Em outubro de 1894, a Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) – criada pelo governo de Minas Gerais para planejar e edificar a então “Cidade de Minas”, destinada a substituir em suas funções a ancestral Ouro Preto – publicou o regulamento de funcionamento das suas divisões de trabalho. Em um dos seus artigos, esse regulamento definiu a função primordial da Seção de Arquitetura, uma das principais áreas técnicas da CCNC. Segundo o texto, coube a essa seção:
[…] a organização de todos os projetos de edifícios, monumentos, jardins, bosques, avenidas e mais construções arquitetônicas, que tenham de ser executadas na nova capital.
Sendo assim, o engenheiro Aarão Reis, chefe da CCNC, convocou o pernambucano José de Magalhães – seu colega na Escola Politécnica do Rio de Janeiro – para a nobre função de chefiar a Seção de Arquitetura, tornando‑o, com esse ato, o primeiro arquiteto de Belo Horizonte. Na condição de chefe da seção, Magalhães foi autor de alguns dos mais importantes projetos arquitetônicos da nascente capital, cujos traços se alinhavam ao ecletismo de influência francesa.
Em Belo Horizonte, as principais obras criadas por José de Magalhães foram: a Estação Ferroviária General Carneiro; o Palácio Presidencial (atual Palácio da Liberdade); a Secretaria da Educação (antiga Secretaria do Interior e atual Museu das Minas e do Metal); a Secretaria de Estado das Finanças (atual Memorial Minas Gerais Vale); e a Secretaria de Obras Públicas (antiga Secretaria da Agricultura e atual sede do Iepha‑MG), todas construídas entre 1895 e 1897.

As edificações projetadas por José de Magalhães, além de apresentarem grande apuro formal – delineado pelos requintes compositivos e ornamentais do sistema Beaux‑Arts –, trouxeram significativos avanços às técnicas construtivas em Minas Gerais ao utilizarem sistematicamente o ferro fundido como material relevante. Nesses edifícios, Magalhães empregou o metal em pilares e vigas para sustentar os pisos dos pavimentos superiores e também na armação dos telhados. Além disso, o ferro fundido com motivos rendilhados de inspiração Art Nouveau foi especificado pelo arquiteto para a composição de belíssimas escadarias, esquadrias e gradis.

José de Almeida Magalhães nasceu em Pernambuco, em 1851, não havendo registros sobre a cidade natal do arquiteto. No entanto, a ilustre pedagoga, filósofa e ex-professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Maria de Lourdes Gouveia, relatou‑nos que, em uma revista publicada no Recife (PE), teria lido na juventude que o distinto profissional seria filho daquela cidade.
Entre 1871 e 1874, Magalhães estudou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde se formou bacharel em Ciências Físicas e Matemáticas e engenheiro‑geógrafo. Posteriormente, entre 1876 e 1880, viveu em Paris – período no qual frequentou a École Nationale et Spéciale de Dessin et de Mathématiques (Escola Nacional e Especial de Desenho e Matemática) e a consagrada École des Beaux‑Arts (Escola de Belas Artes), onde estudou arquitetura. Vale lembrar que essa instituição – com origem na primeira escola formal de arquitetura do mundo, criada no século XVIII – foi o grande centro de difusão internacional do ecletismo arquitetônico na época em que Magalhães frequentou seus bancos.
Em 28 de dezembro de 1899, aos 48 anos, Magalhães faleceu em Campos do Jordão (SP), assassinado durante desavenças na demarcação de um terreno.
Conheça algumas obras projetadas por José de Magalhães, o primeiro arquiteto de BH
1. Estação Ferroviária General Carneiro

