Uma das mais eloquentes manifestações da cultura material de uma sociedade, sobretudo se quisermos compreender o seu percurso histórico, é precisamente a arquitetura. E nada mais oportuno do que o aniversário de uma cidade para relembrarmos a linha do tempo desses poderosos registros em cimento e pedra, que revelam a identidade de um povo pelas marcas que deixam no território. Pois bem, em BH há um lugar muito especial que sintetiza a nossa cultura arquitetônica: a Praça da Liberdade.
Praça da Liberdade, coração antigo de Belo Horizonte, onde a cidade sonhava debaixo das árvores. (Carlos Drummond de Andrade).
Em 12 de dezembro de 2025, a capital mineira completa 128 anos de existência. Ao longo desse período, desde a sua inauguração em 1897, Belo Horizonte viveu 3 anos no século XIX, 100 anos no século XX e 25 anos no século XXI. A cidade, portanto, é um reflexo, sobretudo, do século XX, que foi o período da história em que assistimos às mais intensas e radicais transformações — em curtos intervalos de tempo — em todos os setores, inclusive na arquitetura.
Se considerarmos a expressão erudita da arquitetura, a nossa cidade assistiu, em pouco tempo, ao florescimento de seis estilos arquitetônicos: ecletismo, Art Déco, protomodernismo, modernismo, pós-modernismo e contemporâneo. Com exceção do protomodernismo, a admirável praça aqui lembrada apresenta todos eles. A título de comparação, e sem recuar muito no tempo, lembremos que a arquitetura barroca em Minas Gerais — um único estilo de construção — estendeu-se por todo o século XVIII e ainda avançou pelo século XIX.
Por outro lado, num contexto histórico de aceleradas mudanças, a homogeneidade arquitetônica da paisagem urbana dos primórdios de BH — cuja perda é frequentemente lamentada — começou a desintegrar-se precocemente em nossa curta trajetória. Se quisermos eleger um marco inicial desse fenômeno, podemos definir a construção do primeiro arranha-céu da cidade em 1935, quando o protomoderno Edifício Ibaté surgiu na Rua São Paulo, quase na esquina com a Av. Afonso Pena, e se impôs em nosso horizonte. De lá para cá, essa metamorfose urbana nunca parou.

Portanto, somos uma cidade arquitetonicamente multifacetada e, ao fim e ao cabo, a pluralidade é o que define a nossa identidade urbana. Nesse contexto, gostem ou não, o estilo arquitetônico de maior longevidade em nossa terra foi o modernismo, aquele mesmo que, com a Pampulha, nos trouxe o título de Patrimônio Cultural da Humanidade pelas magníficas obras de Oscar Niemeyer, encomendadas por Juscelino Kubitschek no início dos anos 1940. Aqui cabe uma ressalva: grande parte do que se convencionou chamar de arquitetura moderna é, na verdade, apenas um amontoado inexpressivo de tijolos e concreto armado a serviço do mercado imobiliário; trata-se, portanto, de construção banal que não deve ser confundida com arquitetura.

Dito isso, voltemos ao aniversário de BH e à Praça da Liberdade, onde, em 12 de dezembro de 1897, realizaram-se os festejos de inauguração da capital mineira. Atualmente, esse belo espaço da cidade é um verdadeiro livro a céu aberto que conta a história da nossa arquitetura, exibindo, por incrível que pareça, obras dos séculos XIX, XX e XXI. Sendo assim, para comemorarmos esta data, selecionamos um edifício representativo de cada uma das cinco correntes arquitetônicas ali presentes.
Praça da Liberdade, edifícios que contam a história da nossa arquitetura
1. Representante do ecletismo: Memorial Minas Gerais Vale

A antiga Secretaria de Estado da Fazenda, atual Memorial Minas Gerais Vale, projetada pelo arquiteto José de Magalhães, é uma edificação típica do ecletismo de inspiração neoclássica — linguagem dominante na produção da Comissão Construtora da Nova Capital. Nesse edifício, inaugurado em 1897, destacam-se os elementos resgatados da Antiguidade que caracterizam esse estilo historicista: frontões triangulares, colunas de ordens clássicas, frisos com rusticação, fachadas tripartites (base, corpo e coroamento), arcos e ornamentação figurativa.
2. Representante do Art Déco: Palácio Arquiepiscopal

O Palácio Arquiepiscopal foi projetado em 1935 pelos arquitetos Raffaello Berti e Luiz Signorelli, no estilo Art Déco. No mesmo ano e no mesmo estilo, os arquitetos conceberam outro importante edifício Belo Horizonte — o Palácio da Municipalidade (Prefeitura Municipal). O Art Déco aboliu a ornamentação rebuscada nas fachadas e se manifestou por volumes mais puros — ora cúbicos, ora arredondados —, que receberam ornatos geometrizados, sendo a decoração figurativa praticamente eliminada dessas construções. Além disso, muitas fachadas, como a do Palácio Arquiepiscopal, foram revestidas com a argamassa conhecida como pó de pedra, que confere um tom cinza e brilhante ao exterior dos imóveis.
3. Representante do modernismo: Escola de Desigen da UEMG

O prédio da Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), antiga sede do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais (Ipsemg), foi inaugurado em 1965, com um projeto modernista do arquiteto mineiro Raphael Hardy Filho, elaborado em 1955. Essa construção apresenta as principais características da arquitetura moderna ortodoxa: volumes puros e sobrepostos; ausência de ornamentos; fachadas envidraçadas; estrutura de concreto armado; pilotis; cobertura plana.
4. Representante do pós-modernismo: “Rainha da Sucata”

Numa abordagem rápida, a Rainha da Sucata, projetada pelos arquitetos Éolo Maia e Sylvio de Podestá em 1985 e inaugurada em 1992, corre o risco de ser considerada um “estranho no ninho”. No entanto, trata-se de um dos edifícios da Praça da Liberdade que mais dialogam com o seu entorno, seguindo vários preceitos da arquitetura pós-moderna, que foi introzida no Brasil pelos arquitetos de BH. Sua composição, vibrante e de cunho historicista-interpretativo, apresenta releituras de elementos dos prédios vizinhos, como colunas, frontões e cúpulas do ecletismo; formas escalonadas do Art Déco; e esquadrias envidraçadas com desenho modernista. Por outro lado, a construção utilizou estruturas e revestimentos em aço — material típico das siderúrgicas mineiras, até então pouco explorado na arquitetura brasileira.
5. Representante da arquitetura contemporânea: Espaço do Conhecimento da UFMG

O edifício que abriga o Espaço do Conhecimento da UFMG é uma obra em estilo contemporâneo inaugurada em 2010, projetada pela arquiteta Jô Vasconcellos. No século XXI, a chamada arquitetura contemporânea é marcada pela multiplicação sem precedentes de linguagens e tecnologias construtivas. Uma de suas vertentes se caracteriza pelo envelopamento dos edifícios com peles de vidro ou materiais metálicos e pela incorporação de componentes digitais às estruturas, como ocorre no edifício onde funciona o Espaço do Conhecimento da UFMG.











