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Colunas

Entre quintais, hortas e sonhos: a revolução da professora Flávia

15/10/2025 às 17h41
Professora Flávia
Professora Flávia e seus alunos. Crédito: Arquivo Pessoal

Flávia Mendanha foi aquela típica menina mineira nascida e criada numa cidade do interior, que frequentou casas com grandes quintais cheios de árvores frutíferas, hortas e, quase sempre, um galinheiro. Era assim na casa dela, dos avós e dos tios, em Itabirito, cidade com pouco mais de 50 mil habitantes, a 130 quilômetros de Belo Horizonte. Na família, as aves eram criadas como animais de estimação: tinham até nomes, não eram servidas nas refeições, mas serviam às famílias com seus ovos.

Isso explica por que, em seu primeiro emprego como professora de uma escola municipal da cidade, ela olhou para o “quintalzão” vazio e, sem pensar, soltou a máxima para a diretora: ‘Por que a gente não constrói um galinheiro aqui’? Fátima Consuleide, a diretora, não só achou a ideia ótima como completou: ‘Vamos colocar umas cabras também! Assim os alunos já aprendem a tirar o leite’!

Flávia ficou muda e, por alguns segundos, suspeitou que a chefe estivesse ironizando a sua proposta. Só que Fátima falava sério e contou que o maior obstáculo para o projeto seria a falta de dinheiro para construir o galinheiro e comprar as aves e as cabras.

Desafio para quem? Com o aval da diretora, Flávia colocou as ideias no papel e foi bater à porta de uma siderúrgica vizinha à escola. Chegou à empresa sem agendamento prévio e pediu para falar com o responsável. A secretária estranhou, quis saber o assunto, e ela respondeu que tinha um projeto para apresentar. Não é que o gerente atendeu a professora e gostou da proposta? Só colocou uma condição: ela deveria incluir os funcionários da siderúrgica no projeto.

Naquele mesmo ano, 2005, a Escola Municipal Laura Queiroz inaugurou o galinheiro, o espaço para duas cabras e também uma horta comunitária. A siderúrgica enviou maquinário para arar e adubar o terreno, e seus funcionários assumiram o plantio e os cuidados com as verduras. A colheita era dividida entre eles, a escola e as famílias dos alunos.

Nos 16 anos seguintes em que trabalhou na escola, Flávia tornou-se uma verdadeira fábrica de projetos ambientais, todos financiados por grandes empresas como Coca-Cola e Gerdau. O “quintalzão” da escola foi todo ocupado: ganhou um sistema de coleta de água das chuvas usada para regar a horta, lavar o pátio e limpar os banheiros, um lago com peixes ligado a um jardim autossustentável, um quiosque para atividades ambientais e um apiário com abelhas sem ferrão.

Ela também destinou parte do terreno ao plantio de milho. A colheita era tão farta que a professora propôs uma festa anual com as iguarias do cereal: pamonha, broa, bolo, doces, tudo feito com o milho, o que trazia renda extra à escola. “Além de que esses dias eram de muita alegria e integração”, recorda-se a professora.

“Criamos também um sistema de coleta de lixo orgânico entre os vizinhos. Com verba de outro edital, compramos cinco bicicletas equipadas com cestos, e os próprios alunos faziam essa coleta. Foi um sucesso!”, conta, com os olhos brilhando, como sempre.

Nessa década e meia, mais do que criar e implantar projetos naquela escola, Flávia entendeu que é no quintal da gente que o planeta é salvo. Então, decidiu mudar para uma escola com alunos do Ensino Médio. “Eu queria trabalhar também com os alunos maiores, os adolescentes”, explica.

Na nova escola, em 2023, a professora encontrou, de novo, um quintal sem nada. Mas Flávia é aquele tipo de pessoa que vê uma garrafa vazia como uma oportunidade de enchê-la com coisas boas. Ela estudou um projeto da Embrapa e implantou um sistema com piscicultura, horta hidropônica, canteiro de minhocas para produção de húmus, um apiário com abelhas sem ferrão e… adivinhem? Outro galinheiro! Além disso, montou um centro de educação ambiental, onde os estudantes são treinados para cuidar de tudo.

E, sem que ela percebesse, outras escolas públicas e privadas da cidade passaram a se inspirar nos modelos da professora Flávia Mendanha. “Eu fico muito feliz e empolgada com isso”, comemora e, ao mesmo tempo, compartilha sua experiência e conhecimento com essas instituições.

Sempre de olho no futuro, ela avança com um projeto de irrigação automatizada e de alimentação automática dos peixes, pelo menos nos fins de semana e feriados, quando os alunos não estão na escola. “Estamos fazendo parcerias com as aulas de robótica”, conta.

Flávia Mendanha sempre sonhou em ser professora, mas também tinha bem estabelecido que o melhor ensino não se dá somente dentro da sala de aula. Hoje, além disso, tem a certeza de que um bom cidadão se forma também aprendendo biologia e desenvolvendo sua consciência ambiental. “Esse estudante aprende a respeitar o planeta, as pessoas, as vidas; desenvolve senso crítico e de cuidado para com o mundo”, encerra com um sorrisão no rosto.

Embora Itabirito seja aqui do ladinho de Belo Horizonte, eu não fazia ideia de que tudo isso acontecia nos quintais das escolas públicas da cidade. No dia 3 de outubro, durante o TEDxBeloHorizonte, ouvi, encantada, as histórias dessa professora e seu amor pelo ensino, pelos bichos e pelo planeta. Quando propus esta entrevista, Flávia adorou a ideia, mas parecia duvidar do quanto é grande o que está fazendo.

Eu não duvido! Por isso, recomendo: sigam essa mulher em @flavia_mendanha

Nalu Saad

Nalu Saad tem 38 anos de jornalismo e já atuou em impresso, internet, rádio e TV. É speaker TEDx como ativista pela saúde mental das crianças e adolescentes, jornalista amiga da Criança pela ANDI Comunicação e Direitos da Criança e integra a Rede Jornalistas pela Primeira Infância, da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. É escritora com cinco livros publicados, quatro infantis.

Nalu Saad

Jornalista

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