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Era uma vez uma concha acústica no Parque Municipal

06/11/2025 às 11h11
Maquete da Concha Acústica do Parque Municipal (1956), projeto do arquiteto Ulpiano Nunes Muniz. (Crédito: Arquivo Público Mineiro).

No final do século XIX, quando o arquiteto francês Paul Villon projetou o Parque Municipal, não imaginava que, seis décadas depois, um arquiteto das verdejantes terras amazonenses, radicado em Belo Horizonte, viria a projetar uma arrojada concha acústica para aquelas paragens, também ricas em arborização. No final dos anos 1950, na gestão do prefeito Celso Mello de Azevedo, foi inaugurada no Parque Municipal Américo Renné Giannetti a nova arena musical ao ar livre de Belo Horizonte, a Concha Acústica do Parque, cujo projeto foi elaborado pelo arquiteto Ulpiano Nunes Muniz, profissional egresso da Escola de Arquitetura da UFMG.

A Concha Acústica do Parque em 1966, já apresentando nítidos sinais de abandono. (Crédito: APCBH).

Em 15 de fevereiro de 1959, o jornal Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, destacou o pioneirismo do feito arquitetônico mineiro em relação ao cenário nacional com a seguinte manchete: “Minas constrói a primeira concha acústica do Brasil.” O diário carioca ainda apresentou informações relevantes que nos permitem voltar no tempo e conhecer melhor uma construção pouco lembrada, mas que foi uma exemplar realização da cidade, que existiu até o início da década de 1980:

Constitui uma das últimas novidades em arquitetura moderna extravagante, comum na capital mineira. […] A concha é projeto do arquiteto Ulpiano N. Muniz e a construção é do engenheiro Walter Coscarelli. No Brasil, é a primeira a entrar em funcionamento, existindo outra em Porto Alegre, ainda em construção. […] Ela será doravante outro ponto de atração turística em Belo Horizonte, além do conjunto arquitetônico da Pampulha, famoso em todo o mundo. […] A concha acústica é ainda, segundo os técnicos, a quarta no mundo.

Nos primeiros anos de funcionamento, a Concha Acústica do Parque atraiu milhares de pessoas aos concertos sinfônicos ao ar livre que ali ocorriam semanalmente, incluindo festivais de jazz e música popular. No entanto, a despeito do grande sucesso que alcançou junto à população, o poder público não se empenhou em manter uma programação ativa na concha, tampouco em oferecer a devida manutenção predial do magnífico equipamento cultural.

Mesmo antes de a concha acústica ser inaugurada, o arquiteto Ulpiano Nunes Muniz manifestou seu descontentamento com o andamento da construção em carta ao prefeito, datada de junho de 1958, relatando: “sensíveis alterações efetuadas no Projeto e uma nova orientação dos trabalhos, adotada por órgãos responsáveis dessa Prefeitura”, e advertindo que as modificações na obra-monumento, à sua revelia, levariam ao desvirtuamento de sua concepção original. De fato, nota-se que, daquela sofisticada criação arquitetônica, revelada pelas imagens da maquete, pouco sobrou devido às mutilações do projeto ocorridas durante a execução da obra.

A concepção original do projeto de Ulpiano Nunes Muniz para a Concha Acústica do Parque, expressa em sua maquete de 1956. (Crédito: Arquivo Público Mineiro).

Já em meados dos anos 1960, muito precocemente, os jornais da época noticiavam o completo abandono da edificação, revelando sua degradação por infiltrações, quebra de vidros, acúmulo de mato, entulho e formigueiros. Embora as gestões municipais tenham anunciado várias vezes sua recuperação — e até cogitado transformá-la em estúdio de rádio ou lanchonete —, nada se concretizou, e seu destino foi mesmo a demolição, entrando para a lista das grandiosas construções varridas do mapa de Belo Horizonte.

A Concha Acústica do Parque em 1966, com a edificação e seu entorno em estado de abandono. (Crédito: APCBH).

O arquiteto Ulpiano Nunes Muniz

Ulpiano Nunes Muniz (ao centro) em visita à sua cidade natal, Manaus, em 1958. (Crédito: jornal A Crítica).

O arquiteto Nunes Muniz (1926–2022) — que desenvolveu sua obra dentro dos preceitos modernistas vigentes no Brasil — nasceu em Manaus e transferiu-se com a família para Belo Horizonte, onde cursou o científico no Colégio Padre Machado entre 1943 e 1945, concluindo o curso superior em 1952, na Escola de Arquitetura da UFMG.

Sua profícua trajetória profissional na arquitetura se desenvolveu em Belo Horizonte até a década de 1980, período em que criou um acervo com centenas de obras, abrangendo desde a escala residencial até grandes edifícios — alguns dos quais ainda marcam a paisagem urbana da capital mineira e de outras cidades, como Manaus, Uberlândia (MG) e Betim (MG).

O arquiteto também se dedicou às artes plásticas, alcançando a expressiva marca de 1.600 pinturas vendidas ao longo de seu percurso artístico, chegando a integrar o Fine Arts Guide de Nova Iorque.

Perspectiva aguarelada de um projeto residencial, dos anos 1960, de autoria de Nunes Muniz. (Crédito: acervo da família).
Algumas obras de BH projetadas por Ulpiano
Ed. Joaquim de Paula, projetado em 1955 com Oswaldo Santa Cruz Nery. (Crédito: Ulisses Morato).
Edifício Solar, projetado em 1955. Av. João Pinheiro, 85. (Crédito: Ulisses Morato).
Hotel Excelsior, projetado em 1956. Praça Rio Branco. (Crédito: Cartão-postal / reprodução).

Editado por: Ulisses Morato

Ulisses Morato

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.
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Email: [email protected]

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.

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