Meu hospital – Uma ode a dias de medo, dor e aço

Gustav Klimt – Mãe e filho

Tem aquela letra do Chico que diz: “Não há nada como um dia após um outro dia. Pro meu coração. E não vale a pena ficar, apenas ficar. Chorando, resmungando até quando, não, não, não”. E a vida se trata basicamente disso. De superar. A felicidade a gente encontra em instantes de desatenção. Quando a gente menos espera vem o sorriso.

Refleti antes de escrever este texto. Se ele tem interesse jornalístico. Se ele vai ficar piegas. Se o leitor (caro leitor) teria a paciência de terminá-lo. Mas tem horas que procuro negar o lead, negar o jornalismo, e ser apenas sincero. Por isso, não vou fazer o preceito comum aprendido na faculdade, de entregar o tema do texto logo nas primeiras linhas, para assim pegar a atenção do leitor.

Bem, espero que você ainda esteja aí. Estou escrevendo em um fluxo livre de consciência. Penso, logo digito. Mas hei de me ater aos fatos. Pelo menos da maneira como eu me lembro. E a lembrança é uma foto 3×4 da realidade. Um recorte. Recorte do real.

Arthur John Elsley – The Little Pig Went to Market

Acordei meio dia (tarde!) numa terça-feira comum. Há duas semanas. Preguiçosamente tomei meu banho, vesti minha surrada calça, coloquei uma blusa limpa e me encaminhei para o serviço. Iria fazer uma gravação. Deveria estar com um sorriso no rosto. Me vesti de vaidade, e entrei na persona palhaça.

Porém, enquanto a câmera era preparada, recebo um telefonema. Já dizia o poeta que um telefonema é uma janela para o infinito. Enquanto toca o telefone, qualquer coisa absurda pode acontecer. Qualquer notícia pode chegar. E quis a roda viva que a notícia fosse ruim, dessas de causar pânico.

– Alô, Luciano? Aqui quem fala é L. (não me lembro de seu nome). Eu sou assistente social do Hospital João XXIII. Sua mãe sofreu um acidente, e é melhor que você venha para cá acompanhá-la.

Minha reação foi pânica. Acendo um cigarro maquinalmente. Fumo e dou longas baforadas, olhando o obelisco da Praça 7. Minha garganta seca. Com o dinheiro contado na carteira, entro num táxi, e peço ao motorista que me leve ao hospital.

Sou muito mórbido. Extremamente. Um menino olhando o amor pelo buraco da fechadura.

Sem mais notícias, espero pelo pior, e engasgo um choro. Caminho pelos corredores do João XXIII, e vejo de soslaio pacientes entubados, com familiares em suas cabeceiras. Dói admitir, mas vejo morte e humores em cada cama. A fragilidade da vida, e o caminho inexorável para o fim. Somos só um punhado de carne, esbarrando uns nos outros, até que a ceifadora vem nos colocar em descanso eterno?

Encontro minha mãe na sala de raio X. Sua calça rasgada, seu rosto arranhado, seu braço com hematomas. É uma senhora de 66 anos, cuja vida foi de dificuldades e desafios. Ela está consciente. Me conta que, saindo de minha casa, ela desviou de um ônibus, mas foi atingida por uma moto.

Lembro do Radiohead. Da música Killer Cars. Carros assassinos. É o apocalipse motorizado. Um regime que, na base de petróleo e aço, mata, aleija e fragmenta não sei quantas famílias, todos os dias, ao redor do mundo.

Dou as mãos para minha mãe, e agradeço intimamente a São Francisco de Assis, que a tenha protegido. Mamãe foi adotada quando criança, e sempre foi pouco afeita a demonstrações de afeto. Mas, machucada como está, aperta minha mão em busca de coragem. Sou seu único esteio, nessa hora de medo e dor.

Tem uma lembrança que não gosto. Era calouro na faculdade, quando na Praça Raul Soares, em uma certa manhã, atropelei uma mulher. Lembro que no som do carro tocava Bold as Love, do Jimi Hendrix. Os acordes da guitarra eram mais altos, que o som do freio e de vidro se quebrando.

Acompanhei a mulher ao João XXIII. O mesmo hospital que, um ano antes, eu havia me despedido de um amigo, também atropelado. São os malditos killer cars. Esbarrando nas pessoas, atingindo sonhos e vidas. Fumaça, asa partida e dor.

Weegee – Car crash

(Relendo o texto até aqui, percebo que ele está pouco factual, e muito resmungo. Coisa de velho rabugento. Está na hora de uma guinada. Vamos a ela).

No dia seguinte, minha mãe foi transferida de hospital. Foi de ambulância até o Barreiro. Acordei meio ressaqueado, fruto da cerveja bebida na noite anterior. Mesmo com o meu mundo de ponta cabeça, passei no bar e tomei minhas três garrafas de todos os dias.

A bebida primeiro me acalma, depois me deixa comovido como o diabo. Meu olho armando um bote sem futuro. Sou como o português da anedota, que olha a casca de banana na sua frente, e pensa ‘lá vou eu escorregar de novo’.

