Com apenas 1.200 metros de comprimento, a Rua dos Tupinambás é um verdadeiro testemunho da qualificada e diversificada paisagem arquitetônica do Centro de Belo Horizonte, apresentando, ao longo dos seus dez quarteirões, inúmeras edificações históricas, com especial destaque para aquelas erguidas no estilo art déco, nas décadas de 1930 e 1940.
O nome dessa rua já constava na planta de criação da cidade, elaborada pelo engenheiro Aarão Reis em 1895. Batizada há 131 anos, portanto, em homenagem a um dos povos originários do Brasil, a Rua dos Tupinambás está totalmente inserida no Bairro Centro, começando, coincidentemente, na Rua Aarão Reis (nome do chefe da Comissão Construtora da Nova Capital), junto à Praça da Estação, e terminando na Av. do Contorno.
A rua pertence a uma área de preservação cultural, o Conjunto Urbano da Rua dos Caetés e Adjacências, e, ao longo da sua extensão, abriga 27 imóveis com proteção específica pelo patrimônio municipal, ou seja, tombados ou em processo de tombamento.
Desse conjunto, os edifícios art déco, erguidos com a então inovadora estrutura de concreto armado, são de especial interesse, por representarem a fase inicial de verticalização da cidade, da qual a Tupinambás é um dos polos. Contudo, eles não expressam somente o modernizante conceito do arranha-céu na paisagem: as suas fachadas são cuidadosamente delineadas por elementos que as tornam autênticas obras de arte.
Dentre esses elementos, os relevos lineares e as varandas desempenham um papel fundamental na composição arquitetônica, por conferirem grande expressividade aos imóveis, criando dinamismo visual e interessantes jogos de luz e sombra.
Conheça alguns edifícios art déco da Rua dos Tupinambás
1. Edifício Piraquara

Essa edificação, projetada pelo arquiteto Romeo de Paoli em 1938, é uma das mais expressivas do estilo art déco em Belo Horizonte. No Edifício Piraquara, além dos relevos lineares e de muitas janelas de canto, chama a atenção a intensa movimentação na fachada, promovida pelos avanços e recuos das varandas e pelos volumes chanfrados.
No topo das suas fachadas, há relevos em forma de zigue-zague, inspirados na cerâmica pré-colonial marajoara, desenvolvida pelos povos originários da ilha de Marajó, no estado do Pará.
Vale destacar que a palavra tupi “Piraquara”, que nomeia o edifício, significa “toca dos peixes” e que o relevo com a tipografia nominativa da edificação é original e permanece na fachada até os dias atuais.
2. Edifício Império

O Edifício Império, de doze andares, foi erguido pela firma Carneiro de Rezende & Companhia, no final dos anos 1930, com estrutura de concreto armado, integrando o grupo dos primeiros arranha-céus da cidade. O projeto inicial foi aprovado na Prefeitura de Belo Horizonte em nome de Alfredo Balena, mas não se conhece o autor.
Um dos elementos mais marcantes do art déco são os frisos lineares nas fachadas, muitas vezes paralelos, sendo muito comum a mescla dessas composições nos sentidos vertical e horizontal. Na fachada do Edifício Império, destacam-se os feixes verticais, além das varandas arredondadas nas extremidades.
3. Edifício Santa Teresa

O Edifício Santa Teresa foi projetado em 1941 pelos arquitetos Hermínio Gauzzi e Gilberto Andrade, por encomenda de Thereza Arnone, tendo um total de cinco pavimentos que abrigam comércio e salas.
As varandas dessa construção desempenham um papel de destaque no desenho da sua fachada, que se eleva defronte ao prédio que abriga o tradicional Café Palhares. No Edifício Santa Teresa, observa-se ainda a rara presença de varandas convexas, conjugadas com varandas retilíneas.
4. Edifício Tupinambás

Esse exuberante prédio de comércio e apartamentos foi projetado pelo arquiteto Romeo de Paoli em 1940, por encomenda de Firmino Seabra. Além de utilizar o concreto armado em sua estrutura de oito andares, o Edifício Tupinambás foi o primeiro no Brasil a contar com um abrigo antiaéreo, ou seja, um bunker.
A construção apresenta outra solução rara para a época: a planta com apartamentos compactos de um e dois quartos. Em cada andar, dois apartamentos possuem varandas voltadas para a Rua dos Tupinambás, constituindo elementos marcantes da fachada, que produzem uma ondulação que perpassa os dois feixes de relevos verticais.
5. Edifício Sarandy

O Edifício Sarandy, construído em 1937, mas sem identificação do arquiteto responsável pelo projeto, é um imóvel exemplar para destacarmos quatro importantes características gerais do estilo Art Déco.
Primeira: a janela de canto. Essa solução, adotada no volume central do Sarandy, oferece uma leitura de avanço técnico, pois temos a eliminação do pilar no canto da parede de inserção da abertura. Esse prédio, inclusive, apresenta dois tipos de aberturas comuns ao déco: a janela de canto e a janela do tipo escotilha de navio (redonda).
Segunda: o escalonamento das formas. Esse tipo de desenho pode ocorrer nos volumes, nos relevos lineares e nas platibandas, como se observa no Sarandy. Esses escalonamentos presentes na arquitetrua art déco foram inspirados nas pirâmides mesopotâmicas, egípcias e astecas.
Terceira: a tipografia personalizada. Inúmeros letreiros nominativos de prédios art déco apresentam uma tipografia específica do estilo, com letras geometrizadas, sem arremates decorativos nas extremidades (as serifas), composta por traços limpos e moldada em relevo na fachada. Essa tipografia geralmente expressa clareza, simetria e verticalidade, como a do Sarandy.
Quarta: a toponímia nacionalista. O nome desse edifício, “Sarandy”, é uma palavra da língua tupi-guarani que significa “terra pedregosa”. Aqui temos outro traço nacionalista do art déco no Brasil, no qual inúmeros edifícios foram batizados com palavras indígenas.











