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Os ícones urbanos de Francisco Izidro, arquiteto pioneiro em BH

20/11/2025 às 12h18 - Atualizado em 15/02/2026 às 11h33
Fachada da Maternidade Hilda Brandão (1916), marco arquitetônico dos primeiros anos da capital, projetada por Francisco Izidro Monteiro. (Crédito: Flávia Latini, 2025).

Belo Horizonte teve o privilégio de contar com o exímio trabalho do arquiteto Francisco Izidro Monteiro em seus primórdios. O profissional integrou o quadro técnico da Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) entre 1894 e 1895 e, posteriormente, continuou a atuar na cidade, firmando-se como um dos responsáveis pela configuração inicial da paisagem arquitetônica da capital e criando verdadeiros ícones do ecletismo de inspiração neoclássica e neogótica.

Monteiro, nascido em 12 de junho de 1860 na cidade do Rio de Janeiro, foi acolhido pelo Asilo de Menores Desvalidos, onde se destacou nos estudos primários. Em meados da década de 1880, foi aluno exemplar da Academia Imperial de Belas Artes (RJ), onde diplomou-se em arquitetura. Na então capital federal, elaborou projetos de destaque urbano, como uma composição de fachada para a Avenida Central, em 1904, e um teatro para a Exposição Nacional de 1908, na Urca. O arquiteto faleceu em sua terra natal aos 58 anos, em 5 de julho de 1918.

Retrato de Francisco Izidro Monteiro gerado por IA.
(Crédito: Ulisses Morato / DALL·E, OpenAI, 2022).

Em Belo Horizonte, Monteiro se notabilizou por criar edificações que marcaram a identidade de importantes instituições ligadas ao poder político, ao ensino, aos transportes, às comunicações e à saúde, além das chamadas casas nobres. Sua arquitetura caracterizou-se por expressar a plenitude estética do ecletismo a partir da aplicação de um rico vocabulário ornamental de grande impacto visual, tanto no espaço urbano quanto no interior dos edifícios.

Uma das primeiras obras do arquiteto carioca a se destacar na capital mineira foi o emblemático edifício dos Correios e Telégrafos. Projetada em 1906, em estilo eclético de influência neoclássica, essa suntuosa edificação foi construída na Avenida Afonso Pena e tornou-se um dos cartões-postais da cidade; infelizmente, foi demolida em 1941 e, em seu lugar, ergueu-se o Edifício Sulacap-Sulamérica.

Cartão-potal com a antiga sede dos Correios e Telégrafos, edifício que existiu na Av. Afonso Pena, entre a Rua da Bahia e a Rua dos Tamóios. (Crédito: Cartão-postal / Reprodução).

Para essa mesma avenida, concebida para ser a mais importante da cidade, Monteiro também projetou a bela Estação de Bondes (1909), que proporcionou, até sua demolição em 1947, vitalidade e referência arquitetônica à esquina da Avenida Afonso Pena com a Rua da Bahia, na extremidade do Parque Municipal. Embora de modestas dimensões, a edificação apresentava uma aprimorada arquitetura de feição eclética, ricamente decorada com motivos florais, tendo ainda vários elementos em ferro fundido trabalhados com desenhos rendilhados. A estação de bondes foi a primeira da cidade e também um dos primeiros edifícios públicos a receber um relógio, estrategicamente instalado em sua elegante torre central.

Cartão-postal dos anos 1910 da Estação de Bondes da Avenida Afonso Pena com a Rua da Bahia (Parque Municipal). (Crédito: Cartão-postal / Reprodução).

Outro edifício delineado por Francisco Izidro Monteiro que se destacou na paisagem urbana da nascente capital foi o antigo Conselho Deliberativo (1914), primeira casa do poder legislativo municipal e atual Museu da Moda (Mumo), obra que se impõe pela verticalidade e pelo apuro ornamental na esquina da Avenida Augusto de Lima com a Rua da Bahia. É uma das mais emblemáticas construções no seu estilo na cidade. Contudo, trata-se de um dos projetos do arquiteto em Belo Horizonte nos quais ele subverteu os dogmas compositivos do ecletismo, sobretudo naquele que preconizava a aplicação de referências neogóticas aos templos. Não por acaso, é comum que a população pense que essa edificação seja uma das igrejas da cidade.