Em 1894, o arquiteto José de Magalhães foi o responsável pelo primeiro projeto arquitetônico da história de Belo Horizonte: a belíssima Estação General Carneiro, localizada nas imediações de Sabará, numa área que passou a pertencer à Belo Horizonte. A estação – um extraordinário exemplar da Arquitetura do Ferro no Brasil – foi criada para ser um entroncamento para capital mineira da linha que vinha do Rio de Janeiro até Sabará. Criava-se, assim, o primeiro caminho de ferro para que os trens de Sabará e da capital federal chegassem a BH.
O edifício, que utilizou estrutura de ferro fundido importada da Europa e possuía uma elegante planta triangular, foi um dos projetos mais diferenciados da CCNC, pois inovou na sua forma em relação aos modelos internacionais. A Estação General Carneiro funcionou por mais de sessenta anos e, infelizmente, foi demolida no início dos anos 1960, sob a alegação de que não compensava recuperá-la, devido à sua avançada deterioração causada pelo abandono.
2. Estação Ferroviária de Belo Horizonte

A Estação Ferroviária de Belo Horizonte, foi construída na Praça Rui Barbosa com projeto dos arquitetos José de Magalhães, Edgard Nascentes Coelho e José Verdussen em 1894. A composição arquitetônica dessa estação faz nítida referência à arquitetura medieval. O edifício, inaugurado em agosto de 1898 para substituir uma estação provisória, tornou-se a porta de entrada de pessoas e produtos para a nova capital de Minas Gerais. Em sua torre, foi instalado o primeiro relógio público da cidade. Essa obra foi demolida para a construção de uma nova estação, projetada por Luiz Olivieri e inaugurada em 1922, que hoje abriga o Museu de Artes e Ofícios (MAO).
3. Capela Nossa Senhora do Rosário

A Capela Nossa Senhora do Rosário, localizada na esquina das ruas São Paulo e Tamoios, foi inaugurada em 1897 como o primeiro templo de Belo Horizonte. A edificação, que integra o patrimônio cultural do município, foi projetada por José de Magalhães segundo os preceitos do ecletismo, corrente que preconizava a adoção de elementos do estilo gótico na arquitetura religiosa.
4. Secretaria de Estado das Finanças (atual Memorial Minas Gerais Vale)

A Secretaria das Finanças, atual Memorial Minas Gerais Vale, é uma típica edificação representante do ecletismo de inspiração neoclássica – linguagem dominante na produção da CCNC – inserida no conjunto arquitetônico da Praça da Liberdade. Nesse edifício, inaugurado em 1897, destacam-se os elementos resgatados da Antiguidade que caracterizam esse estilo historicista: frontões triangulares, colunas de ordens clássicas, frisos com rusticação, fachadas tripartites (base, corpo e coroamento), arcos e ornamentação figurativa.
5. Secretaria da Agricultura (atual Iepha-MG)

Inaugurado em 1897, este imponente edifício em estilo eclético, com fachada principal voltada para a Praça da Liberdade, abrigou inicialmente a Secretaria de Estado da Agricultura. Posteriormente, serviu como sede da Secretaria de Viação e Obras Públicas e, atualmente, é ocupado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG). Entre 1901 e 1910, seu primeiro andar funcionou como sede da Prefeitura de Belo Horizonte. Em 1929, o edifício recebeu um quarto pavimento.
6. Necrotério do Cemitério do Bonfim

O Necrotério do Cemitério do Bonfim – projetado por José de Magalhaes, Edgard Nascentes Coelho e Hermano Zickler – foi um dos primeiros edifícios projetados e construídos pela Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC). A inauguração do cemitério, em fevereiro de 1897, precedeu em dez meses a abertura da nova capital e permaneceu como o único da cidade até 1942. O necrotério, de planta quadrangular e cúpula metálica importada da Bélgica, adota o vocabulário arquitetônico do ecletismo de inspiração neoclássica e ostenta rica ornamentação.
7. Delegacia Fiscal

A primeira Delegacia Fiscal de Belo Horizonte, inaugurada nos primeiros anos da cidade e projetada por José de Magalhães, abrigou também o “Juízo Seccional” e a Caixa Econômica Federal. Localizada no terreno hoje ocupado pelo Edifício Guimarães (Av. Afonso Pena, n. 952), a edificação exibia fachada eclética com sofisticada ornamentação e cobertura marcada por raras janelas de mansarda – pouco comuns na produção arquitetônica da capital mineira, mas frequentes em Paris, onde o arquiteto residiu.











