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Segurança pública sem transparência: o custo invisível das operações policiais

09/07/2026 às 16h38 - Atualizado em 09/07/2026 às 16h39
As discussões sobre segurança pública no Brasil costumam ser pautadas pela urgência dos indicadores de violência, mas raramente se debruçam sobre a gestão financeira que sustenta essas políticas.
Foto: Agência Brasil

As discussões sobre segurança pública no Brasil costumam ser pautadas pela urgência dos indicadores de violência, mas raramente se debruçam sobre a gestão financeira que sustenta essas políticas. Mesmo assim, convivemos com discursos populares que afirmam que é preciso maiores investimentos nesta seara, como podemos ver nos discursos eleitorais. Ocorre que a utilização deste debate de forma política e midiática o reduz a compra de melhores e mais armamentos e/ou viaturas mais modernas, construindo uma associação simplista em que investir em segurança pública é direcionar orçamento a equipamentos letais. Somos, portanto, expostos à imagens de grandes operações policiais, em que as corporações lançam mão de seu arsenal bélico militar como casos emblemáticos de sucesso de investimento financeiro.

É diante disso que o interesse em relação ao financiamento da segurança pública perpassa a necessidade de se compreender de forma mais aprofundada o uso do recurso, contribuindo para a transparência, publicidade e eficiência do estado brasileiro, mas, principalmente, se faz cada vez mais necessário discutir os recursos empregados para o resultado de uma política de segurança pública voltada para a morte e para a realização de chacinas, com o uso dos recursos públicos. 

Por si só, não nos parece que há justificativas suficientes para que esta conta feche com qualquer benefício para a sociedade. Perdas de vidas são sempre inestimáveis, sendo impossível colocar na ponta do lápis a dor do luto ou o futuro promissor que jamais será alcançado. Contudo, não empreendermos quaisquer esforços de mensuração financeira blinda as instituições do debate necessário sobre como é empregado o dinheiro de um setor que se consolida como um dos maiores gastos das contas públicas brasileiras, perpassando, portanto, a discussão sobre a entrega do serviço público, mas, também, sobre o uso legítimo da força, financiado pelos brasileiros, que resulta em juventude perdida e lutos compartilhados.

É sobre o desconforto com tais processos de blindagem e opacidade que esse texto surge. Através das experiências de pesquisa que tem como objetivo mensurar os cursos financeiros de duas “Operações policiais”: a chacina na baixada santista, em 2024, e a do Complexos do Alemão e da Penha, em 2025, o texto se estrutura contando um pouco sobre as operações policiais, uso de recursos financeiros e as reflexões trazidas pelas pesquisadoras..

Operações policiais e seu modus operandi: histórico de violência e morte

Se fizermos um rápido exercício de memória, buscando associar a expressão “Operação policial” à alguma imagem, certamente nos lembraremos do padrão frequentemente veiculado pela mídia: a incursão altamente bélica e ostensiva de dezenas de policiais a territórios periféricos. O objetivo sempre é o mesmo: combater o tráfico de drogas através da prisão de líderes de organizações criminosas. Para isso, as corporações afirmam realizar um planejamento operacional e investigativo minucioso, para identificar quem deve ser buscado e se preparar para a possibilidade iminente de confronto.

Fato é que essa possibilidade é a justificativa ideal para que as corporações envolvidas na ação entrem, de antemão, de forma violenta nos territórios, sem a necessidade de quaisquer indícios iniciais de que o confronto irá acontecer. Ou seja, aquilo que se apresenta como possibilidade é transformado em motivação. O problema deste cenário não se encerra em si mesmo. Na verdade, é justamente tendo em vista este padrão de atuação que as chamadas “Operações policiais” se traduzem em verdadeiras chacinas.

 Se, por um lado, as operações podem ser consideradas ações performáticas do poder de polícia, o seu êxito é divulgado pela mídia pelo número de “grandes traficantes” que tiveram os seus “cpfs cancelados”, em alusão à própria morte. Cabe destacar que no Brasil a pena de morte é prevista apenas em casos de crimes militares, em guerra declarada. Isso significa dizer que em qualquer atividade policial, a morte de um indivíduo não pode, jamais, ser considerada uma operação bem sucedida.