O prédio do antigo Conselho Deliberativo de Belo Horizonte, atual Museu da Moda, em foto recente registrada na esquina da Av. Augusto de Lima com a Rua da Bahia. (Crédito: Iepha-MG).

Um dos raros edifícios hospitalares remanescentes em estilo eclético de Belo Horizonte é a magnífica Maternidade Hilda Brandão, situada na Rua Álvares Maciel, n. 711 — obra projetada pelo arquiteto Francisco Izidro Monteiro. Inaugurada em 1916 como a primeira maternidade a funcionar na capital mineira, a edificação, com marcante influência neogótica, é tombada pelo patrimônio municipal e estadual. Desse estilo, destacam-se os arcos ogivais (pontiagudos) nas vergas das portas e janelas, bem como a tipografia utilizada no letreiro de identificação da instituição, no frontão da fachada. Vale lembrar que a iniciativa de criação dessa maternidade partiu do médico Hugo Werneck, tendo a decisiva colaboração das Damas de Caridade, instituição liderada pela então primeira-dama de Minas Gerais, Hilda Brandão, esposa do governador Bueno Brandão.

Maternidade Hilda Brandão, situada na Rua Álvares Maciel, Belo Horizonte. (Crédito: Guia do Bem).

O Colégio Sagrado Coração de Jesus, por sua imponência e posição privilegiada na topografia, foi, durante muitas décadas, um dos pontos mais destacados da paisagem urbana de Belo Horizonte, sendo avistado de longe em meio às casas e sobrados predominantes. Trata-se, portanto, de outra obra de uso institucional projetada por Francisco Izidro Monteiro, de expressivo valor arquitetônico na cidade. Localizada na Rua Professor Morais, n. 363, a edificação conserva seus traços originais, que remetem à arquitetura maneirista da icônica igreja de Jesus, construída em Roma no século XVI pela Companhia de Jesus — o ecletismo preza pelo historicismo.

Colégio Sagrado Coração de Jesus em postal antigo, visto a partir da Rua Professor Morais, Belo Horizonte. (Crédito: Cartão-Postal / Colorizado / Reprodução).

O requintado Solar Narbona, projetado por Monteiro e construído em 1911 na esquina da Rua Santa Rita Durão com a Praça da Liberdade, embora tenha sido concebido como um palacete, logo assumiu uso institucional por suas qualidades arquitetônicas. Em 1917, essa casa nobre de sofisticada feição eclética — que inicialmente foi a residência da família do construtor espanhol Francisco Narbona — passou a abrigar a Escola Livre de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, função que desempenhou até 1918. Posteriormente, nos anos 1960, mantendo seu status de referência urbana, o imóvel foi adquirido pelo Estado de Minas Gerais, passando a ser ocupado por diversos órgãos de governo ao longo do tempo.

O Solar Narbona em 2022, na esquina da Rua Santa Rita Durão com a Praça da Liberdade, Belo Horizonte. (Crédito: Ulisses Morato).

Por fim, dentre os vários edifícios icônicos projetados por Monteiro, vale mencionar a Serraria Souza Pinto, construção eclética de 1913 que tão bem representa a arquitetura industrial dos primeiros anos de BH. Sua fachada é valorizada pela elegância compositiva, na qual se destacam os frontões de arco abatido encimados por apurada ornamentação e o letreiro vazado no coroamento, trabalhado em ferro fundido. Embora sua principal atividade fosse a serraria, a empresa também comercializou materiais de construção civil, fornecendo material para as grandes obras da cidade, como o Edifício Acaiaca e o Minas Tênis Clube. A partir do final dos anos 1990, a edificação, que fica na Av. Assis Chateaubriand, junto ao Viaduto Santa Tereza, foi assumida pelo Estado de Minas Gerais, tornando-se um espaço para grandes eventos da cidade.

A Serraria Souza Pinto, na Avenida Assis Chateaubriand, junto ao Viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte, em registro recente. (Crédito: Fundação Clóvis Salgado).

Editado por: Ulisses Morato

Ulisses Morato

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.
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Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.

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