Todo Outubro Rosa, a cena se repete: mulheres usando lenços na cabeça para alertar e conscientizar sobre a importância de se fazer exames para rastreio do câncer de mama. Mas o lenço contradiz a mensagem essencial: o ideal é que o diagnóstico seja tão precoce que permita um tratamento mais simples, de preferência sem quimioterapia, que causa a queda dos cabelos. Justo para que as mulheres descubram a doença em fase ainda mais inicial é que a médica radiologista mineira, Ivie Braga, tem se mobilizado.
Acredito que a maioria das pessoas, especialmente as mulheres, não se atenta para o papel do radiologista no caso do câncer de mama, mas sua visão vai mudar depois de ler a história da Ivie.
No final do ano passado, meu celular apitou anunciando nova mensagem. Era a Ivie me alertando sobre a consulta pública 144, da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A médica era categórica: a sociedade brasileira e, principalmente as mulheres, tinham que se unir contra uma, digamos, “pegadinha” naquela consulta.
A ANS pedia contribuições para criar um Manual de Boas Práticas em Atenção Oncológica. O problema é que um dos critérios sugeria obrigar a mamografia apenas a cada dois anos em mulheres de 50 a 69 anos, quando a OMS e o próprio Ministério da Saúde já recomendam o exame a partir dos 40.
A mobilização de Ivie com imprensa, mastologistas e influenciadores espalhou-se rápido e a Consulta Pública 144 recebeu mais de 63 mil manifestações contrárias. Normalmente, os cidadãos dão pouca atenção às consultas e a participação máxima gira em torno de 400 pessoas. “Foi uma grande vitória das brasileiras”, celebra a médica e cientista mineira.
Esse foi só um exemplo de como Ivie foge do perfil de radiologista dentro de uma sala escura analisando imagens e assinando laudos. Ela não para na busca e estudo de protocolos que promovam o diagnóstico o mais precoce possível, na disseminação desses conhecimentos e na luta por mais qualidade dos exames de imagens nas redes públicas e privadas.
Nessa batalha, seu nome e sua atuação se divide em várias frentes. Ivie é coordenadora da Comissão Nacional de Mamografia, membro da Comissão Científica de Mama, vice-diretora e membro da Comissão Científica da Sociedade Brasileira de Radiologia de Minas e co-fundadora da WEEM (Women Engagement for Equity in Medicine), engajamento feminino pela equidade na medicina.
A WEEM nasceu da união de médicas de várias especialidades para ampliar a ocupação das mulheres em postos de lideranças na mastologia e na oncologia. Torna-se essencial citar todas, para que ganhem força em seus estados. Estão listadas no final dessa coluna com seus respectivos perfis nas redes sociais.
Elas decidiram se unir depois de perceberem que discussões cruciais – o impacto econômico do tratamento, a dor de esperar meses por exame no SUS, a necessidade de navegação ativa dos casos – ficavam fora do palco.
Aumentar a representatividade das mulheres nessas áreas, segundo as fundadoras da WEEM, permitirá trazer a realidade das médicas e pacientes em consultórios para as mesas de debates, seja em congressos ou em debates e decisões que vão impactar no futuro das mulheres brasileiras, como a Consulta Pública 144, da ANS, que quase passou despercebida com um resultado trágico para todas.
Agir, para Ivie e essas mulheres da WEEM, é verbo no plural. A rede delas se reúne a cada dois meses, capacita mulheres em oratória, convida lideranças internacionais e, sobretudo, abre a roda para as pacientes. Em um dos encontros, uma mulher ribeirinha do Amazonas sentou ao lado de uma influenciadora paulistana. Sem pedestais, sem filtros: onde a fila emperra? quem marca a biópsia? Como o trabalho e a renda ficam depois do tratamento? Dessa escuta, elas tiram rumo, e resultados.
Resultado também é tijolo, chave e porta aberta. Ivie idealizou e estruturou o primeiro breast center de Belo Horizonte, iniciando uma mudança concreta de modelo: serviço integrado, gente qualificada, protocolo claro, cuidado que anda. Depois, deu outro passo ousado: criou o segundo breast center da cidade, no Hospital Orizonti, o Casa Dellas, onde ainda atua, elevando o padrão de acesso, qualidade e integração do cuidado. Não é só arquitetura de serviço; é arquitetura de futuro.
No Orizonti ganhou apoio para introduzir no Brasil os protocolos de ressonância mamária ultrarrápida, protocolo desenvolvido por um grupo de cientistas holandeses e que ela adaptou e difundiu por aqui. Enquanto experimentava o exame no Casa Dellas, estudou e catalogou os resultados em quase 30 mulheres. Comprovou que o exame é capaz de identificar alterações precoces que não seriam vistas com os métodos tradicionais. Tão iniciais que possibilitam tratamentos menos agressivos, como cirurgia e, em alguns casos, apenas radioterapia.
De Minas para o mundo, a pesquisa de Ivie está entre os seis trabalhos mais relevantes do mundo a serem mostrados no maior congresso de radiologia do planeta, em novembro. “Essa conquista não é só minha, mas do Brasil todo”, empolga-se.
Ivie olha para a radiologia como um dos pontos de partida para a maior proteção das mulheres. Por isso, alerta as pacientes para que fiquem atentas às certificações dos laboratórios que realizam os exames. “A maioria das mulheres não observa e a maioria dos serviços não têm a certificação, que avalia se há técnicas bem treinadas e laudos consistentes”, explica.
Em outras frentes, a médica mineira batalha por agilização nos exames pelo SUS. “No caso do rastreio ou diagnóstico do câncer de mama, uma mulher não pode esperar semanas, meses e anos, como acontece”, salienta a médica, lembrando que, em poucos dias, a mulher deve conseguir fazer mamografia, ultrassom, biópsia e acessar os resultados. “Cada semana perdida empurra tumores iniciais, tratáveis com cirurgia simples, para terapias longas e duras.” É por isso que ela defende navegação ativa: alguém que liga, marca, acompanha, não deixa o exame virar papel esquecido.
A disputa em torno de diretrizes é, no fundo, um espelho do país. Podemos manter duas realidades _ quase 40% de diagnóstico precoce para quem tem plano; apenas 18% para quem depende do SUS _ ou decretar que CEP e renda não decidem quem vive.
No fim, o que faz de Ivie Braga uma mulher a ser seguida não é só o currículo robusto, mas a coerência entre o que vê, o que faz e o que convoca o país a fazer. Ela mostra que radiologia não é apenas imagem: é política pública com nome, rosto e prazo.
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