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‘É natural, então não faz mal’! Plantas medicinais podem trazer riscos à saúde? 

30/09/2025 às 13h52 - Atualizado em 30/09/2025 às 13h58
plantas medicinais
Imagem: Maira Fonseca/Epamig

Todo mundo já ouviu que se um produto é natural, mal não faz! Isso é um engano muito comum que pode até matar. É melhor fixar o conselho “tudo em excesso faz mal!”, inclusive plantas medicinais. Quando se trata de saúde, o “natural” não é necessariamente melhor, mais saudável e mais seguro. 

A natureza tem sido benéfica e essencial à nossa vida. Dela temos a aspirina (do salgueiro) e morfina (da papoula), e outros medicamentos derivados de plantas. O uso de plantas como medicamentos tem uma longa história no tratamento de doenças, e as plantas têm desempenhado papel essencial na manutenção da nossa saúde. As plantas medicinais são usadas no Brasil há pelo menos 12 mil anos, mas sua institucionalização no Sistema Único de Saúde (SUS) só ocorreu no século XXI, com a criação da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos em 2006.

Mas nem tudo que vem da natureza é eficaz e, ao contrário do que muita gente pensa, os produtos naturais têm efeitos colaterais. Para muitos de nós, a palavra “químico” passou a significar tóxico ou sintético, algo a ser evitado. Mas tudo é feito de produtos químicos, nós e as plantas também. E assim nem tudo que é químico faz mal! 

Consumo de plantas medicinais  

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 80% da população global usa medicamentos à base de plantas medicinais para aliviar ou curar doenças.  Extratos de várias plantas são comumente usados ​​na medicina tradicional, sozinhos ou em combinação, mas em muitos casos apenas alguns deles são avaliados quanto à sua atividade biológica.  

O uso de plantas medicinais no Brasil é uma prática difundida, apoiada em conhecimento popular e tradicional, e integrada ao SUS através de políticas específicas. Em janeiro de 2025, o programa Farmácia Viva foi implantado em Belo Horizonte visando a produção sustentável de plantas medicinais e fitoterápicos, desde o cultivo até a distribuição, garantindo o acesso da população a medicamentos com procedência conhecida. 

Risco de produtos naturais e plantas medicinais 

Há um uso crescente de produtos naturais, incluindo plantas medicinais, fitofármacos, nutracêuticos, vitaminas e suplementos nutricionais para diferentes propósitos de saúde em todo o mundo, e apesar do uso parecer seguro, nem sempre é assim. Os riscos incluem:  

Variabilidade e Contaminação: podem apresentar níveis inconsistentes de compostos ativos devido às condições de colheita e armazenamento. Eles também podem estar contaminados com metais pesados, pesticidas ou microrganismos e/ou suas toxinas, e até microrganismos patogênicos. Uma variedade de bactérias como Salmonella, Escherichia coli, Staphylococcus aureus, Bacillus cereus e Pseudomonas aeruginosa, e fungos como Aspergillus, Penicillium e Fusarium podem degradar os compostos ativos das plantas e causar danos à saúde humana, desde efeitos leves, como náuseas, até problemas graves de saúde, como insuficiência respiratória, problemas hepáticos e renais, toxicidade reprodutiva e até a morte.

Toxicidade Intrínseca: Muitas plantas com propriedades medicinais podem ser tóxicas dependendo da dose ou da forma de uso, como a babosa, a arruda, a mamona e a espirradeira. Os efeitos adversos podem incluir problemas cardíacos, distúrbios gastrointestinais, coma e morte.  

Interações com Medicamentos: Produtos naturais podem interferir com medicamentos prescritos, potencialmente tornando os tratamentos ineficazes ou causando efeitos adversos. Por exemplo – Gengibre: aumenta o risco de sangramento quando usado com anticoagulantes e antiplaquetários (varfarina, ácido acetilsalicílico) e pode interferir com a ação de anti-hipertensivos.  Ginkgo biloba: deve ser usado com cautela em pessoas com doenças cardiovasculares. Erva-de-São-João: interfere com medicamentos que atuam no sistema nervoso central (SNC), como antidepressivos, alterando sua eficácia. Ginseng: pode interagir com a varfarina e estrogênios. Guaco: pode potencializar o risco de hemorragias quando combinado com anticoagulantes. Cava-cava: risco de toxicidade hepática e pode potencializar efeitos de drogas que atuam no sistema SNC, como álcool, barbitúricos e benzodiazepínicos. (https://cff.org.br/sistemas/geral/revista/pdf/10/infa09.pdf

Existem também preocupações em relação à segurança dos produtos naturais. Não apenas formulações compostas de ervas, mas também medicamentos fitoterápicos simples têm muitos ingredientes que podem ter efeitos tóxicos. A interação das múltiplas ervas em uma formulação e dos múltiplos compostos químicos entre elas, torna a avaliação de segurança mais difícil do que em medicamentos químicos. A identificação imprecisa das plantas medicinais usadas e seu uso em indicações clínicas erradas também é um problema.

Use, mas com indicação 

Embora o ditado popular diga que “o que é natural não faz mal”, na realidade o acompanhamento de um profissional da saúde durante o uso de plantas medicinais e fitoterápicos é essencial! A automedicação é um risco, independente se é uma planta medicinal, mesmo que seja só um chazinho, ou na forma de medicamento. 

O governo federal tem ações para garantir à população brasileira o acesso seguro e o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos, promovendo o uso sustentável da biodiversidade. Você pode acessar aqui para aprender mais sobre plantas medicinais e fitoterápicos – e existem muitas fontes oficiais de leitura que podem ajudar, como a Cartilha De Orientações Sobre O Uso De Fitoterápicos E Plantas Medicinais da Anvisa.

Antes de usar consulte um médico! 

Viviane Alves

Viviane Alves é bióloga, mestre em Ciências, com ênfase em Microbiologia pela Universidade Federal de Minas (UFMG), doutora em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É professora adjunta do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, com atuação há 15 anos na instituição. Também é divulgadora científica.

Viviane Alves

Email: [email protected]

Professora da UFMG

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