É sabido que Belo Horizonte, desde os primórdios, abrigou célebres escritores que deram grandes contribuições para o enriquecimento da literatura nacional e, por que não dizer, mundial. No entanto, pouco se sabe sobre as edificações que os abrigaram, as quais, por sua diversidade estética e histórica, funcionam como um autêntico letramento arquitetônico. Aqui, portanto, falaremos literalmente de imóveis que serviram de moradia para alguns dos mestres das nossas letras, construídos em diversos estilos e que nos permitem empreender um grande passeio arquitetônico pela cidade.
O ecletismo para Drummond

Em relação a Carlos Drummond de Andrade, grande poeta mineiro nascido em Itabira, recordamos duas belas edificações em estilo eclético que, infelizmente, não existem mais: o Hotel Internacional e a famosa casa da Rua Silva Jardim.
No antigo e exuberante Hotel Internacional – icônica construção em estilo eclético que ficava na esquina da Rua da Bahia com a Rua dos Caetés – Carlos Drummond de Andrade passou momentos marcantes, tendo-o como um ponto de referência no início de sua trajetória literária. Além de ter sido a primeira moradia do poeta e de sua família quando chegaram a Belo Horizonte, em 1920, no térreo desse hotel funcionava o antigo Jornal de Minas, onde ele publicou seu primeiro artigo na grande imprensa, em abril de 1920, aos 17 anos. Posteriormente, por volta de 1950, quando o escritor não mais residia em Belo Horizonte, o antigo imóvel foi demolido para a construção do Edifício Itatiaia, que hoje integra o patrimônio edificado do município.
Sobre a Rua da Bahia, o primeiro eixo cultural da capital mineira e endereço do antigo Hotel Internacional, o próprio Drummond escreveu, em uma de suas crônicas do início dos anos 1930:
Eu conheci a rua da Bahia quando ela era feliz. Era feliz e tinha
um ar de importância que irritava as outras ruas da cidade.
Lembrando que a Rua da Bahia, além de importantes hotéis, abrigou inúmeros cafés, redações de jornais e revistas, bares, livrarias, a Academia Mineira de Letras e os icônicos Cine Odeon e Bar do Ponto.

O tradicional Bairro Floresta foi outra localidade da capital mineira que Drummond escolheu para morar – desta feita, numa charmosa casa de feição eclética, construída no início do século XX, na Rua Silva Jardim, n. 107, nas proximidades da igreja Nossa Senhora das Dores.
No entanto, lamentavelmente – a despeito de suas qualidades arquitetônicas e de ter sido o lar de um dos maiores escritores brasileiros – a edificação foi demolida para a construção de um inexpressivo prédio de apartamentos, provavelmente na década de 1980. Antes de ser derrubada, a casa sofreu algumas alterações que, em 1947, não passaram despercebidas ao célebre escritor mineiro e foram lamentadas no poema A Casa sem Raiz:
A casa não é mais de guarda-mor ou coronel.
Não é mais o Sobrado. E já não é azul.
É uma casa, entre outras.
[…]
A indelével casa me habitando, impondo
sua lei de defesa contra o tempo.
[…]
Rua Silva Jardim, ou silvo em mim?
O Art Déco para Guimarães Rosa

No caso de João Guimarães Rosa, temos a sorte de ainda poder apreciar um imóvel, construído em estilo Art Déco, no qual residiu o autor de Grande Sertão: Veredas. Trata-se da simpática casa térrea situada na Rua Leopoldina, n. 415, esquina com a Rua Congonhas, cuja autoria do projeto não foi encontrada.
Nascido em Cordisburgo, o ilustre escritor Guimarães Rosa passou parte da infância e a juventude na capital mineira, onde se formou em medicina e se casou com Lygia Cabral Penna em 1929. Na certidão desse matrimônio, já constava como endereço do casal a formosa casa Art Déco do bairro Santo Antônio.
Esse imóvel faz parte de um conjunto arquitetônico de treze casas da Rua Congonhas, tombadas pelo patrimônio municipal, que foi cenário do filme Menino Maluquinho, dirigido pelo cineasta mineiro Helvécio Raton em 1995, com roteiro baseado na obra infantojuvenil de outro brilhante mineiro, o cartunista Ziraldo.
Décadas após a saída de Guimarães Rosa dessa casa, ela veio a abrigar bares muito conhecidos da noite belo-horizontina, como o Lulu e o Botequim Santo Antônio.
O Modernismo para Lúcia Machado

