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Balcão de bar: será que sempre foi pra todo mundo?

29/10/2025 às 13h04 - Atualizado em 29/10/2025 às 13h21

Há alguns anos eu me sentiria intimidada em sentar sozinha no balcão de um boteco. O balcão sempre foi visto como um lugar de homens, onde eles se reúnem para tomar uma cerveja, conversar e viver aquela troca tão típica de um bar. Sempre enxerguei o balcão como um espaço de convivência rápida, mas de qualidade intensa. É um lugar em que ninguém planeja passar o dia inteiro, mas onde aquele curto tempo parece renovar as energias antes de voltar para casa, antes de sair do intervalo do almoço, antes de seguir a vida.

Por muito tempo eu olhei para aquele balcão e pensei: “deve ser muito bom estar ali.” Mas, ao mesmo tempo em que era um lugar de desejo, era também um lugar de medo. Medo porque eu sabia que não era tão simples ocupar. Medo porque existia uma história que me impedia de estar ali. Era muito difícil viver essa experiência sendo mulher, ciente de todas as barreiras invisíveis que sempre existiram entre nós e aquele balcão. Aquele pedaço de pedra, madeira ou mármore que funciona como uma mesa coletiva, o ponto de encontro entre quem cozinha, serve, conversa ou simplesmente observa, nem sempre foi para todo mundo.

Depois de tantas idas a diferentes bares, algumas sozinha e muitas outras acompanhada, eu fui me desafiando. Fui testando, fui vivendo. E hoje me sinto confiante o suficiente para sentar ali quando quiser, porque aquele lugar também me pertence. Gosto sempre de lembrar o quanto isso é representativo, porque que temos o privilégio de poder sentar em um balcão sozinha hoje, pois representamos a primeira geração a quebrar tudo isso, a viver essa liberdade, a poder ir a um bar sozinha, mesmo que ainda reste algum olhar torto, mas bem menos. E confesso que aprendi a ignorá-los, porque feio mesmo é quem não respeita o meu direito de estar onde eu quiser.

E olha só, é curioso pensar que uma pessoa que trabalha com jornalismo e produção de conteúdo gastronômico — especialmente sobre bares — tenha demorado tanto pra conhecer o Bar do Nonô. Um balcão clássico, sem mesinhas na calçada, só aquele espaço coletivo. Mas, pra ir, precisei estar acompanhada de um homem, porque não me sentia confortável o suficiente pra ir sozinha.

E por isso, passei anos sem experimentar um dos melhores caldos da cidade. Porque estar ali significava quebrar tabus, barreiras, preconceitos, olhares, julgamentos e medos. Não por culpa do lugar, mas por culpa da história. Até porque, hoje, o Nonô é um dos balcões que eu mais amo frequentar.

Hoje, quando eu sento em um balcão, eu me sinto parte. Eu me sinto pertencente. Mereço dividir aquele pedaço de mesa coletiva com quem cozinha, com quem serve, com quem também escolheu estar ali. Mereço viver essa mesma experiência e fazer parte do que Belo Horizonte tem de mais autêntico: a cultura do boteco.

Quis compartilhar essa reflexão com vocês, mas como uma boa divulgadora de bares, não poderia encerrar sem deixar um pequeno guia para quem também ama esse universo. Especialmente para você, mulher, que sente vontade e ainda não fez isso, ou para você que já faz e sabe o quanto esse gesto tem significado.

Uma lista feita com o coração, de alguns balcões que me marcaram e me acolheram:

  1. Bar do Nonô
  2. ⁠Café Bahia
  3. ⁠Café Palhares
  4. ⁠Silvio’s Bar
  5. ⁠Bar do Claudio – O Rei da Omelete

Dayanne Melgaço

Publicitária e gestora de marketing gastronômico, atende bares e empresas do segmento. Apaixonada por empreendedorismo, conexões, uma boa conversa na mesa de bar e comida afetiva
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Dayanne Melgaço

Email: [email protected]

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