Às vésperas de comemorarmos a Independência do Brasil, proclamada em 7 de setembro de 1822, é natural lembrarmos da mais famosa praça de BH, que, a partir de 1922, no centenário desse feito histórico, passou a adotar esse nome em celebração à data. Além de remeter a esse grande ato de emancipação política, a Praça Sete de Setembro, situada no coração da cidade, constitui também um dos mais relevantes espaços urbanos que preservam a memória arquitetônica da capital mineira.
Em 1895, no traçado urbano da cidade delineado pelo engenheiro-chefe da Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC), Aarão Reis, essa localidade foi originalmente nomeada como Praça 14 de Outubro. No entanto, conforme os autores do livro Fontes para o Estudo da Toponímia da Cidade de Belo Horizonte (2025), houve um engano na data de nomeação da praça, que provavelmente seria 12 de Outubro, uma homenagem ao descobrimento das Américas por Cristóvão Colombo, em 1492 – assim como outros topônimos ligados às descobertas, como a antiga Praça da América, a Avenida Álvares Cabral e a Avenida Cristóvão Colombo.

De qualquer forma, o nome atual da praça ficou eternizado por uma das construções mais emblemáticas da cidade, o obelisco, cuja pedra fundamental foi lançada em 1922, celebrando o centenário da Independência. O famoso ‘Pirulito’ da Praça Sete, esculpido em blocos de cantaria em Betim, Minas Gerais, foi projetado pelo arquiteto Antônio Rego e inaugurado em 1924, consolidando-se como um dos principais marcos urbanos da cidade.

Entretanto, a despeito de ser, juntamente com o antigo Banco Hipotecário e Agrícola (1922), atual Unidade de Atendimento Integrado (UAI), uma das obras mais antigas e simbólicas da Praça Sete, o Pirulito iniciou, em 1962 – durante a gestão do prefeito Amintas de Barros – uma curiosa trajetória itinerante. Naquele ano, foi retirado da praça e deixado num lote vizinho ao atual Museu Abílio Barreto. Em 1963, foi instalado na Praça da Savassi, onde permaneceu até 1980, quando retornou ao local original após mobilização popular. Lembrando que o tombamento desse monumento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) foi aprovado em 1977.
Por este e por outros registros, a Praça Sete é um excelente lugar para conhecermos ícones do nosso patrimônio cultural, pois ali temos um verdadeiro livro a céu aberto sobre a história da arquitetura de Belo Horizonte, percebida em obras erguidas ao longo de todo o século XX e tornando o local um repositório da nossa cultura construtiva. Ali podemos apreciar a diversidade arquitetônica que caracteriza a capital por meio de belos edifícios construídos nos estilos eclético, Art Déco, protomoderno e moderno. Não por acaso, muitos desses emblemáticos edifícios são tombados – atos administrativos do poder público que garantem a preservação e integridade dos imóveis, inclusive contra a instalação de engenhos de publicidade – ou integram o Conjunto Urbano da Avenida Afonso Pena e Adjacências, outra importante instância oficial de proteção patrimonial.

Esse espaço de memória também é um notável lugar para observarmos uma característica peculiar do traçado urbano de BH, delineado por Aarão Reis: a sobreposição de duas malhas quadriculares de vias, formando um ângulo de 45°, desenho que gerou inúmeras esquinas oblíquas, como as que vemos na Praça Sete. Nessas esquinas, os arquitetos arremataram edifícios icônicos com formas retilíneas, como no antigo Banco da Lavoura (1950), ou curvilíneas, como no Cine Brasil (1932).

