O Novembro Negro é um período fundamental não apenas para refletirmos sobre a luta e a resistência da população negra no Brasil, mas, também, confrontarmos as profundas desigualdades estruturais que afetam sua saúde e bem-estar. Por isso, vou abordar um tema de extrema relevância – as doenças que acometem de forma desproporcional a população negra.
Doenças Causadas por Microrganismos
A maior exposição a condições sanitárias precárias e a dificuldade de acesso a serviços de saúde de qualidade tornam a população negra mais vulnerável a certas doenças infecciosas.
Tuberculose – Causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, a taxa de incidência na população negra é três vezes maior que na população branca no Brasil. Em 2023, cerca de 60% dos casos de tuberculose foram registrados nessa população, enquanto a população branca representou 23,38% dos casos segundo o Painel Epidemiologia e Desigualdades: Doenças e Agravos na População para Raça/Cor. A maior incidência está ligada à aglomeração, insalubridade e imunossupressão associadas às piores condições de vida e menor acesso à saúde. A melhor maneira de mudar a situação é o diagnóstico precoce (busca ativa de sintomáticos respiratórios), tratamento supervisionado e melhoria das condições socioeconômicas e de moradia.
HIV/AIDS – A população negra apresenta maior taxa de mortalidade por AIDS, sendo cerca de 1,5 vez maior do que em pessoas brancas. Em 2022, 62,8% dos casos notificados e 61,7% das mortes foram em negros. A maior vulnerabilidade está associada ao racismo estrutural que impacta o acesso à prevenção, ao diagnóstico e à adesão ao tratamento antirretroviral. Para lidar com esta enfermidade é necessário testagem e aconselhamento acessíveis, uso de PrEP/PEP (Profilaxia Pré e Pós-Exposição), combate ao estigma e garantia de tratamento ininterrupto.
Sífilis – Causada pela bactéria Treponema pallidum, a taxa de sífilis congênita (transmitida de mãe para filho) é significativamente mais alta em crianças de mães negras. Desde 2012, observa-se que a população parda concentra mais de 50% dos casos e em 2023, atingiu 60,63%, refletindo a falha no pré-natal e a dificuldade de acesso ao diagnóstico e tratamento. A qualificação do pré-natal para diagnóstico e tratamento oportunos da gestante e do parceiro, com foco nas áreas de maior vulnerabilidade social, são essenciais.
Doenças de Base Genética
Algumas condições de saúde têm uma prevalência maior na população negra devido a fatores genéticos historicamente ligados à ancestralidade africana.
Anemia Falciforme – É a doença hereditária mais prevalente no Brasil (60.000 a 100.000 pacientes com doença falciforme no país) e afeta predominantemente a população negra na qual as hemácias (glóbulos vermelhos do sangue), que normalmente são redondas, assumem a forma de “meia lua” ou “foice” (daí o nome “doença falciforme”). Com este formato, a hemácias não oxigenam o organismo satisfatoriamente, devido à dificuldade de passar pelos vasos sanguíneos, causando má circulação sanguinea e afetando quase todos os orgãos com sintomas como crises de dor, icterícia, anemia, infecções, acidente vascular cerebral, etc. O diagnóstico precoce (teste do pezinho) é essencial para evitar o agravamento, assim como o acompanhamento multidisciplinar especializado e políticas públicas de atenção integral.
Deficiência de G6PD (glicose-6-fosfato desidrogenase) – é uma condição genética que afeta hemácias, causando a sua destruição (anemia hemolítica) quando expostos a certos medicamentos, infecções ou alimentos. É mais comum em homens negros, com uma prevalência que varia de 5% a 20% em algumas regiões do Brasil. A triagem neonatal também é realizada pelo teste do pezinho e para evitar complicações em caso de detecção é necessário acompanhamento médico e orientação rigorosa sobre medicamentos.
Condições Crônicas
Muitas das doenças crônicas que atingem a população negra com mais severidade estão diretamente relacionadas ao racismo estrutural, que se manifesta na dificuldade de acesso à saúde de qualidade, na exposição a estressores crônicos (discriminação) e nas condições socioeconômicas desfavoráveis.
Hipertensão Arterial – A prevalência da hipertensão é 30% maior em pessoas negras, e a mortalidade por Acidente Vascular Cerebral (AVC) é duas vezes maior nessa população e claramente os fatores genéticos (predisposição à retenção de sódio), estresse crônico (discriminação) e desigualdade social, que limita o acesso à prevenção e ao tratamento, contribuem negativamente. A mudança pode ocorrer com controle rigoroso da pressão arterial, redução do sal, estímulo à atividade física e combate ao racismo como fator de estresse crônico.
Diabetes Mellitus Tipo II – Mulheres negras têm chance 50% maior de desenvolver esta diabetes quando comparadas às mulheres brancas (Fonte: Faculdade de Medicina UFMG). A interação entre fatores genéticos e ambientais, como a dieta de baixa qualidade e o estresse crônico associado à desigualdade são os grandes vilões. É possível prevenir com alimentação saudável, atividade física e acesso facilitado a medicamentos.
Glaucoma – É a principal causa de cegueira irreversível no Brasil sendo 6 a 8 vezes mais frequente e com início mais precoce em pessoas negras. As causas são fatores genéticos e biológicos (pigmentação do olho) e menor acesso a exames oftalmológicos preventivos. O rastreamento anual com oftalmologista a partir dos 40 anos para medição da pressão ocular e exame de fundo de olho é a melhor maneira de evitar..
Câncer de Próstata – Homens negros têm risco cerca de 50% maior de desenvolver a doença e de morrer por ela do que homens brancos. Fatores genéticos e o início tardio do rastreamento devido a barreiras culturais e institucionais são apontadas como causas. É importantíssimo o rastreamento precoce (a partir dos 45 anos) e campanhas que abordem as especificidades e o risco elevado para esta população.
O Caminho da Equidade em Saúde
Não basta apenas tratar as doenças. É urgente que as políticas públicas reconheçam e combatam o racismo institucional na saúde. É preciso garantir:
- Acesso Universal e Qualificado: Assegurar que os serviços de saúde, desde a atenção básica até a alta complexidade, sejam sensíveis às especificidades da população negra e livres de vieses raciais.
- Formação Profissional: Capacitar profissionais de saúde para o manejo adequado das doenças de maior incidência na população negra e para o enfrentamento do racismo no ambiente de trabalho.
- Implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN): Garantia da coleta de dados por raça/cor para subsidiar políticas mais eficazes.
O ministério da saúde criou a inciativa Saúde sem Racismo como uma tentativa de romper o ciclo de desigualdade, promovendo políticas de inclusão, formação profissional de saúde para reconhecer e combater o racismo, e, garantir cuidados de forma igualitária para todos. Em Belo Horizonte, O Grupo de Interesse Especial (SIG): Saúde da População Negra é um Projeto de Extensão da Faculdade de Medicina, coordenado pela servidora Cláudia Regina dos Santos, Ualisson Nogueira do Nascimento, docente no Departamento de Fonoaudiologia, e de Fernanda Cockell, docente do Departamento de Sociologia é um espaço aberto, acolhedor, de identidade e identificação negra, unindo estudantes, profissionais de saúde e comunidade em geral para promover debates sobre políticas públicas e racismo em saúde, formação profissional, saberes tradicionais, e outros temas relevantes à saúde da população negra.
Refletir sobre a saúde da população negra é um ato de antirracismo e um convite para que a sociedade e o Estado assumam a dívida histórica, promovendo a equidade e garantindo o direito à vida e à saúde para todos os brasileiros, independentemente da cor da pele.









