Troca-troca partidário a partir de março será desastroso para 3ª via presidencial

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O ex-juiz Sérgio Moro briga com Ciro Gomes para ser a terceira via (José Cruz + Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
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Começa no próximo dia 3 o troca-troca partidário entre deputados e senadores, que são candidatos à reeleição, e de candidatos do pelotão de cima (vice-governador e vice-presidente). O prazo é curto e vai até o dia 1º de abril, permitindo a oportunidade de mudar de partido sem riscos de perder o mandato. Poderá intensificar estragos na terceira via presidencial.

Além da busca por abrigo seguro pela reeleição, outro fator inédito irá influenciar, que é a formação de federações partidárias. Elas funcionarão como espécie de coligação de legendas, mas com mais compromisso programático e até ideológico e com tempo de duração além das eleições.

Mas o principal fator de influência de mudanças será o contexto da disputa presidencial e de governador. A tendência é de os políticos fugirem do balaio de candidatos com baixa pontuação nas pesquisas e chegarem perto dos dois mais bem posicionados. Por isso, serão beneficiados o ex-presidente Lula (PT) e o atual presidente, Jair Bolsonaro (PL) por conta da polarização entre ambos.

Primeiro teste de fogo

Com isso, será grande o risco para os presidenciáveis da terceira via, que terão nesse período o primeiro teste de fogo. Se perderem aliados para a bipolarização, podem até desistir da disputa presidencial ou, então, terão que começar enfraquecidos uma caminhada que exigirá muito apoio pelo Brasil afora. Sem os aliados presentes em cada região, fica praticamente impossível obter êxito na campanha de dimensões continentais.

Por que isso? O que moverá os deputados? Simplesmente, o tradicional faro de poder, o instinto de sobrevivência política e eleitoral. Eles irão buscar o partido ou aliança que ofereça as melhores condições regionais para que consigam a reeleição em outubro.

O PT de Lula e seus aliados e o PL de Bolsonaro e os partidos aliados deverão ser os mais beneficiados com as mudanças. Dessa forma, até mesmo na atual legislatura, alcançarão as maiores bancadas no Congresso Nacional. E o mais importante, ajuda na capilarização, na presença de aliados por todo o país, apoiando e fortalecendo esses candidatos na disputa presidencial.

Disputa para não murchar

Hoje, o partido de Lula tem 53 deputados federais e tende a crescer assim como o PL de Bolsonaro, que tem 43. No pelotão da chamada terceira via, a disputa maior é para não murchar. Como não têm crescimento nas pesquisas, tendem a ficar menos competitivos para receber novas filiações.

No caso do PSDB, a situação é mais grave. O partido rachou entre o grupo que apoia o presidenciável e governador de São Paulo, João Dória, e aquele que tenta minar sua candidatura, como os tucanos mineiros. Aí, com fogo amigo em casa, é que não cresce mesmo.

Os tucanos vivem uma crise interna e externa sem tamanho para um partido que, nos últimos 20 anos, dominou a cena política nacional e mineira. Pelas contas em Brasília, corre o risco de perder até 10 dos seus 31 deputados federais.

João Dória, governador de São Paulo, terá que manter o partido unido (Governo de São Paulo/Divulgação)

Federação de partidos pode ajudar

Nenhum dos partidos desponta como grande ímã para atrair novos filiados. A nova regra de formar federações partidárias poderá ajudar na captação deles, permitindo a união de legendas. Isso aumenta a chance de eleição dos candidatos do bloco, mas exige atuação conjunta nos quatro anos da legislatura.

Atualmente com 25 deputados, o PDT de Ciro Gomes deve perder cerca de cinco parlamentares. O Podemos de Sergio Moro é praticamente nanico na Câmara, com apenas 11 das 513 cadeiras. Tende a continuar assim.

O MDB de Simone Tebet também passou por encolhimento nas últimas eleições e atualmente tem uma bancada mediana, de 34 parlamentares. O PSD do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (MG), deve manter as atuais 35 cadeiras. A própria candidatura de Pacheco perdeu força, levando-o a desistir antes de começar. O presidente da legenda, Gilberto Kassab, já trabalha com um plano B.

Já o União Brasil, hoje a maior bancada da Câmara, com 81 parlamentares, vai encolher após a saída em bloco de bolsonaristas do PSL rumo ao PL e outras siglas do centrão, devendo ficar com algo entre 50 e 60 parlamentares. O partido não tem um presidenciável.

PT e PL vão ganhar mais

A situação no Senado será semelhante, com o partido do presidente Jair Bolsonaro devendo ser o grande vencedor do troca-troca de partidos. O PL começou a atual legislatura com apenas dois senadores, número que acabou triplicando. O grande fator de mudança, no entanto, foi a filiação de Bolsonaro, que levou junto seu filho, Flávio Bolsonaro (RJ), o vice-líder do governo Marcos Rogério (RO) e Zequinha Marinho (MA).

O PT ganhou apenas um senador, Fabiano Contarato (ES), ex-Rede, que deverá disputar o governo do Espírito Santo. O partido então passou a contar com 7 senadores, sendo a quinta maior bancada. O MDB de Tebet também teve apenas uma aquisição nos últimos meses, com o mineiro Carlos Viana que deixou o PSD também com a intenção de disputar o governo de Minas.

Como aconteceu na Câmara dos Deputados, a filiação do ex-juiz Sergio Moro não provocou grande impacto na bancada do Podemos, que permaneceu do mesmo tamanho, com nove senadores.

Os representantes da terceira via acreditam numa união dos pré-candidatos ainda no primeiro turno e aposta nas pesquisas para definir quem será o representante único deles na disputa. Dessa maneira, avaliam que alcançariam um índice mais elevado de intenções de voto.

Orion Teixeiraorionteixeira.orionteixeira@gmail.com

Jornalista político, Orion Teixeira recorre à sua experiência, que inclui seis eleições presidenciais, seis estaduais e seis eleições municipais, e à cobertura do dia a dia para contar o que pensam e fazem os políticos, como agem, por que e pra quem.

É também autor do blog que leva seu nome (www.blogdoorion.com.br), comentarista político da TV Band Minas e da rádio Band News BH e apresentador do programa Pensamento Jurídico das TVs Justiça e Comunitária.

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