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Colunas

Panorama da arquitetura escolar em BH

05/02/2026 às 08h34 - Atualizado em 05/02/2026 às 19h31
Antigo Colégio Izabela Hendrix (atual PUC Minas), edifício Art Déco projetado em 1937 por Raffaello Berti, Rua da Bahia, n. 2020. (Crédito: Museu Izabela Hendrix).

Inúmeros edifícios escolares de Belo Horizonte, em todos os níveis de ensino — geralmente erguidos em escala grandiosa e com esmero na estética construtiva —, destacaram-se na paisagem urbana ao longo do tempo e, consequentemente, passaram a ser preservados. Por outro lado, obras mais recentes se apresentam como emblemáticas das novas tendências.

Em vista disso, além de contribuir significativamente na constituição do nosso patrimônio cultural por meio de várias obras tombadas pelo poder público nos mais diversos estilos, a arquitetura escolar da capital mineira funciona como testemunho dos tempos mais próximos. Assim, a evolução arquitetônica de Belo Horizonte pode ser observada por meio dos seus edifícios escolares.

Na coluna de hoje, apresentamos edificações que tiveram papel relevante na formação da identidade urbana da nossa cidade ao longo da história, destacando os principais estilos arquitetônicos através de obras icônicas assinadas por renomados arquitetos. Outras, construídas a partir de fins do século XX, também são incluídas por representarem as últimas correntes arquitetônicas. Sendo assim, selecionamos uma escola para cada um dos estilos presentes em BH, do eclético ao contemporâneo. Confira a seguir.

Grupo Escolar Barão do Rio Branco
Grupo Escolar Barão do Rio Branco, edifício eclético inaugurado em 1914, Bairro Savassi. (Crédito: Arquivo Público Mineiro).

Este exemplar, construído na Av. Getúlio Vargas, n. 1059, é uma das mais exuberantes escolas dos primórdios de Belo Horizonte. O imóvel, tombado como patrimônio cultural, foi projetado em 1911 em estilo eclético pelo arquiteto italiano Luiz Olivieri, que também integrou a Comissão Construtora da Nova Capital e fundou o primeiro escritório particular de arquitetura da cidade, em 1897.

O Barão do Rio Branco, inaugurado em 1914, foi o segundo grupo escolar constituído na cidade e tinha como objetivo proporcionar educação pública à população da nova capital. Lembrando que os grupos escolares ofereciam o então ensino primário, hoje equivalente ao ensino fundamental. O edifício apresenta arquitetura de influência neoclássica, incorporando elementos da tradição greco-romana, como janelas termais (arqueadas e divididas em três vãos), frontões, capitéis e rusticação (juntas aparentes).

Nessa tradicional escola, atualmente denominada Escola Estadual Barão do Rio Branco, estudaram várias personalidades ilustres, tais como os ex-prefeitos da capital mineira Celso Melo Azevedo, Octacílio Negrão de Lima e Américo René Gianetti; o ex-governador de Minas Gerais Israel Pinheiro; o frade dominicano e escritor Frei Betto; e a estilista Zuzu Angel.

Colégio Santo Agostinho
Colégio Santo Agostinho, edifício Art Déco inaugurado em 1936, Bairro Santo Agostinho. (Crédito: Cartão-postal / Reprodução).

O Colégio Santo Agostinho, localizado na esquina da Rua dos Aimorés com a Rua Araguari, é uma das obras-primas do Art Déco de Belo Horizonte. O imóvel, tombado como patrimônio cultural, foi projetada pelo arquiteto belo-horizontino Romeo de Paoli em 1935 e inaugurado em 1936.

A edificação destaca-se pelo tratamento da esquina, com um volume arredondado em contraste com o restante, de feição cúbica, e pelo exuberante jogo de filetes horizontais e verticais das fachadas voltadas para as duas ruas. O típico escalonamento de elementos arquitetônicos que caracteriza o Art Déco está igualmente presente nessas fachadas, marcando com ênfase as entradas laterais do colégio, guarnecidas por balcões.

Nas décadas de 1930 e 1940, Romeo de Paoli foi o profissional responsável pelo maior número de projetos arquitetônicos aprovados em estilo Art Déco junto à Prefeitura Municipal de Belo Horizonte.

Escola Estadual Governador Milton Campos (Estadual Central)
Escola Estadual Governador Milton Campos (Estadual Central), edifício modernista inaugurado em 1956, Bairro Lourdes. (Crédito: Cartão-postal / Reprodução).

Esse é um dos edifícios modernistas que o arquiteto Oscar Niemeyer projetou para a capital mineira, na década de 1950, sob encomenda do então governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek. A volumetria dos blocos que compõem o conjunto da escola, construído em concreto armado, apresenta formas variadas e normalmente associadas a objetos escolares, como a cantina, que se assemelha a uma borracha; a caixa d’água, parecida com um giz de quadro-negro; e o auditório, cujo desenho lembra um mata-borrão.

