Minas Gerais sempre foi reconhecida pela força da sua gastronomia. Nos últimos anos, porém, esse reconhecimento ultrapassou as divisas do estado e ganhou ainda mais projeção no Brasil e no mundo. Poucos ingredientes representam tão bem esse momento quanto o queijo artesanal mineiro.
Durante décadas, ele ocupou um lugar muito bem definido: a mesa do café da manhã, as quitandas, as cozinhas das fazendas e as receitas de família. Sempre foi motivo de orgulho para quem nasceu em Minas. Mas basta percorrer alguns bares e restaurantes de Belo Horizonte para perceber que esse patrimônio conquistou um novo espaço. Hoje, o queijo artesanal já não aparece apenas como acompanhamento. Ele ganha protagonismo em tábuas de degustação, inspira receitas autorais, participa de harmonizações e chega à mesa acompanhado de algo que antes nem sempre fazia parte da experiência: a história de quem o produziu.
É bonito acompanhar essa transformação. Não porque o queijo precisasse de reconhecimento, mas porque os olhares sobre ele mudaram. O que antes era visto como um ingrediente do cotidiano passou a ser tratado como expressão de território, cultura e identidade. E isso fortalece toda uma cadeia que começa muito antes de chegar aos restaurantes.
Minas Gerais reúne atualmente 16 regiões produtoras de queijo, sendo dez reconhecidas pela produção do Queijo Minas Artesanal. Há pouco mais de um ano, o modo de fazer desse queijo foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, um título que reforça internacionalmente uma tradição preservada por gerações.
Mas esse reconhecimento não nasce apenas dos prêmios ou dos títulos. Ele também passa pelas pessoas que dedicam a vida a manter esse patrimônio vivo.
Na Fazenda São Jorge, em Conceição do Mato Dentro, na região do Serro, a Queijaria Dona Iaiá é um exemplo desse trabalho. A produção respeita um modo de fazer transmitido entre gerações e que exige tempo, técnica e sensibilidade. O cuidado dedicado a cada etapa se reflete também no reconhecimento conquistado ao longo dos anos, com medalhas em concursos nacionais e internacionais, como o Mondial du Fromage, na França, e o Prêmio Queijo Brasil.
Mas a história do queijo artesanal não termina na fazenda.
Ela continua quando esse produto encontra quem sabe apresentá-lo ao público.
Na Casa da Uva, bar de vinhos comandado pela chef Ana Borges, uma tábua de queijos artesanais mineiros revela que, por trás de cada peça servida, existe um trabalho cuidadoso de pesquisa e curadoria. É ali que entra a atuação da queijista Vívian Paula, responsável por selecionar os queijos da casa e também de outros restaurantes, como a Cantina Renata Castro, em Pará de Minas, e o Ô Chefe, na unidade Caiçaras.
Para Vívian, cada queijo carrega muito mais do que sabor.
“Cada queijo traz as características do lugar onde é produzido. O clima, a altitude, as pastagens, o manejo e o saber transmitido entre gerações fazem com que cada região desenvolva produtos únicos.”
Esse olhar ajuda a explicar por que uma degustação de queijos pode se transformar em uma viagem por Minas Gerais. Assim como acontece com o vinho, o território também imprime sua identidade no queijo. As características mudam de uma região para outra e revelam a diversidade de um estado que transformou um saber tradicional em patrimônio cultural.
Se a curadoria aproxima os produtores dos restaurantes, é na cozinha que essas histórias ganham novos significados.
À frente do Rex Bibendi e do Cabernet Butiquim, a chef Jana Barezo escolheu colocar os queijos artesanais mineiros no centro de diferentes preparos. Eles aparecem em tábuas de degustação, fondue de queijo mineiro servido com cubos de filé, no Wellington de pato preparado com requeijão de raspa e até em uma burrata produzida em Minas Gerais.
Para a chef, essa escolha acontece de forma natural.
“Minas tem uma das maiores riquezas gastronômicas do país, e os queijos fazem parte dessa história. Faz muito sentido trazê-los para o cardápio porque eles carregam identidade, tradição e uma qualidade impressionante. Além de valorizar os produtores locais, eles trazem sabores e texturas que enriquecem muito a experiência à mesa.”
A seleção dos produtores também faz parte desse trabalho. Intensidade, textura, maturação e possibilidades de harmonização são alguns dos critérios considerados na construção do cardápio, que reúne produtores como Ivair, da Serra da Canastra, e a Queijaria Bello, no Cerrado Mineiro.
Para Jana, os restaurantes cumprem um papel importante na valorização dessa cadeia.
“Muitas vezes, a primeira experiência de uma pessoa com um queijo artesanal acontece dentro de um restaurante. Quando existe esse cuidado em escolher bons produtores e apresentar o ingrediente da forma certa, todo mundo ganha. O produtor é valorizado, o cliente descobre novos sabores e a gastronomia mineira fica cada vez mais forte.”
Talvez seja justamente esse o momento mais interessante da gastronomia mineira.
Enquanto produtores preservam um modo de fazer centenário, queijistas aproximam o público da origem de cada queijo e chefs transformam esse patrimônio em experiência. Cada um ocupa um lugar diferente, mas todos contam a mesma história.
No fim das contas, o queijo artesanal mineiro continua sendo o mesmo orgulho que sempre foi para quem nasceu em Minas. O que mudou foi o lugar que ele passou a ocupar. Hoje, ele representa uma gastronomia que ganha cada vez mais reconhecimento, fortalece o turismo, impulsiona pequenos produtores e desperta a curiosidade de quem deseja conhecer o estado pelos seus sabores.
Da próxima vez que um queijo artesanal chegar à mesa de um restaurante, talvez valha a pena olhar para ele com um pouco mais de atenção. Mais do que um ingrediente, aquele pedaço de queijo carrega a história de uma família, a identidade de um território e a força de uma tradição que faz da gastronomia mineira uma das mais admiradas do Brasil.











