Aos 71 anos, Edwiges Lemp carrega um nome que quase ninguém usa. Em casa, desde criança, sempre foi Hedy. O nome de batismo, herdado de uma tia, só apareceu de verdade na primeira chamada escolar, e mesmo assim, ela diz, levou anos para se acostumar com ele. Tem uma ironia bonita nisso: uma mulher que passou a vida toda sendo chamada de um jeito diferente do que está no papel hoje dedica boa parte do seu tempo a lutar pelo direito de outras pessoas a serem chamadas pelo nome que de fato as representa. Como se é chamado é só uma das muitas violências que enfrentam as pessoas transexuais no Brasil. E Hedy é só uma das mães no front dessa guerra.
Administradora, consultora em gestão pública, professora universitária aposentada e, segundo a própria descrição, militante desde 1974 (quando entrou para o movimento estudantil ainda na faculdade, em plena ditadura). Mas é outro capítulo da sua história que a levou para outra militância.
Em 2015, sua filha, então com 18 anos e 9 meses, voltava de um bloco de carnaval e disse: “Mãe, eu não me identifico com o corpo que eu nasci.” Começava ali, para as duas, um processo que Hedy resume com uma frase precisa: “A transição não acontece só para o filho, mas com a família também.”
Hoje, Sofia tem 30 anos e está com a vida resolvida, mas Hedy não largou a luta, por outras mães, que continuam segundo a mãe. Desde 2019, ela é uma das coordenadoras do Mães pela Liberdade, coletivo mineiro de apoio a famílias de pessoas LGBTQIAPN+, com núcleos principais em Belo Horizonte e Juiz de Fora e cerca de 120 associadas.
O movimento nasceu de uma cisão. Antes, várias dessas mães integravam o grupo Transborda Amor, vinculado a uma ONG paulista de atuação nacional que se definia como “apolítica”, uma postura que, segundo Hedy, já era insustentável em 2020, no auge da escalada de ataques à comunidade LGBT no Brasil. Quando essa ONG aceitou uma parceria comercial considerada incompatível com a causa, um grupo de mães mineiras decidiu romper e fundar um coletivo próprio, com estatuto, CNPJ e diretoria democraticamente eleita. Assim nasceu o Mães pela Liberdade, formalizado em setembro de 2020.
A estrutura do coletivo se organiza em quatro eixos de atuação que dizem muito sobre como Hedy e as outras mães entendem o próprio trabalho:
- Acolhimento — a porta de entrada, onde famílias recém-chegadas encontram outras mães que já passaram pela mesma angústia.
- Formação — rodas de conversa e lives para entender uma realidade que, mesmo para quem já convive de perto com ela, continua em constante atualização. “Tem hora que eu tenho que parar e pensar”, admite Edy sobre termos como não binário ou pansexual. “Você está sempre aprendendo.”
- Políticas públicas e direitos humanos — eixo que ela própria coordena, levando a voz das famílias a audiências públicas, ao Ministério Público e a debates sobre empregabilidade trans em federações como FIEMG e Fecomércio.
- Social — presença em blocos de carnaval alternativos, na Parada do Orgulho e em homenagens na Câmara Municipal, ocupando espaços que, segundo ela, setores conservadores tentam sistematicamente esvaziar.
A expressão que Hedy usa para descrever o papel das famílias é direta: a família também precisa sair do armário. Não basta tolerar, é preciso reconhecer, em voz alta e sem ressalvas, quem o filho ou a filha é. E ela sabe o quão alto isso pode custar. Desde 2019, já testemunhou casais que se separam porque um dos pais não aceita, filhos expulsos de casa, avós que levam anos para deixar de usar o nome morto.
Hedy também nomeia, sem rodeios, uma hierarquia de violência que atravessa o movimento: pessoas trans enfrentam mais barreiras que pessoas gays ou lésbicas, porque a identidade de gênero é visível no corpo e não pode ser “guardada” como às vezes se guarda uma orientação sexual. Dentro disso, mulheres trans sofrem mais que homens trans, e mulheres trans negras, mais que todas as outras, por estarem mais expostas à exclusão escolar, à informalidade e à situação de rua.
Fiel à própria trajetória, que começou nos movimentos estudantis dos anos 1970 e passou pelo sindicalismo e pela militância indígena, Hedy resiste à ideia de que a causa LGBT tenha lado. “Essa questão não é de esquerda ou de direita. Infelizmente, isso transpassa”, resume.
É talvez essa recusa em facilitar o problema, em transformá-lo em bandeira de um lado só, que torna o trabalho de Hedy e das outras mães do coletivo tão necessário. Elas não estão ali defendendo uma tese abstrata. Estão ali porque um dia uma filha voltou do carnaval e disse a verdade, e a partir dali a única escolha possível foi aprender, reaprender e, sem cessar, acolher.
Por isso, eu recomendo fortemente que você siga essa mulher e, além de aprender mais sobre a diversidade humana, se torne também um defensor dela.










