Uma metrópole que se preze não pode prescindir de um grande teatro. Assim, nos idos de 1909, a infante capital mineira, com apenas 12 anos de fundação, seguindo o mais requintado gosto europeu, construiu o seu exuberante Teatro Municipal. Contudo, aquilo que era pompa transformou-se numa saga que se desdobrou, a partir da extinção do Municipal, em um novo projeto cuja implantação durou quase 30 anos (o Palácio das Artes) e em um teatro de emergência que se tornou definitivo (o Teatro Francisco Nunes).
O Teatro Municipal, uma das obras-primas da arquitetura de fundação de Belo Horizonte, despontou na Rua Goiás, na esquina com a glamourosa Rua da Bahia, a partir de um sofisticado projeto de inspiração Beaux-Arts elaborado pelo arquiteto Edgard Nascentes Coelho. Firmou-se como a principal e mais refinada casa de espetáculos da cidade ao longo de três décadas. O seu interior e a sua marquise de entrada foram equipados com ornamentadas peças de ferro concebidas pelo arquiteto José Verdussen, celebrando a convergência de dois talentos da arquitetura nessa construção.

No entanto, assim como inúmeros edifícios da capital, o reinado do Municipal não tardou a ser questionado quanto ao seu tamanho e modernidade. Em 1941, a elegante construção de feição eclética foi leiloada na gestão do prefeito Juscelino Kubitschek e, em 1942, reformada pela iniciativa privada com um projeto de traços Art Déco assinado pelo renomado arquiteto Raffaello Beri, passando a funcionar como Cine Metrópole, que também acabou sendo vítima da sanha pelo progresso da capital, por meio de uma contestada demolição em 1983.

Ainda em sua gestão como prefeito, Kubitschek não tardou a vislumbrar um futuro transformador para a casa do teatro de BH e, em 1941, encomendou ao seu parceiro de vanguarda construtiva, o arquiteto Oscar Niemeyer, um projeto com linhas modernistas para um novo Teatro Municipal a ser erguido no Parque Municipal. O teatro concebido por Niemeyer previa uma sala de espetáculos para 3.000 pessoas e uma fachada principal suavemente curvada, marcada por lâminas verticais e voltada para o parque, com uma grande passarela de concreto ligando a Avenida Afonso Pena à entrada de público.
Assim que saiu da prancheta de desenho, o teatro idealizado pelo mestre das curvas teve sua construção iniciada em 1942. No entanto, após a saída de Kubitschek da prefeitura, em 1945, a obra tornou-se uma das mais arrastadas da capital mineira, passando por várias gestões municipais e vindo a ser concluída décadas depois.

Por outro lado, em 1947, noutro capítulo do drama vivido pela casa de teatro da cidade, o prefeito que sucedeu a Juscelino Kubitschek, Octacílio Negrão de Lima, pressionado pela classe artística, encomendou ao arquiteto mineiro Luiz Signorelli um projeto para a construção de um teatro de emergência, até a conclusão da obra de Oscar Niemeyer. Inaugurado em 1950, também no Parque Municipal, no lado oposto ao “Municipal do Niemeyer”, o teatro provisório recebeu o nome de Teatro Francisco Nunes.
Com o projeto desse teatro provisório, Luiz Signorelli, que já havia transitado pela arquitetura eclética e Art Déco ao criar vários ícones da nossa paisagem urbana — incluindo a Prefeitura de Belo Horizonte, exuberante exemplar Déco instalado a poucos metros do teatro —, deu mais um salto estilístico em sua notável carreira. O arquiteto mineiro concebeu uma autêntica obra modernista ao explorar, em concreto armado, diversos elementos curvilíneos, em provável homenagem ao mestre criador da Igrejinha da Pampulha e do prometido teatro definitivo. O Francisco Nunes, provisório à época, resistiu ao tempo e, no final das contas, acabou sendo eternizado como patrimônio histórico, após ser tombado pelo município.

O último ato da saga do Teatro Municipal — extinto na Rua Goiás e redesenhado para o Parque Municipal em 1941, e ainda rebatizado nos anos 1960 como Palácio das Artes — deu-se com a conclusão das obras em 1970, na gestão do prefeito Souza Lima e do governador Israel Pinheiro, a partir de projeto de remodelação e ampliação elaborado pelo arquiteto mineiro Hélio Ferreira Pinto, sobre o projeto original de Niemeyer. Formado pela Escola de Arquitetura da UFMG em 1953, Hélio foi autor de diversos edifícios públicos da capital mineira, entre eles a sede do Banco Central do Brasil, o antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), atual Memorial dos Direitos Humanos, a sede do Departamento de Trânsito de Minas Gerais (Detran-MG) e o Hospital de Pronto Socorro João XXIII.

Ao fim e ao cabo, na busca pela consolidação da sua casa teatral ao longo do século XX, a cidade — grande palco de atuação dos arquitetos — assistiu ao desenrolar de um drama existencial no setor das artes cênicas, com vários desdobramentos arquitetônicos marcados por sonhos, descasos, destruições e reconstruções. Trata-se do retrato de um período histórico de vertiginosas e radicais transformações em todos os campos, refletidas na feição do espaço urbano de Belo Horizonte.











