Era sábado e chovia quase sem parar desde a noite anterior. Temo que isso afaste o público, pois haverá sessão de autógrafos de uma mulher que sigo há décadas – na televisão, na literatura, nas redes sociais e nas palestras. Por admirá-la, desejo que mais pessoas a conheçam. Mas, ao chegar à Livraria da Rua, na Savassi, vejo que não há vagas para estacionar e que a fila se estende como uma serpente pela calçada: gente à espera não só de um autógrafo, mas de uma foto, um abraço e um dedo de prosa. Leila entrega tudo isso a cada pessoa, sem pressa. Investe no tempo de qualidade, no olho no olho, na conversa verdadeira, sua marca desde os tempos do programa Leila Entrevista, na Rede Minas, onde conversou com mais de 1.600 pessoas.
Jornalista, escritora e palestrante, mineira de Araxá e filha da professora Lúcia, Leila Ferreira autografou seu novo livro, O nome disto é vida, no qual fala sobre felicidade, depressão, conexões humanas e o que realmente vale a pena. Para escrevê-lo, conversou com 22 pessoas em diferentes partes do mundo. Conversas mesmo, porque ela escreve como quem puxa uma cadeira para o leitor. Em vários trechos, parece que estamos ali, sentindo o cheiro do café e o gosto do pão de queijo.
A mesa é minha imaginação, mas os cenários que Leila descreve são reais: casas, consultórios, cafeterias, campos verdes cercados de ovelhas. Ouvi, pelas palavras dela, o barulho do moinho de vento e o berro das ovelhas em Portugal, durante as entrevistas com um apaixonado por moinhos e um pastor cego. E quase provei a sopa insossa servida no Nepal, onde ela encontrou um médico e montanhista brasileiro sem casa fixa. Leila nos conduz a reflexões profundas — e, para permitir que você mergulhe ainda mais, esta coluna chega no formato de perguntas e respostas.
Como você escolheu as pessoas que ouviu para esse livro?
É até difícil explicar, porque eu não comecei a fazer o livro pensando eu vou entrevistar tais pessoas. Comecei pensando: eu vou entrevistar pessoas que eu tenho vontade de conversar com elas ou que elas têm trajetórias de vida interessantes, ou porque elas provavelmente têm reflexões interessantes sobre a vida, ou as duas coisas, né? Eu tinha algumas pessoas que eu já sabia que eu queria conversar, com o Cortella, que eu admiro demais. Marta Medeiros e Denise Fraga, que são amigas queridas e com quem eu adoro conversar. O resto foi acontecendo. Uma pessoa me falou do senhor que tem um moinho de vento em Portugal. Falei: dá uma conversa interessante! E fui atrás dele. Na internet eu já tinha lido sobre o pastor de ovelhas cego e fiquei com ele na cabeça. Já estava entre os escolhidos quando pensei no livro. Eu estava na Tanzânia e uma pessoa me falou do montanhista do Nepal. Então uma coisinha foi puxando a outra, e a lista foi aumentando. Minha editora disse para não entrevistar mais de dez pessoas… (risos)
Eu ia mesmo perguntar se você tinha um limite de entrevistados…
Tinha… (risos). Conforme aumentava o número de pessoas, me dava vontade de desistir. Eu pensava: não dá, não é possível, não adianta insistir, eu não sei construir esse livro, eu não sei o que fazer para transtornar essas conversas no livro. Minha editora brincou, mas brincou sério, pois ela é minha amiga: ‘olha, se você estiver pensando em desistir mesmo, eu vou a Belo Horizonte vou me hospedar na sua casa e não vou deixar você desistir’. Aí teve um momento que parece que deu uma luz e eu falei: acho que agora eu consigo.
Mas não ficou um livro grande, nem cansativo. Ao contrário, está fluído e muito gostoso de ler…
Eu tive que cortar muito. Eu sabia que se eu colocasse tudo que os entrevistados falaram ia virar uma coisa enorme. Eu já escrevi cortando bastante e depois teve o corte da edição. Isso me deu muita aflição, porque eu fico com essa coisa na cabeça que a pessoa vai ler e pensar: como pode ela ir lá em Moçambique e escrever tão pouco sobre o Mia (escritor Mia Couto). Mas não dava para ser mais, né? O livro é sobre várias conversas com várias pessoas, então, tinha que ser sintético mesmo.
