Conforme o Dicionário Houaiss, a palavra estádio significa: “campo para jogos e provas esportivas, circundado por arquibancadas ou outras instalações destinadas ao público.” Desde a Antiguidade, essa tipologia construtiva – geralmente erguida em proporções monumentais – sempre fascinou os povos e foi objeto de extraordinárias soluções arquitetônicas, sobretudo a partir do século XIX, com o surgimento do futebol e suas disputas que passaram a arrastar multidões por todo o planeta.
Em Belo Horizonte, esse fenômeno não foi diferente. Desde os primórdios da cidade, os estádios de futebol vinculados aos clubes tradicionais da capital também foram importantes canais de expressão para os arquitetos locais. Neste artigo, recordaremos os primeiros estádios de futebol da nossa cidade – construções que acolheram uma das maiores paixões nacionais e contribuíram para a definição da nossa identidade cultural.
Antes de falar dos estádios propriamente ditos, é oportuno lembrar que a prática do futebol em Belo Horizonte foi introduzida pelo carioca Victor Serpa, que, no início do século XX, estudava direito na capital mineira. O local da primeira partida organizada por Serpa , ocorrida em 3 de maio de 1904, foi improvisado num gramado do Parque Municipal, inaugurado em 1897 com projeto do arquiteto Paul Villon.

A partir daí, com a fundação do primeiro clube da cidade, o Sport Club, em 1904, pelo mesmo Victor Serpa, a febre futebolística se alastrou pela cidade. Assim, não tardaram a surgir novos clubes, que logo demandariam locais para abrigar seus jogos e participariam dos primeiros campeonatos, cuja organização, a partir de 1915, ficou sob a responsabilidade da precursora Liga Mineira de Sports Athleticos.
Embora não tenha sido projetado como estádio de futebol, o antigo Prado Mineiro e atual Academia de Polícia Militar – inaugurado em 1906 como um elegante hipódromo – tornou-se, na prática, sobretudo a partir de 1914, o primeiro estádio de futebol de Belo Horizonte. O projeto arquitetônico, elaborado em estilo eclético pelo ilustre Edgard Nascentes Coelho em 1905, exibia, segundo o jornal Folha Pequena, um elegante pavilhão central, arquibancadas confortáveis cujas coberturas eram ornadas com lambrequins e arabescos, além de uma cúpula encimada com a bandeira da associação gestora do espaço.
Em 1921, o Prado Mineiro recebeu o primeiro jogo entre Athletico e Palestra Itália (atual Cruzeiro Esporte Clube), com vitória do Palestra Itália por 3 a 0, dando início à tradição de um dos mais disputados clássicos do páis.

Conheça os primeiros estádios de futebol de BH
Estádio do América Futebol Clube (1923)

Em 1921, o projeto arquitetônico para o Estádio do América Futebol Clube, elaborado pelo prestigiado arquiteto português Antônio da Costa Christino, foi exibido nas vitrines da sofisticada loja de moda Parc Royal, cujo edifício ainda existe na Rua da Bahia. Christino foi um dos expoentes da arquitetura eclética nas primeiras décadas da capital mineira. Seguiram-se as obras e o pioneiro estádio, com capacidade para 5 mil torcedores, foi inaugurado em maio de 1923. Assim como o estádio do Cruzeiro, que viria a ser inaugurado meses depois, as arquibancadas do estádio do Coelho foram construídas em madeira, recebendo seus torcedores até ser demolido em 1928. Posteriormente, em 1929, no local do antigo estádio do América foi erguido o Mercado Central.
Vale lembrar que, em setembro de 1928, o América viria a inaugurar um novo estádio, com arquibancadas para 10 mil pessoas, construídas em concreto armado, ficando popularmente conhecido como Estádio Alameda. Erguido entre as alamedas Ezequiel Dias e Álvaro Celso, no Bairro Santa Efigênia, a segunda casa desportiva do América permaneceu de pé até 1973, quando foi demolida para a construção de um hipermercado do Grupo Pão de Açúcar.
Estádio da Societá Sportiva Palestra Itália, atual Cruzeiro E. C. (1923)

O antigo Estádio da Societá Sportiva Palestra Itália, localizado na Avenida Augusto de Lima, onde hoje fica o Clube do Cruzeiro Barro Preto, foi inaugurado em setembro de 1923 com projeto do arquiteto Dario Renault Coelho – filho do ilustre arquiteto Edgard Nascentes Coelho e um dos mais destacados projetistas da arquitetura eclética em Belo Horizonte nas décadas de 1920 e 1930.
O estádio do Palestra Itália, primeira denominação do Cruzeiro Esporte Clube, tinha arquibancadas de madeira com capacidade para 5 mil torcedores e foi erguido num terreno cedido pela prefeitura, como era costume à época. Em 1944, a primeira casa da Raposa foi demolida para dar lugar a um novo estádio, projetado pelo arquiteto Oscar Ricardo, com arquibancadas de concreto e capacidade para 15 mil pessoas. Esse estádio passou a se chamar Juscelino Kubitschek de Oliveira e no local hoje funciona o Clube do Cruzeiro Barro Preto.
Estádio do Clube Atlético Mineiro (1929)

O Estádio Presidente Antônio Carlos, mais conhecido como Estádio de Lourdes, inaugurado em maio de 1929, foi a primeira casa do Clube Atlético Mineiro. No dia da inauguração, discursou um atleticano célebre, Aníbal Mattos – artista, escritor e professor que viria a ser, além de presidente do clube, um dos fundadores da Escola de Arquitetura de Belo Horizonte, em 1930.
O estádio do Galo, que apresentava traços da arquitetura Art Déco, foi pioneiro na capital no uso do concreto armado como técnica construtiva – assim como o estádio do América – e tinha arquibancadas com capacidade para 5 mil torcedores. Outra inovação do estádio foi a instalação, em 1930, de iluminação para jogos noturnos, sendo o primeiro campo de futebol em Minas Gerais a oferecer este recurso. O estádio funcionou até 1969, depois tornou-se o Campo do Lazer e, posteriormente, em 1994, foi demolido para a construção do Shopping Diamond Mall.











