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Colunas

Mulheres da Quebrada: da favela ao território de cuidado

03/09/2025 às 18h59
Foto: Arquivo Pessoal

No dia 12 de junho deste ano eu tive um date diferente. Por volta das 18 horas, fui ao encontro de muitas mulheres, na quebrada. Sem namorado, eu tinha me esquecido da simbologia da data e, naquela quinta-feira, me convidei para subir a favela e conhecer de perto um projeto que vem mexendo com a vida das “meninas” de lá.

Era noite quando estacionei no território delas. O local era estranho para mim e eu era uma estranha para a vizinhança. Caminhei apreensiva pela rua estreita até um predinho de três andares. Chegando lá, os primeiros contatos já me fizeram sentir em casa. Os sorrisos escancarados, os abraços afetuosos e a conversa fácil ainda são as melhores formas de dizer “bem-vinda!”.

Meia hora depois eu me vi numa roda de gente diversa: moças e rapazes, mulheres de meia-idade e idosas. Pessoas de cabelos trançados, alisados, cacheados e coloridos, soltos, amarrados, escondidos sob turbantes ou lenços. 

No centro da roda, a educadora ensinava sobre direitos humanos. Reuniões como essa acontecem todos os meses e os temas são variados. O objetivo principal é a troca. De informação, dores, necessidades, alegrias… de tudo.

Eu fui parar ali por causa de um episódio do podcast Ariza, que produzi junto com a Ana Paula Pedrosa. Faço uma pausa para contar que está prestes a ir ao ar. Não deixem de ouvir. Mas, voltando ao meu date na quebrada, naquela noite, além da pauta que estávamos fazendo, eu me perguntava qual era a história daquele lugar. A resposta veio com o nome de três mulheres: Scheylla Bacellar, Sandra Sawilza e Simone Megale.

“Seria mais fácil se o nosso coletivo tivesse nascido do prazer, mas ele surgiu da dor,  da falta de direitos, de tempo, de acolhimento, de conversas…”, contou-me Scheylla, meses depois, quando tivemos outro encontro para elas contarem a essa coluna sobre as suas histórias, anseios e a coletiva que nasceu disso tudo. 

Foi a Scheylla que, em 2017, lançou o convite no Facebook: “Quem topa sentar na quebrada e trocar uma ideia sobre esse cuidado aí?”. O tal cuidado era a saúde mental das mulheres da favela. A quebrada era uma esquina no meio do aglomerado, onde muitas das moradoras se sentavam para tomar Sol, partilhar alguma bebida, jogar conversa fora, aliviar a mente, pedir ajuda e, quase sempre, ser socorrida.

As irmãs Sandra e Simone engajaram logo na proposta da Scheylla. Isso quando engajamento era presença concreta e construtiva. Nascia a Coletiva Mulheres da Quebrada, cujas fundadoras têm nomes iniciados com “s”, são negras, artistas e ativistas sociais. As iniciais iguais são coincidência, o resto é consequência. Consequência de onde nasceram, como viveram e das faltas que enfrentaram.

Quando essas três mulheres convidaram as demais para debaterem juntas as necessidades que enfrentavam, tocaram, sem querer, em um latente desejo coletivo: o de se organizarem, se fortalecerem e se ajudarem. 

Entre 2017 e 2019, as “coisas” fluíram na velocidade da luz. Conseguiram local para as reuniões, parcerias diversas, especialmente psicólogos, e foram aprovadas no Edital Descentra, da Prefeitura de Belo Horizonte. A verba permitiu realizar muito do que sonharam naquele início do movimento.

No dia do encerramento do projeto, porque, pelo edital ele tinha data para começar e acabar, elas foram surpreendidas pelos pedidos de que a coletiva continuasse. “As mulheres entenderam a coletiva como algo que de fato dialogava com o que elas queriam para a vida delas”, relembra Simone.

“A gente trabalhou a valorização, ser parceira, ser ajudada e aí vem essa demanda de continuidade. Aí, a gente se perguntou: e agora?”, completa Scheylla.

Pausa aqui para registrar que ouvi-las é meio mágico. Os olhos brilham a cada memória.

Elas lembram que os pedidos continuaram chegando, cada dia mais variados. Cirurgia, apoio para desembolar o pedido de aposentadoria, medicação, comida. Incapazes de negar, a coletiva atendia conforme o alcance de suas mãos e de seus parceiros.

Simone, Scheylla e Sandra não imaginavam que, no meio da história, teria a pandemia de Covid-19. O fato de já estarem organizadas permitiu que dessem assistência a mais famílias. 

Naquela época, mesmo sem sede, a Mulheres da Quebrada recebeu e distribuiu cestas básicas, criou uma rede de psicólogos com atendimento on-line gratuito, mobilizou pessoas para ajudar no cadastro de famílias no auxílio-emergencial e disponibilizou acesso remoto de urgência à internet a quem precisasse.

Essa ajuda humanitária foi um boom na história da coletiva, que se tornou referência além do território que se propôs atuar. Chegou a ter mais de 100 psicólogos voluntários de todo o Brasil atendendo às famílias da maior favela de Minas Gerais e ajudou mais de 500 pessoas durante a pandemia. 

O impacto positivo na vida das mulheres assistidas fez com que as líderes entendessem que a coletiva era também um lugar de cuidados da comunidade. “Hoje, inclusive, a gente é reconhecida, não só pelo ponto de cultura, mas somos um território de cuidado. Estamos também em diálogo, inclusive, com as políticas públicas com relação a isso”, pontua Sandra.

Seis anos após seu surgimento, a coletiva é entendida pelas mulheres da favela como um movimento perene, que não acaba ao final de cada edital. Com sede própria, luta para prosseguir com os serviços que oferece e as mobilizações que provoca.

Os desafios são muitos. Passada a pandemia, reduziu para dez psicólogos voluntários. Além disso, o movimento briga por melhores serviços públicos de saúde mental, mais suporte e treinamento para as mulheres empreendedoras e mais programas para os adolescentes da favela.

É que quando os filhos estão bem, as mães também estão.

Scheylla, Sandra e Simone são negras, faveladas, nascidas e criadas no Aglomerado da Serra, ligadas à dança, ao teatro e à música. 

Quando crianças, as três tiveram a sorte de serem acolhidas em programas que levavam cultura para o morro e, mais do que tudo, lhes ensinaram a sonhar. Por isso, o que elas mais tentam entregar hoje às mulheres da quebrada e seus filhos é o direito e a coragem de sonhar!

Você tem alguma dúvida sobre a importância de seguir essas mulheres e a @coletivamulheresdaquebrada ? E mais do seguir, apoiem, divulguem, voluntarizem-se, inspirem-se!

Nalu Saad

Nalu Saad tem 38 anos de jornalismo e já atuou em impresso, internet, rádio e TV. É speaker TEDx como ativista pela saúde mental das crianças e adolescentes, jornalista amiga da Criança pela ANDI Comunicação e Direitos da Criança e integra a Rede Jornalistas pela Primeira Infância, da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. É escritora com cinco livros publicados, quatro infantis.

Nalu Saad

Jornalista

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