O prestigiado intelectual Abílio Barreto, por meio da valiosa publicação intitulada Belo Horizonte: Memória Histórica e Descritiva (1936), escrita em dois volumes, consolidou-se como um dos principais nomes da historiografia de Belo Horizonte, tanto das origens coloniais da cidade, nos tempos do Arraial do Curral del Rei, quanto dos seus primeiros anos como nova capital de Minas Gerais. Não por acaso, uma das instituições guardiãs da memória belo-horizontina foi rebatizada em homenagem ao historiador após o seu falecimento: o Museu Histórico Abílio Barreto.
O segundo volume da referida publicação trata minuciosamente de um processo histórico que é de especial interesse para a temática aqui abordada: a transferência da capital de Minas Gerais de Ouro Preto para Belo Horizonte e, sobretudo, as obras envolvidas nessa gigantesca empreitada entre 1894 e 1897. Nesse período, a cidade reuniu cerca de 12.000 habitantes — governantes, empresários e trabalhadores, entre os quais um significativo contingente de imigrantes —, que foram responsáveis por erguer as edificações estatais e particulares para o seu funcionamento inicial.
Conforme Abílio Barreto, no momento da sua inauguração, a cidade contava com trinta e oito prédios públicos, um templo, quatro palacetes e cerca de quinhentas casas de “gosto moderno”, expressão que representava alinhamento estético com o ecletismo, estilo arquitetônico adotado nas edificações oficiais e pela população em geral. Desse conjunto, destacaremos aqui as duas primeiras construções de propriedade privada em Belo Horizonte: o imóvel de Carlos Eduardo Monte Verde, que existiu na Av. Amazonas, esquina com a Rua dos Tupinambás, e a casa de Luiz Lourenço Rodrigues, erguida na Rua São Paulo, ambas concluídas em março de 1896.

Em 11 de março de 1896, o jornal A Capital noticiou um importante fato ocorrido no dia 8 daquele mês: “Terminou na maior cordialidade a modesta reunião, que teve por fim festejar o auspicioso acontecimento da inauguração da primeira casa que se conclui na nova capital de minas.” A matéria referia-se à edificação térrea pertencente a Carlos Eduardo Monte Verde, cujo projeto arquitetônico foi o quinto de origem particular a ser aprovado pela Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC). Na sequência da inauguração, a edificação passou a abrigar o Hotel Monte Verde, considerado o primeiro do gênero na cidade. Esse imóvel existiu na Av. Amazonas, esquina com a Rua dos Tupinambás, sendo posteriormente demolido para a construção, no início dos anos 1940, do imponente Edifício IAPI — atual Superintendência Regional do INSS.

Poucos dias depois, em 22 de março de 1896, a casa térrea pertencente ao construtor Luiz Lourenço Rodrigues, cujo projeto arquitetônico foi o primeiro de origem particular a ser aprovado pela CCNC — provavelmente sob análise do arquiteto Alfredo Camarate —, tornou-se a segunda edificação privada a ser inaugurada em BH. A casa, que existiu na Rua São Paulo, n. 638, teve sua fachada reconstruída em 1905 para o seu novo proprietário, César Romero, segundo projeto do arquiteto Luiz Olivieri. Em 1916, o imóvel passou por nova reforma, com projeto de Octaviano Lapertosa, por encomenda de outro proprietário, o ilustre historiador Salomão de Vasconcellos, pai do arquiteto Sylvio de Vasconcellos. Nascido em 1916, é muito provável que Sylvio tenha passado a primeira infância nessa casa, que deixou de existir na segunda metade da década de 1940 com a construção do Edifício Minas Gerais, projetado pelo arquiteto Hermínio Gauzzi.

Decorridos praticamente 130 anos da inauguração dessas duas obras privadas pioneiras, térreas, o município de Belo Horizonte expandiu e verticalizou expressivamente a sua ocupação urbana, atingindo atualmente cerca de 900.000 imóveis, construídos em diversos estilos arquitetônicos, que atendem às demandas de uma população estimada pelo IBGE em mais de 2.400.000 habitantes. Dos imóveis existentes na capital mineira, cerca de 2.600 resistiram ao seu crescimento urbano, marcado por contínuas demolições, e hoje integram seu patrimônio cultural, estando tombados ou em processo de tombamento. Lamentavelmente, as duas obras pioneiras aqui retratadas não foram incluídas nesse rol.