Por fim, é preciso lembrar que a cultura dos rooftops na capital mineira foi inaugurada exatamente na Praça Sete, onde o terraço do belíssimo Cine Brasil serviu, a partir de 1932, como um extraordinário mirante para que a população – que pagava ingresso para acessá-lo – pudesse ter ampla vista da cidade e da Serra do Curral, numa época em que essa edificação foi a mais alta da capital mineira. Recentemente, consolidando essa tendência, surgiram: no topo do edifício Júlia Nunes Guerra, o Espaço Mira, bar e espaço cultural instalado no 25º andar, com vista panorâmica da cidade; e, no último piso do P7 Criativo, o Terraço Niê, restaurante panorâmico instalado em um dos mais famosos arranha-céus projetados por Oscar Niemeyer em BH.
Conheça a diversidade arquitetônica da Praça Sete
O ecletismo

Como representante do ecletismo, estilo arquitetônico de fundação da capital mineira, a Praça Sete abriga o Banco Hipotecário Agrícola (1922), atual Unidade de Atendimento Integrado (UAI). O imóvel, tombado pelo patrimônio cultural municipal e estadual, é atualmente o mais antigo da praça. Essa exuberante construção foi projetada pelo arquiteto italiano Luiz Olivieri.
O Art Déco

Representando o Art Déco, o segundo estilo arquitetônico a se manifestar em BH, temos na Praça Sete o icônico Cine Teatro Brasil – obra inaugurada em julho de 1932, sendo a segunda a utilizar concreto armado na cidade. Naquele ano, essa construção passou a ser a mais alta da capital, com oito pavimentos, equivalentes a 11 andares. O edifício foi projetado pelo arquiteto mineiro Ângelo Murgel, que estudou na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. O Cine Brasil se destaca na paisagem, sobretudo pela sua arrojada volumetria aerodinâmica, pelos belos vitrais geometrizados e pelo marcante revestimento em pó de pedra.
O protomodernimo

O Brasil Palace Hotel, tombado pelo patrimônio cultural municipal, foi projetado em 1941 pelo arquiteto Luiz Pinto Coelho e é o único exemplar de arquitetura protomodernista que integra a memória edificada da Praça Sete. O protomodernismo – terceira corrente arquitetônica da capital mineira – pode ser sumariamente descrito como uma expressão situada entre o Art Déco e o modernismo, apresentando elementos de ambas as linguagens. Luiz Pinto Coelho, que também projetou o Edifício Acaiaca, estudou na Escola de Arquitetura de Belo Horizonte.
O modernismo

O modernismo consolidou-se como a quarta corrente arquitetônica em Belo Horizonte, sucedendo o protomodernismo. O Edifício Clemente Faria, antigo Banco da Lavoura, foi projetado em 1946 pelo arquiteto paulistano Álvaro Vital Brasil e inaugurado em 1950, sendo a primeira construção modernista projetada na Praça Sete. Por sua arrojada arquitetura, a obra – atualmente em processo de tombamento – foi premiada na 1ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, na categoria “edifícios de uso comercial”. Os grandes painéis de vidro, a estrutura em concreto, os brise-soleil e a volumetria prismática são marcas modernistas que o prédio traz à Praça Sete. Outro detalhe emblemático do imóvel é a escultura em bronze instalada na lâmina vertical da fachada e assinada pelo artista belo-horizontino Alfredo Ceschiatti; a obra representa um caduceu (bastão entrelaçado por duas serpentes), símbolo da contabilidade.

Por ser a corrente arquitetônica mais duradoura a se manifestar na capital mineira, o modernismo acabou por concentrar o maior número de construções na Praça Sete. Nesse sentido, completam o conjunto modernista do local aqueles edifícios que dialogam entre si ao tratarem suas volumetrias com formas curvilíneas, arrematando harmoniosamente três de suas esquinas. Esses ícones arquitetônicos da cidade são três magníficos arranha-céus: o Edifício Joaquim de Paula, projetado em 1955 pelos arquitetos formados em Belo Horizonte Ulpiano Nunes Muniz e Oswaldo Santa Cruz Nery; o Edifício Helena Passig, concebido em 1953 pelo arquiteto mineiro Raphael Hardy Filho; e o antigo Banco Mineiro da Produção (atual P7 Criativo), projetado por Oscar Niemeyer em 1951, atualmente tombado pelo patrimônio municipal.











