Preciso falar sobre o Matula. Foi uma das principais homenagens à Belo Horizonte este ano. O evento me pegou desprevenido demais. Não que eu esperasse pouco, só não esperava tanto. Pra quem não conhece, explicarei a proposta:
A ideia central é reunir cinema e gastronomia, com um formato bem único: Durante os dois dias de evento, diversos documentários sobre comida. Desde uma obra da UNESCO sobre cidades criativas da gastronomia, passando por uma mostra sobre as raízes mineiras e até curtas e longas metragens. O evento contou também com oficinas, como a de acepipes com a Chef Simone Diniz e a de goró de boteco, com Néli Pereira. E pra acompanhar as imagens, comida de cinema. Não, pera. Comida de buteco.
A pipoca deu lugar ao torresmo pipoquinha. Os M&Ms deram lugar às conservas. Ao invés de coca cola de máquina, tinha Caipi do Vô e BG. Não que eu não goste de comida de cinema, mas vamos concordar que o cardápio do Matula estava bastante adequado. À frente das bancas de comida, só gente muito competente: Ivan’s, Feijão, Baixa Comidaria, Bar do Antônio e Marcão, Bar do Valle, Nada Contra, Prazer da Esfiha e Massas 100 Caseiras. Não consegui comer de tudo, e do que comi, difícil dizer do que gostei mais.

O ambiente estava muito gostoso. Quem era de filme, conseguia assistir na sala, com som e imagens de qualidade. Quem preferia o buteco, se aconchegava nas mesinhas próximas às comidas. Havia também quem é dos dois, e butecava na própria sala de cinema, visto que as cadeiras estavam acompanhadas de suas devidas mesinhas lá dentro também (Embora todas as comidas fossem de comer com a mão mesmo).
E o que mais mexeu comigo foram as rodas de conversa. Mais especialmente uma delas: A que trouxe a temática “A boemia resiste”. Com o propósito de refletir e provocar sobre o tema, participaram Bárbara Mennucci, presidente da Belotur, Rafael Quick, do Grupo Viela, Renato Caldeira, do Café Nice, o querido Nenel Neto e contou com a mediação de João Renato Faria. Entre as reflexões que a roda trouxe, fiquei pensando no esvaziamento do centro e como isso faz mal para a capital há décadas. Imagine só, Café Nice antigamente fechava à meia noite. Era comum as pessoas saírem do cinema e tomarem um café antes de ir pra casa. Hoje, após às 19h, o Centro é vazio e perigoso, não justifica a abertura do comércio.
Achei muito interessante também a reflexão de que a boemia belo-horizontina nem sempre foi sobre bebedeira. Ao longo do século XX, de pouco a pouco, o álcool se tornou parte indissociável da boemia, como já era no Rio de Janeiro, por exemplo. Em BH, no entanto, as rodas de conversa e convívio eram principalmente em cafés, e em torno da comida. Acho interessante pensar na resistência da boemia sob esta ótica. E a resistência passa por não só dizer que valoriza, mas também vivenciar esses costumes.
Esta foi a 3ª edição do Matula. Ainda contou com uma belíssima exposição de fotos, com a temática “Butecos de Beagá”, do fotógrafo Preá. E acredita que o evento foi gratuito? Pois é, na próxima não perca. No vídeo abaixo você confere um pouco mais de como foi nossa experiência:
