A ilustre escritora e jornalista Lúcia Machado de Almeida, nascida em Santa Luzia e autora do célebre O Escaravelho do Diabo, e seu marido, Antônio Joaquim de Andrade e Almeida – que estudou arquitetura no Rio de Janeiro e foi diretor do Museu do Ouro em Sabará – contrataram, no início dos anos 1950, ninguém menos que o notável arquiteto Oscar Niemeyer para colocar o seu talento a serviço de um arrojado empreendimento imobiliário. O projeto resultou num dos mais icônicos prédios de apartamentos do Brasil – o Edifício Niemeyer, construído na Praça da Liberdade.
Na charmosa cobertura dessa escultural obra da arquitetura moderna, Joaquim e Lúcia – considerados por Lucio Costa como “o casal mais civilizado de Minas Gerais” – residiram até os anos 1970, onde receberam inúmeras personalidades de destaque nacional e internacional, como Guignard, Jorge Amado e Zélia Gattai, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, entre outros.
Vale mencionar que, antes da extraordinária obra modernista, a escritora Lúcia Machado de Almeida e sua família residiram em uma das mais graciosas moradias em estilo eclético da capital mineira – o famoso “Castelinho”, projetado por João Morandi em 1906. O antigo imóvel foi demolido na década de 1950 para dar lugar ao próprio Edifício Niemeyer, que hoje integra o patrimônio cultural da cidade.

O pós-modernismo para todos os escritores

A casa simbólica de todos os escritores mineiros, de todas as gerações, a Academia Mineira de Letras (AML), situada na Rua da Bahia, n. 1466, tem em seu magnífico anexo uma das mais expressivas realizações da arquitetura pós-moderna de Belo Horizonte em sua vertente contextualista – aquela que busca diálogos intensos com suas preexistências. Sob esse aspecto, a arquitetura do anexo da AML, projetada pelo escritório do renomado arquiteto Gustavo Penna (GPA&A) em 1990, é um gesto de reverência a outra obra-prima da nossa arquitetura residencial: a própria sede da AML, um belíssimo palacete eclético construído no início do século XX.
O anexo da AML, inaugurado em 1993, foi concebido de modo a estabelecer um estreito diálogo formal com a sede histórica da Academia Mineira de Letras, que fica ao seu lado. Nesse sentido, a arrojada parede curva do prédio novo direciona nosso olhar para o antigo palacete, valorizando-o pelo contraste formal e pela perspectiva criada a partir da rua. Além disso, sua cor, sua altura, a presença de colunas e da moldura no topo da fachada, e até mesmo a forma da abertura vertical na extremidade do volume mais alto fazem menção ao antigo casarão – um belo projeto de inspiração neoclássica, projetado em 1915 pelo arquiteto Antônio da Costa Christino, e ampliado em 1926 por Luís Signorelli.
O entrelaçamento entre as letras e a arquitetura de Belo Horizonte também se revela no legado de dois nobres imortais da AML. Um deles é o do ilustríssimo médico e político Juscelino Kubitschek, responsável pela criação do extraordinário Conjunto Arquitetônico da Pampulha, projetado por Niemeyer no ínicio doa anos 1940 e que atualmente integra a lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. Além disso, em 1944, num momento de dificuldades financeiras, JK garantiu a sobrevivência do então curso livre da Escola de Arquitetura de Belo Horizonte (EABH), ao incorporar sua manutenção ao orçamento da Prefeitura Municipal. O outro é o do brilhante artista, escritor, professor e historiador Aníbal Mattos, que deixou sua marca na cidade como um dos fundadores e docentes da EABH, nos anos 1930.