A Escola Estadual Governador Milton Campos, imóvel tombado que ocupa um quarteirão junto à Av. do Contorno, entre as ruas São Paulo e Rio de Janeiro, apresenta elementos ora curvos, ora retilíneos nos volumes que compõem o seu conjunto. A obra, inagurada em 1956, demonstra o espírito inventivo e a grande liberdade formal assumida por Oscar Niemeyer em Belo Horizonte, fatores que propiciaram aos seus projetos uma notável singularidade arquitetônica e reconhecimento nos planos nacional e internacional.

Convém lembrar que, a partir do conjunto arquitetônico da Pampulha — construído no início dos anos 1940 —, Oscar Niemeyer criou um modernismo heterodoxo ao romper com os padrões do chamado “Estilo Internacional” por meio da exuberância de suas formas curvilíneas.

Cabe mencionar que, no cartão-postal do Estadual Central aqui apresentado — provavelmente dos anos 1970 —, pode ser vista, em segundo plano, no centro da imagem, uma obra representativa do modernismo ortodoxo para uso educacional. Trata-se da antiga Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, projetada em 1961 pelos arquitetos Shakespeare Gomes e Eduardo Mendes Guimarães Júnior.

Pelos bancos do Estadual Central passaram o cartunista Henfil, o sociólogo Betinho, o músico Toninho Horta, o escritor Fernando Sabino, o ex-governador de Minas Gerais Fernando Pimentel e a ex-presidente da República Dilma Rousseff.

Núcleo de Ensino e Extensão Continuada (NEEC), atual Escola Estadual Professor Hilton Rocha
NEEC, atual Escola Estadual Professor Hilton Rocha, edifício pós-moderno inaugurado em 1987, Bairro Primeiro de Maio, Belo Horizonte. (Crédito: GPA&A).

O Núcleo de Ensino e Extensão Continuada (NEEC) — atualmente denominado Escola Estadual Professor Hilton Rocha — foi concebido em 1986 como uma obra pós-moderna a ser reproduzida em série. Executada com projeto do escritório Gustavo Penna Arquiteto & Associados (GPA&A), a edificação foi inaugurada em 1987 na Av. Cristiano Machado, n. 8200.

A arquitetura pós-moderna, em suas várias correntes, valorizou elementos tradicionais, a linguagem vernacular, o simbolismo, a complexidade formal e também a alta tecnologia construtiva (high-tech). No Brasil, Belo Horizonte foi pioneira na introdução da arquitetura pós-moderna, que aqui vigorou nos anos 1980 e 1990.

Além de resgatar formas e materiais tradicionais, os arquitetos pós-modernos da capital mineira também passaram a incorporar nas construções estruturas e revestimentos em aço, material produzido nas siderúrgicas mineiras, mas que até então era pouco explorado na arquitetura brasileira.

O NEEC é uma escola de feição pós-moderna que aplica a tecnologia do aço em sua estrutura aparente, pintada de verde, e explora o simbolismo ao empregar nas fachadas o triângulo vermelho que remete à bandeira de Minas. Nessa proposta, a estrutura metálica é útil por ser produzida em série, facilitando a reprodução desse modelo arquitetônico concebido pelo escritório de Gustavo Penna.

Plug Minas – Centro de Formação e Experimentação Digital
Aspectos do Plug Minas, edifício contemporâneo inaugurado em 2010, Bairro Horto. (Crédito: Gustavo Xavier, 2012).

O edifício do Plug Minas, Centro de Formação e Experimentação Digital, localizado na Rua Santo Agostinho, n. 1441, Bairro Horto, foi inaugurado em 2010 com projeto do arquiteto Raphael Yanny, cujos traços estão alinhados à estética contemporânea. A título de periodização, a arquitetura contemporânea é aquela praticada com a chegada do século XXI, na sequência do pós-modernismo.

Nesse período recente, houve uma rápida multiplicação das linguagens e das tecnologias construtivas, difundidas pela globalização, não existindo mais sistemas de ideais ou teorias capazes de formar movimentos coesos de arquitetura em plano global, como ocorreu em períodos anteriores. Vivemos uma época de extrema fragmentação das correntes arquitetônicas, o que, inclusive, dificulta a sua catalogação pela historiografia.

No livro A Condição Contemporânea da Arquitetura, o historiador espanhol Josep Maria Montaner cataloga uma das correntes como Continuidade do Racionalismo e dos Princípios Modernistas, que se refere à arquitetura que atualiza conceitos e tecnologias do modernismo, criando, assim, um “neomodernismo”. Nesse sentido, o edifício do Plug Minas — cuja expressão predominantemente minimalista e ortogonal é quebrada por paredes diagonais, cores vibrantes e grandes painéis informativos — pode ser enquadrado nesse neomodernismo contemporâneo.

Editado por: Ulisses Morato

Ulisses Morato

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.
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Ulisses Morato

Email: [email protected]

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.

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