Na Rua da Bahia, n. 2425, um antigo casarão hoje denominado Casa Rosada Gasmig Minas, nome adotado com a recente reabertura do imóvel ao público como espaço cultural, segue chamando a atenção de quem passa em frente. Em estilo eclético, a residência, projetada em 1929 pelo ilustre arquiteto Luiz Signorelli (1896-1964), não se destaca na paisagem urbana apenas pelo porte, mas também pela delicadeza dos seus detalhes. Sua imponência e firmeza construtiva contrastam com a graciosidade dos elementos ornamentais, conferindo à arquitetura uma notável dimensão dialética.

Tombado pela municipalidade em 2002 e cedido pela prefeitura ao Minas Tênis Clube para uso público, o imóvel passou por um processo de restauração e adaptação para acessibilidade entre 2018 e 2020, com base em projeto desenvolvido pelo escritório Arquitetos Associados e aprovado pelo Conselho do Patrimônio de Belo Horizonte. A reabertura ao público, em agosto de 2025, marcou um novo momento para a edificação, que passou a funcionar sob a responsabilidade do Centro Cultural Unimed-BH Minas, em parceria com a Gasmig, reforçando a vocação cultural da Rua da Bahia.

Luiz Signorelli — arquiteto central na formação da arquitetura belo-horizontina na primeira metade do século XX — projetou a casa a partir do repertório eclético, linguagem predominante nas três primeiras décadas da capital. O edifício revela essa estética arquitetônica de forma equilibrada, combinando elementos neoclássicos, como a composição simétrica, a sobriedade ornamental, as colunas com capitéis jônicos, as balaustradas e as arquitraves (vigas decoradas).

Mas é nos detalhes que a construção revela a sua delicadeza e poesia. A rosa, elemento que acabou rebatizando o imóvel, aparece de forma recorrente: nos capitéis das colunas, nos vitrais da escadaria, nos relevos em forma de botão da arquitrave superior da fachada, nas tranças da figura feminina esculpida sobre o arco da antiga garagem e nas sancas da sala de jantar. As prospecções pictóricas realizadas durante a restauração confirmaram, inclusive, a tonalidade rosada original da fachada. Não se trata de ornamento gratuito: a escolha por motivos florais, linhas curvas e pela ordem jônica — tradicionalmente associada a templos dedicados a divindades femininas — constrói uma narrativa coerente, que reforça a graciosidade do conjunto.


Nos espaços internos, a arquitetura combina requinte e conforto. Os pisos de parquet — executados com madeiras em duas tonalidades —, os mosaicos cerâmicos nas áreas molhadas, as pinturas decorativas com motivos florais e as bandeiras de portas, de inspiração art nouveau, revelam o cuidado com a ambientação. O uso extensivo da madeira contribui para uma atmosfera acolhedora, enquanto a presença de uma garagem, já nos anos 1930, indica o padrão social e a modernidade dos seus primeiros moradores.

Embora o projeto arquitetônico tenha sido aprovado na municipalidade em nome de Agenor Gomes Nogueira, o casarão foi efetivamente ocupado por décadas pelo casal Miguel Maurício da Rocha (1901–1970) e Maria Cecília Maurício da Rocha (1903–2001). Miguel foi engenheiro, banqueiro, professor e um dos fundadores da Faculdade de Filosofia da UFMG; Maria Cecília destacou-se como escritora e poeta, autora, entre outros trabalhos, de uma fotobiografia pessoal. A casa foi, portanto, cenário de uma intensa vida intelectual e cultural.
A reabertura do casarão ao público foi marcada pela exposição Habitar o /in/visível – Coabitar a Cidade, inaugurada em novembro de 2025 como mostra de longa duração, com curadoria de Marconi Drummond e Maurício Meirelles. A mostra busca estabelecer um diálogo direto entre a arquitetura da casa e a história da Rua da Bahia e da cidade, por meio de objetos arquivísticos, artísticos e digitais que remetem à formação urbana de Belo Horizonte — um autêntico tratado visual de interpretação e memória.

O arquiteto Luiz Signorelli

Luiz Signorelli (1896-1964) foi um dos mais notáveis arquitetos a atuar em Belo Horizonte ao longo da primeira metada do século XX. Natural de Cristina, no sul de Minas Gerais, formou-se em Arquitetura pela Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, em 1925, integrando a primeira geração de arquitetos mineiros diplomados a exercer a profissão na capital.
Em Belo Horizonte, deixou um conjunto expressivo de obras, entre as quais se destacam o casarão da Academia Mineira de Letras (1926), na Rua da Bahia; o atual Centro Cultural Banco do Brasil (1930), na Praça da Liberdade; o edifício do Automóvel Clube (1929), na confluência das avenidas Afonso Pena e Álvares Cabral; o Hotel Sulamericano (1928), no encontro da Avenida Amazonas com a Rua dos Caetés; o Palacete da família Falci (1929), na Avenida Bias Fortes; e o Teatro Francisco Nunes (1950), no Parque Municipal.

Em parceria com o arquiteto Raffaello Berti, assinou ainda a sede social do Minas Tênis Clube (1937), localizada nas proximidades do imóvel aqui apresentado, bem como o Palácio Arquiepiscopal (1935), na Praça da Liberdade, e a sede da Prefeitura Municipal (1935). Além disso, em 1930, Signorelli foi um dos fundadores da Escola de Arquitetura de Belo Horizonte, a terceira a ser criada no país, onde atuou como professor e diretor.











