindo desenhos e registros fotográficos de importantes exemplares da arquitetura colonial mineira. O objetivo era constituir um acervo documental que subsidiasse a elaboração de novos projetos inspirados nesse patrimônio.

A Praça Minas Gerais, em Mariana (MG), objeto de estudos dos arquitetos Dario Renault Coelho e Carlos Santos em 1925 e 1926, para subsidiar projetos arquitetônicos neocoloniais do governo mineiro. (Crédito: Sérgio Mourão, 2007).

A própria imprensa da época registrou essa iniciativa ao informar que o governo pretendia “aproveitar o estilo colonial na construção de alguns edifícios públicos”. A notícia revela que a adoção do neocolonial não foi apenas uma preferência estética, mas parte de uma política consciente de valorização da arquitetura histórica de Minas Gerais.

Notícia sobre pesquisas de campo do acervo arquitetônico colonial mineiro, realizadas por Dario Renault Coelho e J. M. Retes.
(Crédito: Jornal A Cruz – RJ, dezembro de 1925).

Foi nesse contexto que surgiu o projeto do Grupo Escolar Dom Pedro II. Encomendado pelo governo estadual e desenhado em 1926 pelo arquiteto Carlos Santos, o edifício também foi precedido por pesquisas de campo. Antes de elaborar o projeto, o arquiteto, vindo do Rio de Janeiro, realizou estudos da arquitetura colonial mineira, produzindo levantamentos gráficos de edificações históricas em Mariana (MG), que serviram de base para a sua proposta arquitetônica.

A Escola Estadual Dom Pedro II, projetada por Carlos Santos, um ícone da arquitetura neocolonial brasileira. (Fonte: Acervo IBGE, s.d.).

O resultado foi um edifício que reinterpretou, com grande apuro formal, elementos característicos da arquitetura colonial mineira, sobretudo a religiosa. O frontão curvo, a cobertura com telhas do tipo capa e canal, as colunas torsas, os painéis de azulejos, as pinhas ornamentais e outros detalhes não são meras reproduções do passado, mas uma reelaboração erudita da tradição construtiva luso-brasileira adaptada às necessidades de uma moderna escola pública.

Às vésperas de completar um século de existência, a Escola Estadual Pedro II permanece exemplarmente preservada e continua a testemunhar um momento decisivo da história da arquitetura brasileira, representando uma das primeiras tentativas de transformar a tradição arquitetônica de Minas Gerais em referência para uma produção arquitetônica autenticamente nacional.

Editado por: Ulisses Morato

Ulisses Morato

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.
Instagram

Ulisses Morato

Email: [email protected]

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.

Instagram

Mais lidas do dia

Leia mais