Esse contexto se torna ainda mais preocupante quando os responsáveis pelas ditas “Operações policiais” afirmam publicamente que são ações planejadas por um longo período de tempo. O problema reside, portanto, nos resultados que esse planejamento alcança. Diante dos números alarmantes de mortes, parece que estamos diante de uma estruturação em que a prisão, justificativa oficial para a existência destas ações, ou até mesmo as operações de inteligência, são os últimos recurso a ser utilizado, empregado quando a morte – solução primeira – não foi alcançada. Esse é o caso da “Operação Escudo” e “Operação Contenção”, as mais recentes em nosso país. A primeira realizada na Baixada Santista, tendo se estendido à “Operação Verão” gerou  84 mortes, 28 em sua primeira fase em 2023 e 56  já em 2024, sendo a segunda mais letal realizada no território paulista, atrás apenas da Operação no Carandiru, que resultou em 111 mortes. Já no Rio de Janeiro, nos Complexos da Penha e do Alemão, a “Operação Contenção” resultou em 122 mortes, sendo considerada a chacina mais letal da história do país. Além das mortes, o que ambas têm em comum? Nenhuma delas gerou qualquer enfraquecimento às redes de tráfico de drogas e sequer trouxe mais segurança à população, concretizando, portanto, um projeto de país que assemelha o sucesso operacional à matança. A falta do uso progressivo da força é a regra, em que a morte é a primeira estratégia adotada pelas instituições policiais.

Os dados disponibilizados pelos sites de transparência

Os dois casos parecem nos mostrar que o dinheiro investido nas chamadas “Operações Policiais” não possui o retorno esperado, seja pelas justificativas oficiais de “prender grandes traficantes” ou por aquela, socialmente aceita e bastante almejada, de garantir a segurança pública da população. Entretanto, ainda assim, permanecemos lançando mão desta estratégia. Essa relação, por si só, já nos traz reflexões importantes. Mas, e quando sequer temos acesso à quanto, realmente, estamos investindo em ações que não se sustentam em seus objetivos? O cenário é de uma precarização informacional que dificulta a compreensão dos custos reais da criminalidade e da efetividade dos investimentos estatais.  Diferente de áreas como a saúde e a educação, a segurança pública não conta com o mesmo rigor de transparência e padronização em seus fluxos de dados

Os sites que disponibilizam informações sobre os custos direcionados à segurança pública apresentam pouca padronização dos valores empenhados ou liquidados, e, obviamente, os apresenta de forma agregada, sem discriminar os custos por ação empreendida. Assim,  por exemplo, é impossível saber quanto as corporações investiram em recursos materiais e humanos para executar uma “Operação Policial”, que ocorre durante um período curto, e, simultaneamente, a atividades cotidianas realizadas pelas corporações policiais. Essa é, ao menos, a linha de frente das chacinas, o ponto inicial dos custos aos cofres públicos. Isso porque, vale lembrar, os seus resultados ecoam por todo o fluxo do Sistema de Justiça Criminal. Tanto as apreensões quanto às mortes chegam também ao Ministério Público, Defensoria Pública, Tribunal de Justiça, e, por fim, aqueles condenados são enviados ao Sistema Prisional.

O nível excedente de trabalho que tais “Operações” demandam parecem passar despercebido das instituições que são instadas nesse processo. Para se ter ideia desse volume, apenas em sua primeira fase, a “Operação Escudo” apreendeu 958 pessoas. Diante da apreensão, todas elas precisam ser processadas e julgadas. Esse número infla, consideravelmente, o fluxo de trabalho, em que todos precisam lidar com valores desproporcionais em comparação ao seu dia a dia.

Todos esses valores são sub-representados, muitas vezes, sequer, considerados como custos aos cofres públicos. Esses valores “indizíveis”, ou melhor, não calculados, são lembrados por Cerqueira (2017), de modo que , ele, “existem custos econômicos intangíveis, sobre os quais não há uma despesa específica, mas que contribuem para diminuir a qualidade de vida e o bem-estar da população” (CERQUEIRA, 2017, p. 76). Alguns  exemplos disso são aqueles resultantes do impacto dos homicídios sobre a renda e produtividade social, diante da ausência de parte da população, retração do turismo, aumento dos custos logísticos, necessidade de seguros e segurança privada, além da perda de investimentos. São justamente esses “custos invisíveis” que inflam a fatura da violência para muito além dos números oficiais, que já são mal mensurados. 

Para se ter uma ideia dessa realidade, o estudo de Cerqueira estimou que, em 2016, os “custos da violência” no Brasil chegou a 5,9% do PIB, somando tanto despesas públicas quanto privadas e perdas sociais. Ou seja, mesmo que os balanços governamentais registrem cerca de R$81 bilhões em gastos diretos, o impacto real ultrapassa R$370 bilhões anuais. Essa mesma diferença pode ser observada diante dos custos liquidados pelo estado de São Paulo no ano de 2023. Na parte da transparência, o valor anual que informam com os gastos de “Operações Policiais” é de R$ 3.378.227,15. Contudo, através de uma estimativa dos dados disponibilizados, contabilizando gastos com armamentos e viaturas, salários, indenizações e vencimentos, deslocamento de servidores e estrutura de transferência da secretaria de segurança (visto que durante todo o período que a “Operação Escudo” ocorreu, ela foi realocada em Santos), o valor chega a R$ 25.357.561,03. Isso sem considerar os custos sociais e institucionais.

