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Será que os bares estão preparados para esse novo tempo?

05/12/2025 às 18h16

Belo Horizonte sempre foi cidade de bar. Não de qualquer bar: daqueles que atravessam décadas, marcam famílias, criam histórias, sustentam a vida de muita gente e movimentam a economia. Do boteco clássico, com panela e caderno, aos projetos mais modernos, com cardápio autoral, pegada tecnológica e marketing afinado, a verdade é que todos fazem parte do nosso estilo de vida. A capital se reconhece ali.

Mas os últimos anos mudaram o jogo

Depois da pandemia, o mercado precisou lidar com dois choques ao mesmo tempo: o impacto financeiro e a mudança no comportamento de consumo. E isso gerou um efeito em cadeia que estamos vendo agora.

Nos últimos tempos, assistimos a portas fechando. Algumas por escolha. Outras por esgotamento. Teve bar que recebeu proposta irrecusável pelo imóvel. Teve boteco que não resistiu à nova dinâmica do mercado. Teve negócio que se endividou tentando sobreviver à crise. Foram quase dois anos de incertezas profundas e o setor não saiu ileso.

Junto disso, o público também mudou. O digital virou vitrine obrigatória. Tudo ganhou prazo de validade curto: sucesso hoje, esquecimento amanhã. Lugares viralizam, lotam, entram na moda, e logo são substituídos por um novo destaque da semana. A disputa deixou de ser pela esquina e passou a acontecer também na tela do celular.

E junto de todas essas transformações, o setor passou a enfrentar uma nova disputa por território: o delivery.

As plataformas brigam por fatias de mercado, e isso pode parecer apenas uma guerra entre gigantes, mas afeta diretamente o pequeno empreendedor de alimentação fora do lar. Hoje, a concorrência não é mais somente entre bares. Ela acontece entre empresas que cobram tarifas diferentes, expõem o negócio nos aplicativos e impactam a logística do começo ao fim.

De um lado, 99 e Keeta, marca chinesa que tenta se firmar no Brasil. Do outro, o iFood reajustando tarifas para manter sua liderança, concentrando, ainda hoje, cerca de 80% das entregas do país.

No meio disso, o pequeno empreendedor precisa negociar taxas, entender embalagem, calcular custo real de logística, controlar estoque, treinar equipe e ainda manter o salão funcionando. Não dá mais para improvisar.

Aquela época em que abrir um bar era quase um gesto comunitário ficou para trás. Antes, bastava ter um ponto, uma estufa, um freezer, uma receita boa e o boca a boca resolvia o resto. A clientela vinha, os vizinhos indicavam, e a renda do balcão sustentava a família. Era menos sobre gestão e mais sobre relação. E funcionava. Era suficiente. Hoje, não é mais.

A margem apertou. O preço dos insumos disparou. A mão de obra é difícil de manter, seja pela busca por qualidade de vida ou pela logística do trabalho noturno. E o público ficou mais exigente porque vê, compara, comenta, viraliza e denuncia.

Não basta mais servir bem. Agora é preciso comprar bem, precificar certo, negociar fornecedor, controlar fluxo de caixa, ajustar cardápio conforme sazonalidade e entender que custo não é preço. Promoção sem estratégia não atrai cliente, dá prejuízo romântico.

E isso coloca o setor diante de uma pergunta inevitável: Será que os bares estão preparados para esse novo tempo?

Como jornalista gastronômica e também especialista em marketing para o setor, vejo que o mercado precisa, urgentemente, de três pilares: capacitação, apoio público e profissionalização. Isso passa por consultorias, treinamentos, impulsionamento e acesso a discussões estratégicas que ajudem os bares a entender o cenário e a competir com inteligência.

A boa notícia é que muitos empresários já começaram essa virada. E quem apostar nisso agora tem chance real de se tornar o próximo clássico de Belo Horizonte.

Porque, no fim das contas, BH continua sendo feita de bares. Mas, daqui pra frente, não basta ter história bonita e comida boa. Vai permanecer quem conseguir unir conexões e gestão.

O bar é a nossa cultura, nossa paixão, precisa ter alma, mas também é negócio. E essa tal “conta de boteco” precisa de mais atenção.

Porque, se queremos manter viva a cidade que acontece no balcão, então está na hora de cuidar de quem serve, de quem produz e de quem mantém essa tradição de pé. Só assim garantimos que as histórias continuem sendo contadas, os copos continuem sendo erguidos e Belo Horizonte permaneça sendo o que sempre foi: a capital dos bares.

Dayanne Melgaço

Publicitária e gestora de marketing gastronômico, atende bares e empresas do segmento. Apaixonada por empreendedorismo, conexões, uma boa conversa na mesa de bar e comida afetiva
Instagram

Dayanne Melgaço

Email: [email protected]

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