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Colunas

O desenho de casas em BH antes da era digital

12/02/2026 às 08h27 - Atualizado em 21/02/2026 às 21h06
Fachadas do Palacete Nelson de Senna (1900), projeto eclético de Manoel Ferreira Tunes para a Rua Pernambuco, esquina com Sta. Rita Durão. (Crédito: Arquivo Público Mineiro).

Se hoje os arquitetos contam com sofisticados programas de computador que permitem a geração de imagens realistas de projeto, a ponto de serem confundidas com fotografias, até o início da década de 1990 o feitio de plantas, fachadas, cortes e perspectivas era manual, com auxílio de réguas, compassos, esquadros e curvas francesas. Esse contexto artesanal propiciava aos arquitetos modos peculiares de representar as edificações em projeto, resultando em ampla variedade e maior personalização da expressão gráfica arquitetônica no meio profissional.

O arquiteto Raffaello Berti (1900–1972), em BH, trabalhando manualmente em sua prancheta de desenho arquitetônico com auxílio de régua e esquadro. (Crédito: Museu Histórico Abílio Barreto).

Por outro lado, quando se trata da criação de moradias, o tema envolve uma carga emotiva extraordinária. Ao projetar casas, o arquiteto lança no papel, além de suas convicções de boa arquitetura, os mais profundos ideais de habitação que os futuros moradores cultivam. Os desenhos arquitetônicos, portanto, remetem a um universo de significados que transcendem as questões meramente técnicas e funcionais do campo construtivo, cumprindo um papel fundamental em antecipar a “casa dos sonhos” daqueles que nela residirão, muitas vezes, uma vida inteira.

Nesse sentido, os ornamentos, prevalentes nas casas mais antigas de Belo Horizonte e já industrializados, cumpriam papel central na personalização das habitações, possibilitando aos arquitetos ampla gama de elementos para a feição das fachadas ao gosto dos moradores. Além disso, ampliando o leque compositivo dos projetos, a doutrina do ecletismo, historicista, permitia ao autor da obra explorar diversas fontes estéticas consagradas na tradição arquitetônica, tais como a greco-romana, a colonial luso-brasileira, a normanda, a californiana e as missões espanholas, entre outras.

Por conseguinte, o esmero na composição das casas, marcado pela diversidade ornamental, moldou as estratégias projetuais dos arquitetos do passado, resultando em peças gráficas que assumiram formas literalmente encantadoras. Para ilustrar esse contexto de criação, a coluna de hoje selecionou alguns primorosos desenhos arquitetônicos, elaborados para a construção de casas de um ou dois pavimentos, que representam os modos de morar em Belo Horizonte desde a sua fundação, em fins do século XIX, até meados do século XX. Confira.

Residência de Antônio Baptista Vieira (1896)

Fachada de casa térrea em estilo eclético, de influência neoclássica. Desenho elaborado por Guilherme Bannitz em 1896. (Crédito: Fundação João Pinheiro).

Este é um dos mais antigos desenhos arquitetônicos residenciais de BH, destinado, provavelmente, a um funcionário público proveniente de Ouro Preto, no contexto da mudança da capital de Minas. Trata-se de uma peça gráfica do projeto elaborada em 1896 por Guilherme Bannitz para a residência de Antônio Baptista Vieira, cujo endereço de obra era a Rua Alagoas, entre as ruas Inconfidentes e Santa Rita Durão, no bairro Funcionários. Lembrando que Bannitz integrou a Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC). A composição dessa fachada revela duas soluções pouco usuais para o período em que foi concebida: o uso de tijolo aparente e a chamada “varanda entalada”, centralizada entre dois compartimentos da casa. Na parte superior esquerda do desenho, nota-se a assinatura de aprovação do projeto pelo então chefe da CCNC, o engenheiro Francisco Bicalho.

Casa de Alcina Dias Duarte (1933)

Fachada de casa térrea em estilo eclético, de influência normanda. Projeto executado por Corrêa Bucich em 1933. (Crédito: Fundação João Pinheiro).

