No início dos anos 1920, aquele que viria a se tornar o maior político mineiro de todos os tempos e um dos mais destacados do Brasil, Juscelino Kubitschek (1902–1976), chegou de sua terra natal, a histórica Diamantina (MG), a Belo Horizonte — cidade recém-criada para marcar o ingresso de Minas Gerais na era republicana. Na nova capital, o brilhante diamantinense, também conhecido como JK, viveu por muitos anos: conheceu seus melhores amigos da fase adulta, estudou medicina, casou-se, exerceu sua profissão em hospitais e consultórios e ainda foi prefeito e governador antes de assumir a Presidência da República.
A relação de Kubitschek com a cidade foi intensa e afetiva, como podemos apreciar em inúmeros relatos no seu livro de memórias intitulado Meu Caminho para Brasília (1974), publicado em três volumes. No primeiro livro dessa trilogia, com o subtítulo A Experiência da Humildade, JK narrou sua jornada em Belo Horizonte — desde o primeiro contato, em 1920, quando veio morar num modesto porão de um sobrado na Avenida Afonso Pena (hoje o Hotel Financial), até assumir a prefeitura da cidade, em 1940, coincidentemente localizada na mesma avenida, a poucos quarteirões da sua primeira moradia.

Nesse período, do ponto de vista da arquitetura, a cidade viu florescer duas expressões construtivas de suma importância para a constituição da sua identidade urbana — o exuberante ecletismo da Belle Époque montanhesa, que marcou a Velha República, e o arrojado e elegante Art Déco, um dos símbolos da Era Vargas. Aqui, a partir de seus próprios relatos, interessa-nos apresentar alguns edifícios com os quais um dos mais proativos políticos de Minas e do Brasil, no campo da arquitetura, se relacionou na jovem capital.
Nesse sentido, a partir das memórias de Juscelino Kubitschek, referentes às décadas de 1920 e 1930, destacaremos algumas admiráveis construções de Belo Horizonte — muitas ainda existentes e outras já demolidas — com as quais ele interagiu em suas vivências de moradia, estudo, trabalho e lazer. Vale lembrar que, em seu primeiro contato com a jovem capital mineira, ainda provinciana aos olhos de alguns, JK assim a descreveu: “Para mim foi, entretanto, um deslumbramento.”
Conheça dez edificações que resgatam a trajetória de JK na capital mineira
1. Antiga Faculdade de Medicina

A antiga Faculdade de Medicina, um magnífico exemplar da arquitetura eclética de inspiração neoclássica, foi projetada em 1911 pelo ilustre arquiteto Francisco Izidro Monteiro, sendo inaugurada em 1914. Monteiro também foi responsável pelos projetos do Conselho Deliberativo (atual Museu da Moda) e da Maternidade Hilda Brandão.
Em 1922, oito anos após a sua fundação, Juscelino Kubitschek ingressou nessa instituição de ensino para iniciar seus estudos e a frequentou assiduamente até 1927, quando se formou. O antigo edifício, que possuía 3.500 metros quadrados, começou a ser demolido para dar lugar à atual Faculdade de Medicina da UFMG, cuja inauguração ocorreu em 1961. Atualmente, este edifício integra o Campus Saúde da universidade, junto à Avenida Alfredo Balena.
2. Antiga sede dos Correios e Telégrafos

Por vários anos, JK frequentou a antiga sede dos Correios e Telégrafos em Belo Horizonte para trabalhar como telegrafista, cargo que exerceu paralelamente ao seu curso de medicina. Essa belíssima edificação em estilo eclético — inaugurada em 1906, onde hoje se encontra o Ed. Sulacap-Sulamérica, na Avenida Afonso Pena — também foi projetada pelo arquiteto Francisco Izidro Monteiro. Infelizmente, em 1940, com apenas 34 anos de existência, a obra foi demolida.
3. Hospital Militar