Essa lacuna na disponibilidade de dados brutos faz com que o pesquisador brasileiro realize um exercício constante de aproximação. Na ausência de uma base de dados padronizada, desagregada e transparente, a análise acadêmica é forçada a pensar em estimativas metodológicas que, embora com rigos de análises econômicas e embasadas em evidências científicas, carregam a falha da imprecisão intrínseca. Esse processo de estimativa é a alternativa encontrada devido à deficiência de um sistema que não padroniza suas saídas de informação.

Trabalhar com aproximações em segurança pública é trabalhar, também, com a margem de erro de uma injustiça econômica, considerando que o uso de recursos públicos em operações sem clareza de custos concretos compromete a transparência e a eficiência da gestão estatal. Além de apresentar uma iniquidade humana, na medida em que vidas perdidas em chacinas são reduzidas a estatísticas imprecisas, invisibilizando o valor social e ético de cada existência.. Quando não temos o dado exato, a análise carrega o ônus da imprecisão e esse “tatear no escuro” onde o valor aproximado substitui a evidência exata é extremamente grave uma vez que um diagnóstico impreciso gera uma política pública falha. 

Surge, então, uma indagação incontornável: se o Estado não é capaz de mensurar quanto custa, em termos nominais e logísticos, com precisão, uma operação policial, como ele pode atestar a sua validade frente aos resultados obtidos? A falta dessa métrica impede que a sociedade e os próprios órgãos de controle discernem se uma operação foi um investimento planejado em segurança pública ou se formou apenas um gasto irracional de recursos voltado para o extermínio.

Sem a transparência do custo operacional, a letalidade da polícia deixa de ser avaliada sob o prisma de falha de política pública para ser aceita como um subproduto inevitável de ações cujos objetivos são obscuros. O planejamento estratégico e financeiro deveria servir como um freio para a letalidade, ao exigir que cada operação tenha um custo provisionado e um resultado esperado, para se criar uma camada de responsabilidade administrativa. Contudo, o que se observa é uma gestão do silêncio, onde a falta de prestação de contas sobre o custo de munições, horas extras, mobilização de carros e aeronaves esconde a ausência de inteligência. 

Essa precarização do dado financeiro permite que operações de alto custo e altíssima letalidade sejam vendidas como “sucessos” políticos, mesmo quando o resultado prático para a redução do crime é nulo ou negativo e, quando a transparência é negada e os valores são aproximados por pesquisadores externos por pura falta de opção, o que se mostra é um estado que abdica da racionalidade para governar com violência. Se não sabemos o preço de uma “operação”, não temos como saber se ela serviu ao cidadão ou se foi apenas um objetivo institucionalizado para a matança, financiado com recursos públicos que, por direito, deveriam ser transparentes e auditáveis.

Essa  ausência de planejamento estratégico e financeiro torna impossível incorporar esses custos intangíveis na formulação de políticas públicas, já que, sem reconhecer o peso da violência sobre a economia e a vida social, seguimos investindo de forma fragmentada e reativa, sem medir o verdadeiro preço da insegurança.

Somente quando pudermos substituir as aproximações pela exatidão do dado e o sigilo pela responsabilidade fiscal, publicidade e transparência, a segurança pública brasileira deixará de ser uma sucessão de reações esporádicas para se tornar uma política de Estado guiada pela preservação da vida. Enquanto o Estado se recusa a abrir suas contas, a sociedade continuará a pagar um preço alto demais por uma segurança que permanece tão opaca quanto ineficiente. O custo real da violência é imensurável, mas o custo da gestão não pode continuar sendo mantido no escuro.

Pablo Nogueira

Pablo Nogueira é jornalista, formado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), com mestrado em Comunicação pela UFMG. Tem passagens pela Rádio Itatiaia, Rádio BandNews, Rede Minas, TV Alterosa, governo do estado, Agência Minas e Centro de Comunicação da Universidade Federal de Minas. Venceu os prêmios de jornalismo CDL, em 2024, MOL, em 2023, e Amagis, em 2022, além de ter sido finalista dos prêmios ABMES, em 2023, CDL, em 2022 e 2023, e C6 Bank, em 2022. É editor do BHAZ.
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Isabela Araújo

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Maria Vallentina Cardoso

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estudante de Gestão Pública da UFMG

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