Foi no meio da sala com brinquedos espalhados, bem no início da maternidade, na sua primeira vivência como mãe (e de gêmeos), e, tudo isso, entremeado com as pesquisas, que a psicóloga paulista Camila Canguçu descobriu o propósito de sua vida: ensinar famílias e profissionais a entenderem o autismo para viverem melhor com ele.
Doutora em Psicologia pela universidade americana Medaille College, mestre pela Universidade São Francisco e graduada pela PUC de Campinas, Camila é hoje professora convidada e supervisora do Programa de Atenção ao Transtorno do Espectro do Autismo (PRATEA), da Faculdade de Medicina da Unicamp. Referência nacional em saúde mental e Análise do Comportamento Aplicada (ABA), ela atua na formação de profissionais e na ampliação do acesso ao diagnóstico e ao tratamento especializado para pessoas com TEA, sempre com o olhar de quem também é mãe de um menino autista.
Antes de chegar a esse posto, percorreu um caminho difícil. Mudou-se para os Estados Unidos em 2005 para acompanhar o marido, trabalhou na Universidade de Buffalo em projetos sobre desenvolvimento infantil e transtornos relacionados a substâncias, e, em 2009, foi mãe de gêmeos. Um deles, mais tarde, seria diagnosticado com autismo. Foi o ponto de virada. Entre a maternidade e o doutorado, entre a teoria e o amor, Camila descobriu o que hoje ensina a centenas de famílias: o diagnóstico não é uma sentença, é um mapa.
“Com estímulo correto, a criança pode diminuir o nível de apoio que precisa. O foco não é mudar quem ela é, mas melhorar sua qualidade de vida e ampliar sua autonomia”, ela explica. Para Camila, autonomia também é inclusão. Sua trajetória acadêmica e pessoal se entrelaça com a mesma delicadeza com que ela acolhe as mães que chegam em busca de orientação. E talvez por isso o trabalho dela tenha o impacto que tem: porque parte do afeto, mas se sustenta na ciência.
Em 2018, já de volta ao Brasil, Camila começou a atuar na Unicamp e a supervisionar o PRATEA, um programa que une ensino, pesquisa e atendimento, com foco em diagnóstico precoce e capacitação de profissionais. Ali, famílias de baixa renda aprendem a estimular seus filhos autistas em casa, com atividades simples e acessíveis. “A gente mede o que a criança já faz e o que está abaixo da faixa etária, e então ensinamos a mãe a trabalhar aquelas habilidades específicas, como coordenação motora, apontar, reconhecer emoções”, explica.
Esses gestos, aparentemente pequenos, são pré-requisitos da fala e da comunicação. Enquanto outras políticas esperam a criança chegar ao consultório, o PRATEA capacita quem está com ela o tempo todo. O resultado é poderoso: mães que antes se sentiam perdidas passam a se reconhecer como parte ativa do tratamento. “Não é caridade, é capacitação. É devolver às famílias o direito de participar do desenvolvimento dos filhos”, diz Camila.
A psicóloga conhece de perto a realidade do SUS. Fala com emoção das mães que saem de madrugada com seu filhos enrolados em cobertores para garantirem o atendimento para a criança, das que pegam dois ônibus para chegar a uma sessão e das que, mesmo exaustas, aprendem a brincar de um jeito novo, mais conectado. “Trabalhar no sistema público é abrir os olhos para o mundo real”, afirma. E talvez aí esteja o verdadeiro sentido do impacto social: entregar ferramentas essenciais a quem mais precisa.
Camila também orienta famílias e educadores sobre como lidar com as crises dos autistas, ainda cercadas de preconceito e desinformação. “A crise nunca vem do nada. Ela é o resultado de um acúmulo de estímulos, de ansiedade, de falta de compreensão do que está acontecendo ao redor”, explica. A regra, segundo ela, é aprender a ler os sinais que a criança dá muito antes da crise.
Não são sinais padrões, ao contrário, são únicos, mas podem ser aprendidos. “Tem criança que balança o corpo, se afasta, tampa os ouvidos. O problema é que quase ninguém aprendeu a ler esses sinais”, destaca.
A especialista defende que professores e cuidadores sejam capacitados para identificar gatilhos e agir antes do colapso. “A contenção não é a linha de frente, mas a prevenção sim. Um ambiente previsível, com pistas visuais e rotina estruturada, é a chave para reduzir crises.”
Ela também tem sido uma voz ativa na capacitação das escolas, defendendo a presença de mediadores e o treinamento dos professores para acolher alunos autistas com empatia e técnica. “As professoras querem aprender, pedem capacitação. Elas estão sobrecarregadas, com 30 alunos, entre eles três ou quatro com autismo. O que falta é estrutura, não vontade.”
É nessa combinação de ciência, prática e humanidade que Camila constrói sua atuação. Para ela, compreender o comportamento é compreender o contexto. “O grito de uma criança tem um porquê. A família e a escola precisam de apoio para entender o que desencadeia cada comportamento e desenvolver estratégias para lidar com cada situação.”
“Nem tudo é negativo”, ela diz. “As mães que vivem o autismo são resilientes. Elas não desistem. O que a gente faz é mostrar que há caminhos e que é possível, sim, encontrar alegria e pertencimento.”
Camila faz ciência, mas também faz humanidade. E talvez o que ela nos ensine, no fim, é que fazer o bem não é dar: é devolver. Devolver o direito de compreender, de escolher, de viver com dignidade. Por isso, recomendamos fortemente que você siga essa mulher e possa tanto aprender quanto compartilhar esse conhecimento.
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