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Os bares estão caros?

Os bares estão caros?

22/08/2024 às 15h31 - Atualizado em 26/08/2024 às 22h05
Um belo PF do restaurante Na Tora. Um lugar com preço justo.
Um belo PF do restaurante Na Tora. Um lugar com preço justo.

Uma reflexão sobre o preço justo das coisas.

O Pedro da faculdade se via diante de uma escolha diária: Almoçar bem por R$ 15 ou comer um salgadão por R$ 5, guardando os R$ 10 da diferença para tomar 2 ou 3 cervejas com os amigos depois da aula? Bons tempos. Difícil saber qual opção prevaleceu durante o período acadêmico, mas é inegável que os R$ 15 deram conta da minha nutrição e vida social em 2010.

Os cálculos hoje são os mesmos, mas as cifras mudaram demais. Com R$ 15 mal almoçamos bem, que dirá comer e tomar uma. A vida encareceu e nossas opções ficaram mais restritas. Nossas saídas diminuíram (Falei sobre isso aqui) e nosso ticket médio nos bares (valor médio gasto por pessoa) reduziram, para que a gente não precise deixar de ir.

Se saímos menos, e, quando saímos gastamos menos, não é surpresa que o setor venha sofrendo. A Abrasel realiza pesquisas constantes com o setor e os dados de outubro de 2023 e de maio e julho desse ano, por exemplo, mostram essa queda constante no faturamento. Então aparentemente não está bom pra gente, mas pelo visto não está bom para ninguém. O dinheiro que pagamos a mais não necessariamente está indo para o bolso dos comerciantes.

Acredito sim que alguns bares estão cobrando bem mais do que poderiam, mas no geral, é necessário fazermos uma reflexão sobre o preço justo das coisas. Como avaliar se um lugar cobra um preço justo?

Talvez o principal indicador no mundo da gastronomia seja o CMV: Custo da Mercadoria Vendida. Resumidamente, é qual o valor pago pelo bar sobre o preço do produto vendido. A expectativa é que esse CMV gire em torno de 30%. Os outros 70% cobrem salários, aluguel, impostos, contas e outros custos relativos ao negócio, além da apuração do lucro (Que no setor, fica entre 10% e 20%). Sendo assim, uma porção de R$ 30, deveria custar em torno de R$ 10 para o estabelecimento. Esse seria o valor por porção, considerando todos os insumos, descartáveis, temperos, gás e outros itens necessários para a produção da mesma.

O que faz com que um bar consiga ter um CMV pior que 30%, e ainda assim ter lucro, é a composição dos outros custos relativos ao negócio em questão. Imagine uma operação simples e com poucas pessoas, em uma loja pequena de aluguel barato, na qual o dono ainda faz de tudo e não tem ninguém ajudando-o no administrativo. Nesse caso, o bar consegue parar de pé vendendo esse mesmo petisco que custou R$ 10, por, digamos, R$ 20.

Por outro lado, imagine um bar com estrutura mais complexa, maior necessidade de mão de obra especializada (como Chefs e Bartenders), em uma casa ampla com aluguel mais caro e uma necessidade maior de investimento no geral. Nesse caso, o CMV precisa ser ainda mais baixo. O mesmo petisco de R$ 10 deveria, por exemplo, ser vendido a R$ 40. Quando vemos essa cifra no cardápio, afirmamos então que o bar está caro.

No final das contas, preço justo não significa preço baixo. Acredito que a justiça esteja no que é entregue pelo preço cobrado. E o que é entregue não só no prato em si, mas na experiência como um todo. Se o tal bar que cobra R$ 40 entrega estrutura e experiência ímpar, não faz com que o preço não seja justo, mesmo que existam bares cobrando R$ 20 por uma porção semelhante. Os dois preços podem ser justos, a depender da entrega como um todo.

Salmão com salada de alcaparra no Silvinho's Bar, em Contagem. Um bar com preço justo.
Salmão com salada de alcaparra no Silvinho’s Bar, em Contagem. Um bar com preço justo.

No entanto, ainda que o preço seja justo, não quer dizer que as pessoas queiram pagar. Temos visto uma migração do rolê para a região metropolitana. Afinal de contas, parece que nossos reais valem mais Contagem do que em BH. Nós, que trabalhamos com engajamento, notamos a grande diferença nos números quando postamos algo “barato” em relação ao “caro”. Ainda que o “caro” seja justo, as cifras tem afastado bastante os potenciais clientes. E é inegável que fora da capital as contas costumam se equilibrar mais facilmente, possibilitando aos bares cobrar menos.

A conclusão que tiro disso tudo é que eu concordo que os bares estão caros, mas para mim isso é mais fruto da economia do que vontade dos estabelecimentos. Se a inflação não fosse tão alta e se nós não estivéssemos saindo e gastando tão pouco, possivelmente os bares equilibrariam melhor as contas mesmo mantendo o preço baixo. Enxergo o preço alto, na esmagadora maioria das vezes, mais como uma necessidade de sobrevivência do que como ganância.

Verdade seja dita: O dinheiro do Pedro de 2010 valia mais. O leque de opções do que fazer com a grana do almoço, reduz a cada ano que passa.

Editado por: Pedro Costa

Pedro Costa

Deixou a carreira de gerente comercial para se dedicar totalmente a sua paixão: O universo da gastronomia. À frente de bares e projetos do ramo, é belo-horizontino com o maior orgulho possível, cozinha por gosto e também por obrigação e não dispensa uma boa festa.
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Email: [email protected]

Deixou a carreira de gerente comercial para se dedicar totalmente a sua paixão: O universo da gastronomia. À frente de bares e projetos do ramo, é belo-horizontino com o maior orgulho possível, cozinha por gosto e também por obrigação e não dispensa uma boa festa.
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