Você sentiu falta de entrevistar alguém?
Todo dia eu penso nisso! (risos). Eu vejo alguma história no Instagram e penso que essa pessoa deveria estar no livro. Eu encontro alguém e me lembro. Outro dia estava moderando uma palestra do Tião Rocha (antropólogo) e, enquanto ele falava, eu pensava: ele deveria estar no livro? Ele tem um trabalho maravilhoso. Mas não é possível lembrar de todo mundo.
O livro provoca muitas reflexões em campos muito bem definidos. Você já tinha ideia dos temas ou eles foram brotando no decorrer das entrevistas e da escrita?
Eu sabia exatamente o que eu queria abordar antes de começar. Eu sou uma pessoa de poucos temas. Existem palestrantes com portfólio extenso de assuntos, mas, eu falo quase sempre dos mesmos temas, que são questões ligadas a comportamento e sentimentos, como felicidade, depressão, tempo, pausa e relações pessoais. Tanto que fiquei preocupada e falei com minha editora sobre isso, que eram temas que abordei a minha vida inteira. E aí estava um dos grandes desafios, que era não trilhar por esses temas de forma idêntica.
Eu confesso que, antes de ler, esperava por entrevistas individuais e me perguntei se não seria maçante, mas você conseguiu estabelecer um diálogo com todos de maneira suave. Você tinha essa ideia já formatada antes de escrever?
Nãooo! Eu cheguei tropeçando e fui tropeçando, tropeçando e quando eu estava quase caindo, eu me levantei e achei esse formato. A minha ideia inicial era fazer um bloco, um capítulo com cada pessoa, mas depois eu falei sobre isso com um entrevistado, lá na França, pois ele me perguntou como seria o livro. Quando contei, ele falou que o meu conceito estava errado. Disse que para virar livro tinha que ser autoral, costurar tudo com as minhas reflexões.
Leila, você tem noção que esse livro traz uma coletânea quase inédita de definições da vida por especialistas e pensadores muito importantes?
Engraçado você perguntar isso porque todo jornalista quer histórias novas e ali tem uma mistura de falas novas dos entrevistados e outras repetidas. Eu repeti algumas já conhecidas por estarem em contextos diferentes, mas algumas respostas são impressionantes e isso foi o mais belo. Por exemplo, a Marta (Medeiros) dizer que quando era adolescente, ela não queria ser inteligente e sim bonita. Veja só como ela se mostra humana, com tanta vulnerabilidade e honestidade? Eu acho precioso num mundo de tanto teatro e tanta performance, uma pessoa que é pública se colocar assim. Aí eu me lembro da primeira vez que entrevistei a Isabel Alende e perguntei se ela tinha algum arrependimento. Achei que ela ia falar qualquer outra coisa, mas disse: de ter traído meu marido porque ele era uma pessoa boa. Essa honestidade desconcerta, mas é também maravilhosa. Sacode a gente, né?
As entrevistas impressionaram bastante você, mesmo sendo temas recorrentes na sua escrita?
Muito! Por exemplo, o pastor de ovelhas falando da tal da alegria. Para ele, que é cego, alegria é chegar em casa, apertar o interruptor e ver a casa se iluminar. Ele não tem como ter isso. Acho essa parte de uma força, de uma beleza, de uma poesia e de uma tristeza enormes. Antes de escrever, às vezes eu deitava e, ao apagar a luz, essas falas voltavam à minha cabeça. Foi — e é — um aprendizado imenso conversar com essas pessoas, porque a gente sai um pouco desse mundo em que estamos, que está cansativo.
Você fala bastante da depressão e da felicidade no livro…
Eu falo da depressão e da felicidade de forma recorrente. Primeiro porque me incomoda profundamente essa cultura da felicidade com letras maiúsculas, como se ser feliz dependesse só da gente. Isso é conto da carochinha. A vida não é assim, né? A felicidade envolve muitas variáveis e a gente fica com essa visão ingênua e nefasta de tentar convencer as pessoas de que é muito fácil ser feliz. Aí, quando a pessoa está se sentindo triste, angustiada, ansiosa e tudo mais, ela pensa: “Gente, além de eu não conseguir me sentir feliz, ainda não estou sendo competente.” Já é muito difícil viver num mundo onde todo mundo parece mais feliz do que a gente para aguentar essa cultura da felicidade, esse oba-oba.
