Giuseppe Lapertosa (1844-1935), cujo primeiro nome foi aportuguesado para José, nasceu em Gioia del Colle, comuna da Puglia, Itália. Transferiu-se para Belo Horizonte em 1910, integrando a geração de arquitetos imigrantes pioneiros que atuaram na construção da nova capital. Em sua trajetória profissional, prestou serviços de arquitetura à iniciativa privada por meio de requintados projetos, tendo seu registro efetivado na Secretaria de Obras Públicas de Belo Horizonte em 1911.

Além de dedicar-se à elaboração de projetos, Lapertosa foi o primeiro profissional de que se tem registro a organizar um curso formal de arquitetura e paisagismo em Belo Horizonte. Em 20 de julho de 1912, o jornal da comunidade italiana no Brasil — Il Bersagliere, Giornale Indipendente —, impresso no Rio de Janeiro em língua italiana, publicou uma nota sobre o funcionamento de uma escola modelo na capital mineira com várias ofertas formativas, o Centro Educativo Rainha Elena, destacando ainda o curso encabeçado por Lapertosa:
Da direção daquela associação patriótica, recebemos a comunicação […] que a escola funciona na rua Tupinambás, 356, no primeiro andar, ao lado do Real Consulado da Itália, das 11h às 16h.
Nota-se ainda que na mesma sala, sob a direção do arquiteto Sr. Giuseppe Lapertosa, a escola noturna de arquitetura, ornamentação e paisagismo também funciona, das 19h às 21h, e que para este curso especial, a mensalidade é de apenas cinco mil réis para cada aluno. [Tradução nossa].
Seus projetos arquitetônicos na capital datam da década de 1910 e foram concebidos, em sua maioria, para uso residencial, com composições alinhadas aos moldes da École des Beaux-Arts de Paris, seguindo o ecletismo de inspiração neoclássica. Trabalhando de forma autônoma em seu escritório, localizado na Rua dos Tupinambás, n. 1095 (numeração antiga)¹, foi responsável por projetar mais de 90 edificações de um ou dois pavimentos.

Em 1914, José Lapertosa formou uma sociedade profissional com Victor Renault Coelho (1892-1915) — filho do ilustre arquiteto Edgard Nascentes Coelho —, constituindo a firma Lapertosa & Renault, sediada no nobre endereço da Rua da Bahia, n. 981 (numeração antiga). O escritório tornou-se um dos mais requisitados de Belo Horizonte. No entanto, a morte precoce de Victor Renault, em 1915, aos 23 anos de idade, interrompeu drasticamente a curta e exitosa trajetória da sociedade, que, em apenas um ano de existência, produziu mais de trinta projetos arquitetônicos.
Já o arquiteto Octaviano Lapertosa, filho de José Lapertosa e Elisabetta Gallo — também nascido na Itália —, deu seguimento ao legado do seu pai em termos de prática profissional e ensino de arquitetura em Belo Horizonte. Octaviano foi responsável pelo projeto de inúmeras edificações relevantes na capital e um dos fundadores da primeira escola de arquitetura da cidade, em 1930.
Por fim, embora muitos imóveis projetados por José Lapertosa — individualmente ou em parceria com Victor Renault Coelho — não tenham resistido ao tempo, alguns foram preservados como patrimônio cultural, embelezando a cidade e testemunhando o legado do arquiteto na história construtiva de Belo Horizonte.
Nota:
1. Antes de 1923, a numeração dos imóveis em Belo Horizonte não seguia a regra de pares à direita e ímpares à esquerda a partir da origem das vias públicas.
Conheça algumas obras projetadas por José Lapertosa
1. Palacete Márcio Alves Ferreira (atual AFAS – Social e Cultural)

Este palacete, que atualmente abriga a Associação Feminina de Assistência Social e Cultural (AFAS – Social e Cultural), apresenta exuberante ornamentação em suas fachadas, destacando-se a rusticação (sulcos que imitam juntas de pedras), as molduras das janelas e os pináculos de coroamento. O imóvel, atualmente tombado pelo patrimônio cultural do município, pertenceu ao Sr. Márcio Alves Ferreira e teve seu projeto arquitetônico elaborado pelo escritório Lapertosa & Renault em 1912.
2. Casa de Afonso Pena Júnior (atual Casa UNA – Ânima Lab)

Esta primorosa casa em estilo eclético de influência neoclássica pertenceu a Afonso Pena Júnior, importante político e intelectual de Minas Gerais, filho do ex-presidente do Brasil e governador do estado, Afonso Pena. O projeto da moradia foi elaborado em 1913 por José Lapertosa e Victor Renault Coelho, sendo construída na Rua dos Aimorés, n. 1451.
O imóvel, tombado pelo patrimônio cultural estadual e municipal, além de apresentar os elementos usuais das casas ecléticas da capital, exibe um extraordinário trabalho em ferro fundido no gradil, na escada e na varanda, inspirado no estilo Art Nouveau (desenhos florais estilizados), presente também no traçado das janelas. Vale destacar que todos esses elementos em ferro foram produzidos em Belo Horizonte pela Fundição Moderna Magnavacca & Filhos, criada em 1908 por imigrantes italianos. Atualmente, o imóvel abriga a Casa UNA – Ânima Lab.
3. Casa na Avenida Pasteur

Este imóvel é um belíssimo exemplar da arquitetura doméstica em estilo eclético de Belo Horizonte, tombado pelo patrimônio cultural municipal. A construção foi projetada pelo arquiteto José Lapertosa em 1912 e localiza-se na Avenida Pasteur, n. 116. Sua fachada se destaca pelo coroamento ondulado e pela rica ornamentação com formas geométricas e vegetais. Cabe mencionar que as cores da fachada seguem um padrão estético contemporâneo.
4. Ginásio Mineiro (atual Corpo de Bombeiros Militar)

Nesta imponente edificação, construída na Rua Piauí, n. 1815, funcionou inicialmente o Colégio Belo Horizonte, embora sua denominação também tenha sido Colégio Anglo-Mineiro e Ginásio Mineiro. Atualmente, o imóvel é tombado pelo patrimônio cultural da cidade e integra um conjunto de prédios que abriga o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais.
O edifício, projetado pelo arquiteto José Lapertosa em 1913, foi implantado em diagonal ao terreno e segue um esquema clássico de composição, no qual prevalecem a simetria e as referências a elementos da arquitetura greco-romana (vergas arqueadas, pilastras com capitéis, frisos, entablamentos, balaústres, etc.). O renomado memorialista mineiro Pedro Nava estudou no Ginásio Anglo-Mineiro nos anos 1914 e 1915 e o eternizou no livro Balão Cativo (1974).
5. Residência do Dr. Antônio Aleixo (atual DPCA)

A edificação que abrigou a Escola de Enfermagem Carlos Chagas fica na Rua Professor Estêvão Pinto, n. 601, e foi projetada em 1914 pelos arquitetos José Lapertosa e Victor Renault Coelho, seguindo de maneira exemplar os cânones da arquitetura eclética de influência neoclássica.
O majestoso casarão, tombado pelo patrimônio municipal, foi originalmente concebido para ser a residência da família do Professor Antônio Aleixo. No entanto, posteriormente, desempenhou uma variedade de funções. Abrigou a Escola de Enfermagem Carlos Chagas, o Colégio Assunção, o Colégio Promove e o Centro de Referência Audiovisual (CRAV). Atualmente, é a sede da Diretoria de Patrimônio Cultural e Arquivo Público de Belo Horizonte (DPCA).











