No final do século XIX, quando o arquiteto francês Paul Villon projetou o Parque Municipal, não imaginava que, seis décadas depois, um arquiteto das verdejantes terras amazonenses, radicado em Belo Horizonte, viria a projetar uma arrojada concha acústica para aquelas paragens, também ricas em arborização. No final dos anos 1950, na gestão do prefeito Celso Mello de Azevedo, foi inaugurada no Parque Municipal Américo Renné Giannetti a nova arena musical ao ar livre de Belo Horizonte, a Concha Acústica do Parque, cujo projeto foi elaborado pelo arquiteto Ulpiano Nunes Muniz, profissional egresso da Escola de Arquitetura da UFMG.

Em 15 de fevereiro de 1959, o jornal Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, destacou o pioneirismo do feito arquitetônico mineiro em relação ao cenário nacional com a seguinte manchete: “Minas constrói a primeira concha acústica do Brasil.” O diário carioca ainda apresentou informações relevantes que nos permitem voltar no tempo e conhecer melhor uma construção pouco lembrada, mas que foi uma exemplar realização da cidade, que existiu até o início da década de 1980:
Constitui uma das últimas novidades em arquitetura moderna extravagante, comum na capital mineira. […] A concha é projeto do arquiteto Ulpiano N. Muniz e a construção é do engenheiro Walter Coscarelli. No Brasil, é a primeira a entrar em funcionamento, existindo outra em Porto Alegre, ainda em construção. […] Ela será doravante outro ponto de atração turística em Belo Horizonte, além do conjunto arquitetônico da Pampulha, famoso em todo o mundo. […] A concha acústica é ainda, segundo os técnicos, a quarta no mundo.
Nos primeiros anos de funcionamento, a Concha Acústica do Parque atraiu milhares de pessoas aos concertos sinfônicos ao ar livre que ali ocorriam semanalmente, incluindo festivais de jazz e música popular. No entanto, a despeito do grande sucesso que alcançou junto à população, o poder público não se empenhou em manter uma programação ativa na concha, tampouco em oferecer a devida manutenção predial do magnífico equipamento cultural.
Mesmo antes de a concha acústica ser inaugurada, o arquiteto Ulpiano Nunes Muniz manifestou seu descontentamento com o andamento da construção em carta ao prefeito, datada de junho de 1958, relatando: “sensíveis alterações efetuadas no Projeto e uma nova orientação dos trabalhos, adotada por órgãos responsáveis dessa Prefeitura”, e advertindo que as modificações na obra-monumento, à sua revelia, levariam ao desvirtuamento de sua concepção original. De fato, nota-se que, daquela sofisticada criação arquitetônica, revelada pelas imagens da maquete, pouco sobrou devido às mutilações do projeto ocorridas durante a execução da obra.

Já em meados dos anos 1960, muito precocemente, os jornais da época noticiavam o completo abandono da edificação, revelando sua degradação por infiltrações, quebra de vidros, acúmulo de mato, entulho e formigueiros. Embora as gestões municipais tenham anunciado várias vezes sua recuperação — e até cogitado transformá-la em estúdio de rádio ou lanchonete —, nada se concretizou, e seu destino foi mesmo a demolição, entrando para a lista das grandiosas construções varridas do mapa de Belo Horizonte.

O arquiteto Ulpiano Nunes Muniz

O arquiteto Nunes Muniz (1926–2022) — que desenvolveu sua obra dentro dos preceitos modernistas vigentes no Brasil — nasceu em Manaus e transferiu-se com a família para Belo Horizonte, onde cursou o científico no Colégio Padre Machado entre 1943 e 1945, concluindo o curso superior em 1952, na Escola de Arquitetura da UFMG.
Sua profícua trajetória profissional na arquitetura se desenvolveu em Belo Horizonte até a década de 1980, período em que criou um acervo com centenas de obras, abrangendo desde a escala residencial até grandes edifícios — alguns dos quais ainda marcam a paisagem urbana da capital mineira e de outras cidades, como Manaus, Uberlândia (MG) e Betim (MG).
O arquiteto também se dedicou às artes plásticas, alcançando a expressiva marca de 1.600 pinturas vendidas ao longo de seu percurso artístico, chegando a integrar o Fine Arts Guide de Nova Iorque.