O Hospital Militar da Força Pública de Minas Gerais — atual Espaço Comum Luiz Estrela — foi inaugurado em 1914, como o terceiro hospital da nova capital. Nesse local, entre 1931 e 1945, Juscelino Kubitschek trabalhou como médico da Polícia Militar de Minas Gerais, sendo chefe do Laboratório de Análises Clínicas e da Clínica Cirúrgica.
O imóvel, cuja autoria do projeto arquitetônico não foi identificada, foi construído em estilo eclético e atualmente é tombado pelo patrimônio municipal. Esse antigo local de trabalho de JK — que só viria a abandonar a medicina em 1945 para dedicar-se exclusivamente à política — tem como endereço a Rua Manaus, n. 348, Bairro Santa Efigênia.
4. Edifício Parc Royal

Após formar-se em medicina, em 1927, Juscelino foi convidado por um grande amigo, o médico Júlio Soares, para ser seu sócio no consultório particular que ficava no imponente Edifício Parc Royal, situado na Rua da Bahia, n. 902. O imóvel, projetado em 1920 por Luiz Moraes Júnior em estilo eclético, atualmente integra o patrimônio cultural de Belo Horizonte, sendo um registro notável dos primórdios da cidade.
O Edifício Parc Royal, construído para abrigar a filial de uma sofisticada loja de moda de mesmo nome do Rio de Janeiro, atualmente é ocupado pela Caixa Econômica Federal, constituindo um dos mais importantes testemunhos da passagem profissional de JK pela capital mineira.
5. Edifício Ibaté

O segundo consultório médico particular de JK em Belo Horizonte teve lugar no primeiro andar do icônico Edifício Ibaté, localizado na Rua São Paulo, n. 498, quase esquina com Av. Afonso Pena. Inaugurado em 1935 como o primeiro arranha-céu da cidade, foi um dos mais notórios símbolos de uma cidade que vislumbrava sua modernização. O Ibaté — com seus 10 pavimentos e cujo nome em tupi-guarani significa “o ponto mais alto” — foi projetado pelo arquiteto mineiro Ângelo Murgel, o mesmo autor do também icônico Cine Brasil.
Além disso, o Ibaté foi uma das primeiras construções da cidade a utilizar estrutura de concreto armado e a apresentar alguns princípios da Arquitetura Moderna, como a eliminação dos ornamentos. Esse edifício, cuja estética se alinhava ao espírito arrojado de Juscelino Kubitschek, foi o local de trabalho do médico diamantinense entre 1935 e 1938, e ainda permanece na paisagem da capital como outro notável testemunho da sua trajetória profissional.
6. Edifício Capixaba

Em agosto de 1938, o jornal Estado de Minas reportava a conclusão daquele que foi o segundo arranha-céu de Belo Horizonte:
Ainda este mês será inaugurado o ‘Edifício Capichaba’. […] O prédio, sito à Rua Rio de Janeiro, no quarteirão abaixo da Av. Afonso Pena, tem 13 andares e 50 metros de altura, e foi edificado especialmente para escritórios e consultórios, obedecendo aos requisitos técnicos mais modernos exigidos para esse fim.
Não por acaso, logo após a inauguração do novo símbolo de modernidade da capital mineira, Juscelino Kubitschek transferiu seu consultório para algumas de suas salas. O imponente prédio, localizado na Rua Rio de Janeiro, n. 430, foi projetado em linguagem protomoderna pelo arquiteto Luiz Signorelli, um dos mais proeminentes profissionais da cidade em seu tempo e um dos fundadores da Escola de Arquitetura de Belo Horizonte, em 1930.
Embora as fachadas do Edifício Capixaba já estivessem despidas de ornamentos, sua elevação frontal ainda mantinha o tradicional esquema tripartite, apresentando base, corpo e coroamento. Atualmente, apesar deste imóvel histórico já não figurar entre os mais altos do Centro e não estar tombado, ele preserva suas características originais.
7. Casa na Rua Ouro Preto

