O Bar da Lora é um dos bares mais procurados por turistas e um dos mais citados quando se fala de fígado com jiló, de boteco, de comida de boteco e de bar bom pra ir em Belo Horizonte. Não é à toa. Um bar que nasceu dentro do Mercado Central hoje soma três unidades: uma na Praça Raul Soares, aberta quando a praça ainda não estava revitalizada e nem ocupada pela gastronomia como é hoje, e outra na Savassi, levando o fígado com jiló, o copo Lagoinha e a cerveja de garrafa para uma região acostumada a outro estilo de consumo. Ver um bar que carrega tanto da mineiridade ocupando esses espaços é motivo de alegria, porque hoje o turista procura exatamente isso: o que nós comemos, o que nós bebemos, o que nós somos. E o Bar da Lora traduz isso com precisão.

Mas existe uma parte dessa história que muita gente não conhece. O bar era do pai da Elisa, dentro do Mercado Central, e em um determinado momento a gestão ficou nas mãos do então marido. Foi a partir de uma má condução do negócio, somada a uma quebra de confiança pessoal, que Elisa decidiu assumir o bar, que ainda carregava o nome do pai. Esse ponto é importante porque ela não era o perfil que as pessoas estavam acostumadas a ver atrás de um balcão. Uma mulher, loira, em um ambiente historicamente masculino, onde muitas vezes a presença feminina nem como cliente era levada a sério, quanto mais como dona.
Como muitos imaginam, a Elisa é uma mulher de cabelo loiro e forte, algo que se revela na história que construiu e no nome que sustenta: o bar é dela, é da Lora. E foi justamente desse estranhamento que nasceu o nome. As pessoas começaram a se referir ao lugar como “o bar da loura”, e Elisa, com a sensibilidade que carrega, ouviu, entendeu e assumiu. Mais do que um apelido, ali já existia uma leitura de público, de percepção e de posicionamento que ela soube acolher de forma natural.
Antes de qualquer estratégia, no entanto, existe postura. Elisa nunca teve medo de se colocar, de assumir o próprio espaço e de responder quando era diminuída como mulher, como profissional e como dona do bar. Já ofereceram dinheiro para que ela deixasse aquele lugar, como se aquele não fosse um espaço que pudesse ocupar. Ainda assim, ela permaneceu e se tornou a primeira mulher a ter um bar dentro do Mercado Central, algo que, naturalmente, incomodou muita gente.
Com o tempo, vieram os reconhecimentos. O Bar da Lora se destacou no Comida di Buteco, acumulou prêmios e, principalmente, construiu respeito. Não só do público, mas também de jornalistas, da imprensa e de outros donos de bares, muitos deles amigos pessoais da Elisa desde o início da trajetória. Hoje, quando se fala de comida de boteco, da cultura de bar, da presença feminina nesse espaço e de um negócio que carrega a mineiridade de forma autêntica, o Bar da Lora inevitavelmente entra na conversa.
Mas existe também a Elisa que não está só no balcão. Eu conheci a Elisa trabalhando, indo lá, gravando, entrevistando e observando. Com o tempo, a relação atravessou o balcão e hoje eu me tornei amiga. Ela me levou para dentro da vida dela, para a família, para os lugares que frequenta, para a empresa e para o coração. A gente passou a compartilhar momentos que vão muito além do trabalho, e isso acontece porque ela é assim com quem ama e com quem chega com verdade. Além disso, como já é possível perceber, ela também é uma excelente empresária, e foi justamente nesse lugar, entre a prática e o olhar de quem vive o negócio, que aconteceu um momento que me marcou muito.
Em uma conversa, ela me contou que nunca investiu em marketing, e a minha reação foi imediata: se tudo aquilo que ela fazia não fosse marketing, então eu tinha entendido a minha profissão errado. Porque cuidar do cliente, ter atenção com parceiros, manter padrão de qualidade e respeitar a cultura da cidade, a própria história e a raiz, se isso não for marketing, então o que é? A diferença é que, no caso da Elisa, isso nunca foi estratégia. Sempre foi essência. O marketing dela é orgânico, vivido, centrado em pessoas, porque, no fim, sempre foi mais entrega do que discurso.
Como mulher botequeira e como alguém que também tenta conciliar trabalho, família, casamento, sonhos e a vida de filha que cuida dos pais, eu olho para a Elisa e vejo inspiração. Quando me perguntam o que a Lora tem, é difícil responder de forma simples, porque existe ali uma grandiosidade que vai além do que se vê. Existe também uma percepção clara de que, onde ela pisa, as coisas acontecem, e isso não tem relação com sorte, mas com nome construído, reputação e mérito ao longo do tempo.
Por isso, hoje escrevo uma coluna um pouco diferente. Mais do que indicar lugares, eu também quero usar esse espaço para falar sobre quem constrói esses lugares e sobre o papel que esses nomes ocupam na cidade. Em Belo Horizonte, a gente costuma dizer que o que um boteco tem é o dono do bar, e a Elisa traduz isso com maestria.
Então, quando ela diz que o segredo é o amor, talvez seja exatamente isso. E não é mentira.