Então eu não falo de felicidade para convencer as pessoas a serem felizes, mas para que elas aceitem quando não são, para que se acalmem. Sobre a depressão, eu falo muito porque convivo com ela desde os 15 anos de idade, quando perdi 6 ou 8 quilos e minha mãe me levou ao médico. Ele disse que o que eu tinha era tristeza. Mas fui levando… até que, com 30 anos, a coisa explodiu. Aí veio aquela depressão intensa, acompanhada das crises de pânico. O pânico te dá uma vontade de morrer, porque não tem nada mais assustador, não tem nada que oprima tanto, que esmague tanto… Então, eu não posso parar de tomar antidepressivo em hipótese alguma — não por causa da depressão, mas por causa do pânico.
E a “ditadura da felicidade” atrapalha o tratamento da depressão, não é, Leila? Está tudo ligado.
A performance da felicidade agrava a tristeza, porque você não consegue falar da própria dor. A palavra é um movimento de cura. A negação do sofrimento, é claro, vai se manifestar como um transtorno. Tem cartilha demais hoje, para tudo: para ter saúde física, saúde mental, saúde financeira, para ser a mãe perfeita… Isso é brega, aquilo é certo. Vamos respirar, vamos olhar pela janela. Agora mesmo eu estou vendo aqui o pôr do sol e está tão bonito! Estou conversando com você e vendo as cores do céu mudando. Estava meio dourado, agora está meio rosado, o azul está virando cinza… Vamos prestar atenção nessas coisas, em vez de olhar essas regras todas que inventaram, o que é brega ou bonito na sua casa. Estamos vivendo a vida muito na superfície, estamos na epiderme da vida, ocupados com futilidades. Não importa se o seu sofá está na moda. Importa que quem está sentado nele é a sua mãe, alguém que você ama — e todas as histórias que essa pessoa carrega.
No lançamento do livro, ouvi várias pessoas comentando que gostam muito do seu jeito simples de falar e de levar informação. Enquanto escrevia esse livro, você estava preocupada em alcançar mais pessoas?
O nosso mundo é profundamente excludente. Todas as formas de exclusão são usadas diariamente. Eu não sei se é consciente, mas sempre procurei escrever de maneira que todo mundo entendesse, da forma mais acessível possível. Mas isso é espontâneo em mim. O preconceito social é muito ruim e acho uma crueldade. Quando você fala algo que o outro não vai ouvir ou entender, isso também é uma forma de exclusão. Acho que aprendi isso com a minha mãe. Um dia, uma pessoa me disse que gostou porque eu tratei a rainha da Suécia, no Palácio Real, do mesmo jeito que tratei a benzedeira do Vale do Jequitinhonha no barraco dela. Eu chorei e respondi que eram duas rainhas, cada uma no seu palácio.
Para a gente encerrar, você sente que, como mulher, jornalista, escritora, entrevistadora, com suas palavras, está movendo o mundo?
Quem sou eu para ter a intenção de mudar o que quer que seja? Mas, quando alguém vem falar comigo e diz: “Olha, aquilo me ajudou, aquilo me fez pensar”… Por exemplo: o meu livro de cartas para minha mãe (O amor que eu sinto agora). Várias mulheres chegaram para mim na rua, no supermercado, e disseram que, depois que leram o livro, melhoraram a relação com a mãe ou conseguiram perdoá-la. Aí eu penso: valeu a pena. E isso é maravilhoso. A vida, como o Cortella fala, é partilha. Ou ela não é vida.
Naquela fila, naquele sábado chuvoso, como todo mundo que estava lá, eu queria um autógrafo no novo livro — “O nome disto é vida!”. Acabei levando também um exemplar de “O amor que sinto agora”, que eu já tinha lido emprestado de uma amiga, e “A arte de ser leve”. Nesses dois, pedi dedicatórias para as minhas filhas. Desejo muito que elas leiam e absorvam um pouco do jeito Leila de ver a vida.
E, mais do que recomendar, eu desejo fortemente que você siga essa mulher!









