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Colunas

Sozinha no bar, e daí?

04/03/2026 às 17h30

Entrar sozinha em um bar ainda chama atenção. O olhar masculino percorre a mesa, vê só uma cadeira ocupada e já vem aquela dúvida silenciosa: quem será ela? Está esperando alguém? Está sozinha mesmo?

A gente já ocupa bastante espaço nesse universo feito por homens e para homens, mas, principalmente nos bares que chamamos carinhosamente de mais “raiz”, o público ainda é majoritariamente masculino. E, por mais que alguém pense “lá vem ela com sua militância”, a verdade é que a presença de uma mulher desacompanhada ainda soa estranha.

E eu escrevo isso porque vivo essa experiência na pele, nessas minhas andanças por bares. E olha que sou cara de pau: não mudo de roupa, não tento parecer mais discreta para caber no ambiente. Mesmo assim, ainda sinto os olhares, o estranhamento, aquela sensação de estar ocupando um espaço que não esperavam que fosse meu. Já teve bar em que levantei e fui embora. Não porque era ruim, mas porque eu simplesmente não queria ficar. Dava medo.

Não estou generalizando. Muitos bares me acolhem, me recebem como qualquer pessoa, e é assim que deveria ser sempre. Mas o desconforto ainda existe. São olhares que pesam, inseguranças que surgem do nada, pensamentos como “será que estou chamando atenção demais?” ou “será que esse lugar é pra mim?”. Como produtora de conteúdo, tento fazer da minha presença uma forma de normalizar essa ocupação. Quero que cada vez mais mulheres se sintam à vontade nos bares, que esse espaço deixe de ser um território de desconfiança.

Só de sermos a primeira geração que consegue fazer isso com mais liberdade, sem precisar diminuir quem a gente é, já me dá uma gratidão enorme por todas as mulheres que vieram antes e abriram esses caminhos. Agora é continuar.

Um exemplo prático disso é um quadro que criamos nas redes do Um Bar Por Semana (UBS): o “Bar para ir sozinha”. Ele nasceu pensando na experiência de quem quer aproveitar um bar sem companhia, com porções menores, consumo individual, preços possíveis e contas que não passam de 80 reais, além do conforto de ficar ali sem precisar dividir nada com ninguém. Começou comigo e com o Pedro, meu sócio na página, mas o retorno que recebemos trouxe uma reflexão maior.

Vieram mensagens de mulheres dizendo que ainda não tinham coragem. Outras contam que vão sozinhas ao cinema, ao café, a shows, mas que o bar ainda é um bloqueio. Algumas me marcam orgulhosas porque estão tentando. Outras já fazem isso há anos, mas nunca tinham parado para pensar no impacto desse gesto. Isso escancara o quanto esse espaço ainda não é natural para nós, e como ocupar é importante. Cada mulher que entra sozinha ajuda a abrir caminho para a próxima.

E, dentro desse universo, existem outras camadas que a gente só percebe quando começa a frequentar esses lugares com mais atenção. Uma delas é a competição feminina silenciosa que aparece em qualquer ambiente, e no bar não seria diferente. Tudo vira palco de comparação: nossos corpos, a roupa, o cabelo, a postura, a aparência. Parece que estamos sendo avaliadas o tempo inteiro. Existe uma cobrança constante para estar bonita, arrumada, interessante, como se a gente nunca pudesse simplesmente sentar e existir. Mas ocupar não precisa ser disputa. Às vezes, a gente só quer estar ali, seja de chinelo ou de salto.

Outra coisa que aprendi nessas andanças é olhar para a estrutura do lugar. Porque não é só sobre conforto, é sobre segurança. Banheiros com portas que travam e papel disponível, porções menores para quem não quer encarar pratos enormes, iluminação adequada na fachada para esperar um carro de aplicativo, posicionamentos claros contra assédio. São detalhes simples, mas que mudam completamente a experiência. Tornam o ambiente mais seguro, acolhedor e possível de ter uma presença feminina.

Ser mulher também significa viver em estado de atenção o tempo inteiro. A gente aprende a calcular risco sem perceber: onde sentar, que horas ir embora, como voltar pra casa, evitar postar a localização em tempo real. Eu mesma precisei ajustar minha rotina para me sentir mais segura nessas jornadas sozinha pelos bares. Tem lugares em que eu simplesmente não vou sozinha, porque não entram no meu cálculo de risco.

E, pensando bem, essa sensação não é só de quem está do lado de fora como cliente. Ela também acompanha quem está trabalhando ali dentro.

Eu me sinto diferente quando vejo outras mulheres servindo mesas, atrás do balcão, na cozinha ou na gestão. A presença feminina muda o clima, traz acolhimento e reforça a sensação de que aquele espaço também é nosso. Mas isso não pode ser só simbólico. Essas mulheres ainda enfrentam assédio nos bastidores, ganham menos, trabalham mais e precisam provar o dobro. Falar de ocupar bares também é falar de valorizar quem sustenta esses lugares todos os dias.

No fim das contas, a gente não está pedindo nada extraordinário. É o básico: sentar numa mesa, pedir uma bebida e aproveitar a noite sem justificativa, sem medo, sem estranhamento. O bar é um lugar de tanta troca e acolhimento. Então que seja, de fato, para todo mundo.

E agora, no Dia da Mulher, fica o convite: que a gente ocupe mais. Os bares, as ruas, os espaços que quiser. Que nosso gênero nunca seja limite para onde vamos ou como escolhemos viver nossas noites.

Dayanne Melgaço

Publicitária e gestora de marketing gastronômico, atende bares e empresas do segmento. Apaixonada por empreendedorismo, conexões, uma boa conversa na mesa de bar e comida afetiva
Instagram

Dayanne Melgaço

Email: [email protected]

Publicitária e gestora de marketing gastronômico, atende bares e empresas do segmento. Apaixonada por empreendedorismo, conexões, uma boa conversa na mesa de bar e comida afetiva
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