Em 1984, o governo britânico encomendou o que ficou conhecido como o Relatório Black, uma investigação sobre os determinantes sociais da saúde. Uma das descobertas mais incômodas do estudo era simples: as pessoas não adoecem sozinhas. O ambiente em que vivem, as mensagens que recebem, os modelos que seguem, tudo isso molda comportamentos que, com o tempo, viram hábitos, e hábitos viram destino.
Quatro décadas depois, o Brasil tem sua própria epidemia a explicar. E a pergunta que o Relatório Black faria hoje seria esta: quem ensinou 25 milhões de brasileiros a apostar? A resposta, em boa parte, tem um nome e um número de seguidores.
Entender o papel do influenciador no vício em bets exige, primeiro, entender o que ele representa. O influenciador digital não é um anunciante comum. Ele é um vizinho de confiança que você escolheu ouvir todos os dias. Quando ele mostra o almoço, você sente fome. Quando ele chora numa live, você sente empatia real. Quando ele aperta o botão de uma bet e comemora o ganho, você não vê publicidade, você vê possibilidade. É exatamente essa confusão entre relação e transação que torna o marketing via influenciadores tão diferente de um anúncio de TV. E tão mais perigoso.
A OMS, em sua ficha informativa sobre apostas de 2024, foi direta: é necessário coibir a promoção de jogos de azar nas mídias sociais como parte de uma estratégia de saúde pública. Pesquisadores internacionais identificaram que influenciadores apresentam o jogo como parte da rotina ou entretenimento, uma atividade divertida, lucrativa e socialmente aceita, geralmente sem alertas sobre riscos como a dependência ou perdas financeiras. Não é acidente. É estratégia.
Em 2024, o Intercept Brasil revelou o mecanismo que ficaria famoso como a “cláusula da desgraça”: contratos em que influenciadores recebiam comissões proporcionais às perdas dos apostadores que entraram na plataforma pelo código deles. Quanto mais o seguidor perde, mais o influenciador ganha.
Felipe Prior, ex-participante de reality show, teve um desses contratos tornado público. Lucas Motta, criador com 2 milhões de seguidores no TikTok, contou que recebeu proposta de comissão de 15% “sobre tudo que perderem”. Um influenciador de churrasco relatou proposta em que ficaria com 80% das perdas de quem entrasse pela sua indicação.
A “cláusula da desgraça” foi um dos momentos mais tensos da CPI das Bets, quando Virgínia Fonseca, a maior influenciadora do Brasil, com mais de 53 milhões de seguidores no Instagram, sentou diante dos senadores para explicar seu contrato de 18 meses com a Esportes da Sorte. Ela negou ter recebido qualquer comissão sobre perdas, apresentou o contrato e afirmou sempre ter alertado o público sobre os riscos. Credenciada pelo STF para não se autoincriminar, preferiu falar. Quando os senadores perguntaram qual o maior valor que já recebeu de uma bet, ela optou pelo silêncio.
A resposta que faltou naquela sessão importa menos do que a pergunta que ficou: é possível ganhar dezenas de milhões promovendo apostas e, ao mesmo tempo, ser um agente de proteção do seu público?
Aqui é onde a história fica mais honesta, e também mais reveladora. Entre os influenciadores de finanças pessoais que falam sobre bets, 95% têm postura contrária às apostas ou fazem alertas educativos, segundo levantamento da Anbima com o IBPAD. Em outras palavras: quem entende de dinheiro, na esmagadora maioria, é contra.
Charlesson Campos, o “Doutor Equilíbrio”, recusou contratos de bets para seus mais de 500 mil inscritos no YouTube e passou a produzir conteúdo explicando os riscos. Rafael Belli, professor universitário com 1,4 milhão de seguidores no TikTok, recebeu uma proposta de R$ 20 mil para um vídeo “sobre jogar com responsabilidade”. Quase aceitou. Recusou quando percebeu que seria “publicidade velada”.
Felca, o influenciador que ficou famoso por testar os produtos da Wepink, revelou ter recusado uma proposta de R$ 50 milhões de uma casa de apostas por três meses de contrato. Convidado pela CPI como contraponto, disse algo que vale guardar: “Enquanto as propostas continuarem milionárias e a impunidade prevalecer, a ética dos criadores de conteúdo vai ser comprometida. O dinheiro vai falar mais alto.”
Em maio de 2026, um influenciador chamado Fernando Felix publicou um vídeo chorando ao revelar que havia recusado R$ 1 milhão para promover uma bet por três meses. A publicação alcançou 2 milhões de visualizações. A frase que ele disse resume o dilema de uma geração inteira de criadores.
Há um denominador comum nesses casos: todos descrevem a recusa como um ato de custo real. Não é heroísmo barato. É gente que abriu mão de muito dinheiro por razões que vão além do contrato. E isso, paradoxalmente, é o maior argumento de que precisamos para entender a magnitude do problema.
Se uma decisão ética exige que alguém abra mão de R$ 50 milhões, não estamos diante de um problema de caráter. Estamos diante de uma falha de regulação que transfere para a consciência de cada criador uma responsabilidade que deveria ser do Estado.
Em quase 80% dos casos, quando um influenciador aceita promover bets, ele o faz porque esse mercado paga o que nenhum outro paga. Segundo pesquisa da agência Brunch, 80% dos criadores de conteúdo ganham menos de R$ 5 mil por mês. Quando uma bet oferece R$ 500 mil por três posts, a conversa sobre ética fica muito mais complicada.
A força da influência digital não vai desaparecer com a proibição. Ela pode, no entanto, ser usada do outro lado. O vício em apostas no Brasil não será resolvido apenas por clínicas de tratamento, precisamos enfrentar o ambiente que cria apostadores antes de precisarmos tratar as pessoas. E esse ambiente tem um rosto. Tem seguidores. Tem uma caixa de entrada cheia de propostas milionárias esperando resposta.
A pergunta que precisamos fazer para os influenciadores, para o mercado e para o poder público não é: “você sabia dos riscos?”. É mais simples, e mais desconfortável: quando você apertou “publicar”, você estava pensando em quem?
Belo Horizonte
BH não legisla sobre publicidade federal. Mas o município tem ferramentas que ninguém está usando ainda: pode exigir campanhas de conscientização contra o vício em espaços públicos, pode estabelecer parcerias com criadores de conteúdo da cidade para produzir material educativo, pode criar protocolos nas escolas municipais para debater com estudantes o papel do marketing de influência em seus hábitos financeiros e comportamentos de risco. Para facilitar investimentos e políticas públicas nesse sentido, a Câmara criou, a partir da proposição do vereador Wagner Ferreira, o Dia Municipal de Conscientização e Enfrentamento ao Vício em Apostas Virtuais e Jogos de Azar.
Nesse mês de junho, será votado definitivamente o Projeto de Lei 362/25, que proíbe publicidade de apostas no município de Belo Horizonte, além de proibir a Administração de celebrar contratos com operadoras de bets e a venda de Naming Rights. Já tivemos propaganda de apostas online no aniversário da cidade, no Carnaval, em pleno Parque Municipal e outros pontos turísticos importantes. Se não agirmos rápido, o histórico Arraiá de Belô pode virar palco para as bets.