Se, no final da década de 1930, os consultórios privados de JK foram instalados em edificações que simbolizavam a modernização da arquitetura na capital, sua residência, já na condição de casado com Sarah Luiza Lemos Kubitschek, ainda apresentava uma linguagem tradicionalista, bem ao gosto romântico, impressa num casarão eclético de inspiração normanda, situado na Rua Ouro Preto, n. 846, no Bairro Barro Preto.
Esse imóvel teve o projeto inicial assinado pelo escritório Lage & Nóbrega em 1938 e foi reformado com acréscimo em 1943, com projeto elaborado pelo arquiteto Tarcísio Silva. Pelo seu valor histórico e arquitetônico, a edificação foi tombada pelo município, garantindo sua integridade para as futuras gerações.
No primeiro volume do seu livro de memórias, Meu Caminho para Brasília (1974), JK assim descreveu essa residência:
Naquele momento, por exemplo, já estava morando na minha nova casa, da Rua Ouro Preto – ampla, confortável, com diversas salas no andar térreo e três apartamentos, inteiramente independentes e dotados de salas de banho, no pavimento superior, o que era uma novidade em Belo Horizonte.
8. Antigo Cinema Odeon

O Cinema Odeon integrou os lugares de lazer frequentados por JK no vibrante circuito cultural que se formou ao longo da Rua da Bahia nas primeiras quatro décadas da capital. Esse requintado imóvel, projetado por algum talentoso arquiteto pioneiro de BH em estilo eclético de influência neoclássica, ficava no n. 860, do lado direito para quem subia a Rua da Bahia, de frente para o Bar Trianon e ao lado da edificação que abrigava o icônico Bar do Ponto — dois outros requisitados locais de encontro daquela época para os inquietos intelectuais, artistas e políticos da cidade.
O poeta Carlos Drummond de Andrade — que fora colega de JK num curso particular de preparação para exames de admissão ao ensino superior —, por ocasião do fechamento do Odeon, em 1928, lamentou o ocorrido no poema O Fim das Coisas:
Fechado o Cinema Odeon, na Rua da Bahia.
Fechado para sempre.
Não é possível, minha mocidade
fecha com ele um pouco.
Não amadureci ainda bastante
para aceitar a morte das coisas
[…]
9. Antigo Cine Pathé

Numa das passagens de suas memórias, em que narra o período dos seus estudos na Faculdade de Medicina, JK relatou: “Aos domingos, costumávamos ir ao Cinema Pathé ou ao Odeon, se o filme era bom.” O Pathé dos tempos de Kubitschek foi uma das mais exuberantes edificações em estilo eclético dos primeiros anos de Belo Horizonte. A notável construção, projetada pelo arquiteto Octaviano Lapertosa, foi inaugurada em 1920, na Av. Afonso Pena, n. 749. Em meados da década de 1930, o imóvel foi reformado, e sua fachada eclética refeita com traços modernistas, que então começavam a aportar na cidade.
10. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte

O culminar da primeira fase da trajetória de Juscelino Kubitschek em Belo Horizonte deu-se com sua nomeação para ocupar o cargo de prefeito da cidade, no início de 1940, no contexto político do Estado Novo. Ato contínuo, o seu novo local de trabalho passou a ser o magnífico Palácio da Municipalidade (Prefeitura Municipal), obra de grande destaque na Avenida Afonso Pena em estilo Art Déco.
Esse edifício foi projetado em 1935 pelos arquitetos Raffaello Berti e Luiz Signorelli, a partir de concurso público de anteprojetos para escolha dos profissionais. Inaugurada em 1937, trata-se de uma das mais emblemáticas construções dessa linguagem arquitetônica em BH, que prezava pela geometrização dos ornamentos, pela simplificação e escalonamento das formas, pelo uso do revestimento em pó de pedra e, sobretudo, pelos marcantes feixes de relevos horizontais e verticais.
A Prefeitura de Belo Horizonte está no grupo de imóveis que marcaram o cotidiano de JK e que atualmente integram o patrimônio cultural do município.











