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Colunas

Entre a maternidade e a ciência, ela transformou o autismo em propósito

30/10/2025 às 18h59 - Atualizado em 30/10/2025 às 20h34
Foto: Arquivo Pessoal

Foi no meio da sala com brinquedos espalhados, bem no início da maternidade, na sua primeira vivência como mãe (e de gêmeos), e, tudo isso, entremeado com as pesquisas, que a psicóloga paulista Camila Canguçu descobriu o propósito de sua vida: ensinar famílias e profissionais a entenderem o autismo para viverem melhor com ele.

Doutora em Psicologia pela universidade americana Medaille College, mestre pela Universidade São Francisco e graduada pela PUC de Campinas, Camila é hoje professora convidada e supervisora do Programa de Atenção ao Transtorno do Espectro do Autismo (PRATEA), da Faculdade de Medicina da Unicamp. Referência nacional em saúde mental e Análise do Comportamento Aplicada (ABA), ela atua na formação de profissionais e na ampliação do acesso ao diagnóstico e ao tratamento especializado para pessoas com TEA, sempre com o olhar de quem também é mãe de um menino autista.

Antes de chegar a esse posto, percorreu um caminho difícil. Mudou-se para os Estados Unidos em 2005 para acompanhar o marido, trabalhou na Universidade de Buffalo em projetos sobre desenvolvimento infantil e transtornos relacionados a substâncias, e, em 2009, foi mãe de gêmeos. Um deles, mais tarde, seria diagnosticado com autismo. Foi o ponto de virada. Entre a maternidade e o doutorado, entre a teoria e o amor, Camila descobriu o que hoje ensina a centenas de famílias: o diagnóstico não é uma sentença, é um mapa.

“Com estímulo correto, a criança pode diminuir o nível de apoio que precisa. O foco não é mudar quem ela é, mas melhorar sua qualidade de vida e ampliar sua autonomia”, ela explica. Para Camila, autonomia também é inclusão. Sua trajetória acadêmica e pessoal se entrelaça com a mesma delicadeza com que ela acolhe as mães que chegam em busca de orientação. E talvez por isso o trabalho dela tenha o impacto que tem: porque parte do afeto, mas se sustenta na ciência.

Em 2018, já de volta ao Brasil, Camila começou a atuar na Unicamp e a supervisionar o PRATEA, um programa que une ensino, pesquisa e atendimento, com foco em diagnóstico precoce e capacitação de profissionais. Ali, famílias de baixa renda aprendem a estimular seus filhos autistas em casa, com atividades simples e acessíveis. “A gente mede o que a criança já faz e o que está abaixo da faixa etária, e então ensinamos a mãe a trabalhar aquelas habilidades específicas, como coordenação motora, apontar, reconhecer emoções”, explica.

Esses gestos, aparentemente pequenos, são pré-requisitos da fala e da comunicação. Enquanto outras políticas esperam a criança chegar ao consultório, o PRATEA capacita quem está com ela o tempo todo. O resultado é poderoso: mães que antes se sentiam perdidas passam a se reconhecer como parte ativa do tratamento. “Não é caridade, é capacitação. É devolver às famílias o direito de participar do desenvolvimento dos filhos”, diz Camila.

A psicóloga conhece de perto a realidade do SUS. Fala com emoção das mães que saem de madrugada com seu filhos enrolados em cobertores para garantirem o atendimento para a criança, das que pegam dois ônibus para chegar a uma sessão e das que, mesmo exaustas, aprendem a brincar de um jeito novo, mais conectado. “Trabalhar no sistema público é abrir os olhos para o mundo real”, afirma. E talvez aí esteja o verdadeiro sentido do impacto social: entregar ferramentas essenciais a quem mais precisa.

Camila também orienta famílias e educadores sobre como lidar com as crises dos autistas, ainda cercadas de preconceito e desinformação. “A crise nunca vem do nada. Ela é o resultado de um acúmulo de estímulos, de ansiedade, de falta de compreensão do que está acontecendo ao redor”, explica. A regra, segundo ela, é aprender a ler os sinais que a criança dá muito antes da crise. 

Não são sinais padrões, ao contrário, são únicos, mas podem ser aprendidos. “Tem criança que balança o corpo, se afasta, tampa os ouvidos. O problema é que quase ninguém aprendeu a ler esses sinais”, destaca.

A especialista defende que professores e cuidadores sejam capacitados para identificar gatilhos e agir antes do colapso. “A contenção não é a linha de frente, mas a prevenção sim. Um ambiente previsível, com pistas visuais e rotina estruturada, é a chave para reduzir crises.”

Ela também tem sido uma voz ativa na capacitação das escolas, defendendo a presença de mediadores e o treinamento dos professores para acolher alunos autistas com empatia e técnica. “As professoras querem aprender, pedem capacitação. Elas estão sobrecarregadas, com 30 alunos, entre eles três ou quatro com autismo. O que falta é estrutura, não vontade.” 

É nessa combinação de ciência, prática e humanidade que Camila constrói sua atuação. Para ela, compreender o comportamento é compreender o contexto. “O grito de uma criança tem um porquê. A família e a escola precisam de apoio para entender o que desencadeia cada comportamento e desenvolver estratégias para lidar com cada situação.”

“Nem tudo é negativo”, ela diz. “As mães que vivem o autismo são resilientes. Elas não desistem. O que a gente faz é mostrar que há caminhos e que é possível, sim, encontrar alegria e pertencimento.”

Camila faz ciência, mas também faz humanidade. E talvez o que ela nos ensine, no fim, é que fazer o bem não é dar: é devolver. Devolver o direito de compreender, de escolher, de viver com dignidade. Por isso, recomendamos fortemente que você siga essa mulher e possa tanto aprender quanto compartilhar esse conhecimento.

Siga essa mulher: @cacangucu

Nalu Saad

Nalu Saad tem 38 anos de jornalismo e já atuou em impresso, internet, rádio e TV. É speaker TEDx como ativista pela saúde mental das crianças e adolescentes, jornalista amiga da Criança pela ANDI Comunicação e Direitos da Criança e integra a Rede Jornalistas pela Primeira Infância, da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. É escritora com cinco livros publicados, quatro infantis.

Nalu Saad

Jornalista

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