No hospital do plano, eles vaticinam que minha mãe passaria por uma cirurgia. As pernas estavam bem machucadas, principalmente a direita. Contando as moedas, compro um novo maço de cigarro. Vou até a porta do hospital, e acendo um cigarro no outro, fumando compulsivamente.

Me perpassa um ataque de pânico. Sinto-me muito sozinho, queria ter alguém pra me dar segurança. Quando são umas três da tarde ela entra na sala de cirurgia. A previsão é que o procedimento dure quatro horas. Quatro horas para colocar uma chapa de metal nas pernas?

Na televisão da sala de espera, as olimpíadas. Seres humanos perfeitos, saltando mais alto, vendo mais longe, sendo mais fortes. Penso na distância entre essas pessoas tão mais adequadas, e essas, numa fila de hospital, tão frágeis.

Minha rotina nas horas seguintes se resume a fumar, subir escada, ver um recorde na TV que eu não presto atenção, descer escada e fumar. Tossidas (cof, cof), fumar e fumar. Jogo a guimba no chão e apago com meu tênis. Na ante sala que me separa de onde minha mãe está sendo cortada e operada, um aviso que expressa ser terminantemente proibida a circulação de pessoas não autorizadas.

Vez em quando eu consigo conversar com alguma enfermeira que busca me tranquilizar. Vou ao banheiro, e de frente ao espelho faço mil promessas, que buscam a ajuda do imaterial, do invisível. Estaria alguém me ouvindo?

Weegee – 1955

Parece que a natureza protege os fumantes. Quando é cerca de oito horas da noite minha mãe sai da sala de cirurgia. Moída, grogue – porém viva. A anestesia deixa ela com um olhar cansado. Me reconhece e solta uma série de reclamações. Tudo dói, principalmente as pernas, roxas e costuradas.

No quarto, minha mãe teria a companhia de uma garota, Jessica, cujos rins estavam em situação difícil. Precisaria fazer uma hemodiálise. Mais uma vez penso na precariedade da vida, e do quanto somos delicados.

Geniosa, minha mãe pede que eu não durma no hospital, e que vá para sua casa cuidar de seu cão e gato de estimação. Pego o anel rodoviário, e chego em seu apartamento. Sou recepcionado pelo latido esganiçado de Joca, nosso fiel vira-lata de nove anos. Cão neurótico, incapaz de viver sozinho. Me pergunto o que será feito dele, agora que minha mãe está doente, e será incapaz de cuidar do canino.

Volto ao hospital na manhã seguinte, e vejo que o trabalho mal começou. Ela está fraca, precisou de uma transfusão de sangue durante a noite. Bastante debilitada ela consegue murmurar algumas palavras, e caí no sono. Sempre que ela fecha os olhos, eu a acordo, temendo que ela não me escute. Tremo. Tremo. Tremo. Beijo sua cabeça, e em meus lábios grudam areia, fruto do acidente da véspera.

Meu irmão chega de viagem. Sinto-me mais seguro. Alguém para ajudar a carregar o peso. Mesmo que pese uma tonelada. Os dois, minha mãe e ele, juntam-se num coro que fala sobre minha irresponsabilidade. Lembro de uma situação em que lhes faltei. Quando meu pai morreu, ambos foram a nossa cidade natal, jogar as cinzas dele no mar.

Inventei uma desculpa qualquer nessa ocasião, para não os acompanhar. Desde então, bateu em nosso pequeno circulo familiar, a certeza que eu não sou confiável em situações de crise. Imagem difícil de mudar, quando você está tremendo e chorando.

Os dias seguintes correm assim: Mamãe mais fraca, viagens ao anel rodoviário, mamãe mais forte, cigarros, sobe e desce no hospital, comida com alho em demasia, fraldas, fluídos, transfusões de sangue. Dormindo pouco. A realidade ficando complicada.

Um desses dias, tenho um acesso de pânico no hospital. Me dão calmante, e pedem que eu me retire. Estou atrapalhando os doentes. Minha auto imagem está em frangalhos.

Poteen Drinkers – Brian Whelan

Finalmente chega o dia da alta. Todavia, ela não está reagindo bem, e a saída do hospital fica para o dia seguinte. Mais cigarro! Pronto, agora ela vai ter alta. Meu irmão já voltou pra Brasília. Agora é comigo. Vamos para a casa dela, bem mais vazia sem Joca, nosso cachorro. Ele foi levado pra um sítio em Pedro Leopoldo. Penso se São Francisco ficaria chateado por termos nos livrado do animal em hora de dificuldade. Mas os santos não ficam bravos. A função deles é nos dar esperança.

Hoje minha mãe está em casa. Passada a turbulência, fica o aprendizado. Aprender com a dor, com a limitação. Aprender que a fase agora é outra. Cuidar de quem tanto já cuidou na vida. Corro o risco escrevendo essas mal traçadas linhas. O risco do real. Risco de ser ridículo. Risco de me expor demais.

Mas tenho uma tatuagem mental. “Só o que me restam são as palavras.” Escrevendo eu coloco os fantasmas pra fora. Escrevendo a gente se sente mais acompanhado. E tudo que a gente precisa nessa vida é ter alguém do lado.