Este refinado e peculiar desenho do arquiteto Corrêa Bucich foi elaborado em 1933 para a residência de Alcina Dias Duarte, cujo endereço de obra era a Rua Ouro Preto, no bairro Barro Preto. Sua estética está ligada a uma vertente popular do ecletismo tardio na capital mineira, a de inspiração normanda, que remete às edificações medievais franceses em enxaimel, tipificadas por estruturas em gaiola de madeira muito comuns na região da Normandia. As construções desse estilo em BH são marcadas por essas estruturas aparentes de madeira, na maioria das vezes imitações, e por telhados bem inclinados. Em alguns casos surgem também chaminés.

Sobrado de Fernando Magalhães Gomes (1936)

Fachada de sobrado em estilo neocolonial, com referências barrocas. Projeto de João de Almeida Ferber elaborado em 1936. (Crédito: Fundação João Pinheiro).

O projeto dessa residência de dois pavimentos, cujo endereço de obra era a Av. Bernardo Monteiro, foi desenvolvido em 1936 por João de Almeida Ferber, por encomenda de Fernando Magalhães Gomes, que atuava como médico pediatra. Nessa composição de Ferber, que também projetou a Igreja de Santa Tereza, nota-se a presença de elementos arquitetônicos do barroco mineiro, como frontão ondulado, balcão em forma de púlpito, volutas, telhas coloniais, aberturas em óculo, telhas do tipo peito de pomba e cimalhas, o que denota uma genuína manifestação do estilo neocolonial em BH.

Residência de Mário de Araújo (1940)

Fachada de casarão em estilo eclético tardio, de inspiração medieval. Desenho elaborada pelo escritório da Construtora Andrade & Campos em 1940. (Crédito: Fundação João Pinheiro).

Este desenho foi elaborado em 1940 pelo escritório da Construtora Andrade & Campos, sendo destinado à residência de Mário de Araújo, cujo endereço de obra era a Rua Paracatu. A composição, de rara integridade em sua inspiração medieval, revela uma arquitetura eclética tardia cuja matriz histórica se mantém quase intacta, perceptível nos elementos construtivos. A conexão com o passado é nítida nas janelas com tábuas rústicas e travamento diagonal, que remetem a aberturas comuns em antigas casas de campo e vilarejos europeus. O uso abundante de pedra rústica, especialmente na base da fachada e na chaminé, reforça essa ligação com a cultura arquitetônica da época referenciada.

Residência de Zulmira Greco Defeo (1943)

Fachada de residência com dois pavimentos em estilo eclético tardio de várias influências. Projeto concebido por Francisco Farinelli em 1943. (Crédito: Fundação João Pinheiro).

Este projeto, cujos traços remetem a um exemplar do ecletismo tardio que mescla influências, foi elaborado em 1943 pelo arquiteto Francisco Farinelli, a partir da encomenda de Zulmira Greco Defeo, cujo endereço de obra era a Rua Juiz de Fora. A composição equilibra o peso do térreo em pedra rústica e arcos plenos, com a sobriedade do andar superior, marcado por superfícies mais lisas, amplas janelas e frisos geométricos. O projeto articula tanto elementos românticos quanto clássicos, que tão bem caracterizam a arquitetura residencial dessa linhagem estética.

Casarão de Michel Eid Farah (1944)

Fachada de casarão em estilo eclético de influência neoclássica. Projeto elaborado por Romeo de Paoli em 1944. (Crédito: Fundação João Pinheiro).

Por encomenda de Michel Eid Farah, esse suntuoso casarão foi desenhado em 1944 por Romeo de Paoli, cujo endereço de obra era a Rua São Paulo, entre as ruas Felipe dos Santos e Antônio Aleixo. Este projeto, que remete às vilas renascentistas italianas, constitui um belo exemplo do ecletismo tardio de influência neoclássica, filiação denotada pelo esquema base-corpo-coroamento, pelos vãos com arcos plenos, pelas colunas com capitéis e pela simetria da edificação. Por outro lado, o telhado cerâmico, as grades ornamentadas e a base em pedras regulares contribuem para uma estética rica e sofisticada, que buscava expressar o status social e o gosto refinado dos futuros moradores.

Editado por: Ulisses Morato

Ulisses Morato

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.
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Email: [email protected]

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.

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