A feição urbana da capital mineira foi estabelecida com uma notável componente paisagística, sobretudo pela atuação de dois destacados profissionais em seus primórdios — o arquiteto e paisagista francês Paul Villon e o paisagista germano-descendente Reynaldo Dierberger. Não por acaso, nossas verdejantes paragens foram reiteradamente enaltecidas ao longo do tempo como “Cidade Jardim” e “Cidade Vergel” nas narrativas de poetas, políticos e outras ilustres personalidades, definindo uma identidade marcante para a capital. Nesse contexto, um dos motes mais exuberantes foi a arborização original da Avenida Afonso Pena — um extenso bulevar de fícus que se consolidou como um eloquente cartão-postal da pujança paisagística da cidade, mas que foi drasticamente eliminado em 1963.

A tradição vergel de BH teve início com o arquiteto Paul Villon, considerado o nosso primeiro paisagista, que integrou a Comissão Construtora da Nova Capital em 1894 e foi responsável pelo projeto de nobres áreas verdes da cidade, como a Praça da Liberdade (versão original), os jardins do Palácio Presidencial (atual Palácio da Liberdade) e o Parque Municipal. Para executar seu trabalho, Villon criou, inclusive, dois viveiros de mudas às margens do Córrego da Serra e tomou como residência uma velha construção remanescente do Curral del Rei, no local do seu maior projeto paisagístico — a Chácara do Sapo, que viria a se transformar no Parque Municipal. Além de desenhar belos espaços verdes, Villon foi responsável, entre 1896 e 1898, tanto por importar sementes para os novos jardins quanto por encomendar uma máquina para transplantar as árvores do antigo Arraial de Belo Horizonte para o próprio Parque Municipal — criando uma espécie de memória vegetal daquele território em extinção.

Já o prestigiado Dierberger — formado na Alemanha e um dos maiores paisagistas do Brasil no século XX — foi o responsável, em 1920, pela remodelagem da Praça da Liberdade, que assumiria um desenho geométrico vinculado ao paisagismo francês do tipo Versailles, em substituição ao desenho de formas livres, orgânico, inspirado na tradição inglesa, originalmente elaborado por Villon. Tal remodelagem foi motivada pela visita dos reis da Bélgica à capital mineira naquele ano. Nessa intervenção, Dierberger deu à Praça da Liberdade a sua feição definitiva, hoje integrante do patrimônio urbanístico da cidade e uma das mais importantes referências paisagísticas de BH.

Agora, voltemos à Avenida Afonso Pena. Em 1895, o engenheiro Aarão Reis, chefe da Comissão Construtora da Nova Capital, elaborou o traçado da cidade, no qual a Avenida Afonso Pena foi concebida para ser o principal eixo viário da capital, a mais larga e extensa. Nesse sentido, além de abrigar edifícios de grande relevância funcional e arquitetônica, a avenida recebeu um extraordinário tratamento paisagístico logo nos primeiros anos — quando, em 1898, deu-se início à arborização das vias urbanas de Belo Horizonte. Os fícus — espécie arbórea de origem asiática, muito em voga no Brasil daquela época, valorizados por suas copas frondosas e moldáveis, e pelo rápido crescimento — foram adotados e proporcionaram um dos bulevares mais emblemáticos da Belle Époque brasileira. O ilustre Drummond, em Alguma Poesia (1930), reconhecia na avenida um “túnel espesso de verdura” e afirmava ainda: “debaixo de cada árvore faço minha cama, em cada ramo penduro meu paletó”.

Entretanto, nem tudo eram flores, entraram em cena os tripes (Gynaikothrips ficorum), insetos apelidados de “Amintinhas”, que infestaram os fícus da Afonso Pena no início dos anos 1960, durante a gestão do prefeito Amintas de Barros, e que levaram a podas radicais e à primeira grande supressão arbórea do bulevar. Em 1962, Amintas autorizou o corte das árvores que contornavam a Praça Sete e também a retirado do obelisco — dois símbolos da Afonso Pena. Já na gestão do prefeito Jorge Carone Filho, o serviço foi completado: na calada das madrugadas de novembro e dezembro de 1963, o restante dos 350 fícus foi suprimido da paisagem da avenida, após um reinado de seis décadas, com a justificativa de erradicar a praga. Assim foi noticiado o ocorrido na edição de 4 de dezembro de 1963 do jornal Correio da Manhã (RJ):
A destruição de todas as árvores que sombreavam as ruas de Belo Horizonte foi decretada pelo prefeito Jorge Carone Filho. Dezenas de homens, empunhando machados, foices e serrotes; e valendo-se de cordas e caminhões de transporte, trabalham a noite inteira, levando a destruição às árvores da capital mineira que cada dia amanhece mais desfigurada.

Vale lembrar que a própria Avenida Afonso Pena, já na década de 1920, anunciava o seu avassalador pendor automobilístico — que, tudo indica, foi a verdadeira razão da drástica supressão da exuberante alameda de fícus. Em 1923, em meio àquele cordão de árvores, foi inaugurada a primeira bomba de gasolina pela firma Haas & Cia., nas proximidades da então Estação de Bondes, na esquina com a Rua da Bahia; e, em 1929, abriram-se as portas do Automóvel Clube, imponente construção erguida na esquina da Av. Álvares Cabral — cravaram-se, assim, na principal avenida da cidade, os primeiros símbolos de uma inexorável cultura automobilística.
Vários anos se passaram para que a cidade cicatrizasse as feridas desse dramático e profundo corte de uma paisagem histórica e afetiva, de doces lembranças para várias gerações. O alívio veio aos poucos, ao longo das décadas posteriores, nas quais a municipalidade tratou de plantar espécies nativas de árvores — sapucaias, ipês, sibipirunas — que vieram a devolver a feição verde da querida Avenida Afonso Pena.












