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Colunas

Por dentro do volante: jornadas de 15 horas e salário congelado para motoristas de ônibus em BH

18/06/2026 às 12h58
Ao volante, motorista de BH tem jornada de 15 horas e convive com salário congelado.
Imagem gerada com o auxílio da IA.

No dia 30 de março deste ano, um dia comum para a maioria dos trabalhadores belo-horizontinos, o motorista de transporte coletivo Carlos*, 39 anos, foi chamado ao setor de Recursos Humanos da empresa em que trabalhava. Foi surpresa, e não havia como não ser, pois sem aviso prévio, sem carta nem sinal, ele foi demitido com mais 20 colegas. “Disseram que era para eu procurar meus direitos. Saí de lá sem nada, nem o salário do mês. E até hoje não recebi nenhuma verba indenizatória, FGTS, nada”, contou.

Tudo isso ficou para ser resolvido “na Justiça”. Entrou com ação trabalhista sozinho. Enquanto o processo corre, ele vai pagando as contas como consegue. Carlos é de BH, cresceu no Barreiro, mora hoje em Sarzedo com a família. Entrou no transporte coletivo em 2010, operava linhas nas estações Barreiro e Diamante. É pai de cinco filhos, e uma delas, de apenas quatro anos, precisa de tratamento de saúde para visão monocular em São Paulo.

“Estou pegando bicos para pagar as contas e o alimento aqui para casa. O cartão de crédito vence e eu não estou dando conta de pagar em dia. Durante todo o período que trabalhei na empresa houve atraso de salário — sempre paguei multas e juros por isso. Me ofereceram um acordo menor do que eu teria a receber, e parcelado. Isso é muito constrangedor.”

Já Aurélio*, ainda na função, levanta às 3h40 da manhã. Sem barulho, para não acordar a família. Às 5h10, ele já está no volante. O turno termina às 17h, com pausas de cerca vinte minutos que mal dão tempo de esticar as pernas antes do próximo embarque. Todo dia, há 28 anos na mesma empresa. Nesse tempo, ele passou por cobrador, auxiliar administrativo e agora opera linhas que cortam Belo Horizonte de ponta a ponta.

Do lado de fora do ônibus, quem passa enxerga apenas um serviço público. Do lado de dentro do volante, Carlos enxerga décadas de vida entregues a uma categoria que, em suas próprias palavras, não têm reajuste real desde 2010. “Só recomposição salarial”, ele explica. “Quando colegas foram se manifestar por melhores condições, foram demitidos e ficaram queimados entre as empresas de transporte coletivo. Precisamos buscar mais salário, melhorias, porque nossas famílias merecem isso também.”

A distinção que ele faz importa, e importa muito. Recomposição salarial repõe perdas da inflação, é o mínimo que a lei exige. Reajuste real é ganho efetivo de poder de compra. Para os motoristas de ônibus urbano de Belo Horizonte, o piso da categoria gira em torno de R$ 3 mil para uma jornada contratual de 41 horas semanais. Na prática, as jornadas reais estão muito além disso. Com a falta de profissionais no setor, as contratações formais caíram mais de 3% nos últimos doze meses. Isso empurra os que ficam para turnos de nove, onze, até quinze horas por dia, conforme relatam os próprios trabalhadores.

Edson Pinto conhece esse caminho faz tempo.

 Mais de três décadas no transporte coletivo. Quatro filhos: dois adolescentes ainda em casa, dois já crescidos. Uma hérnia de disco operada. E uma convicção que foi crescendo ao longo dos anos. Em 2024, Edson ajudou a fundar o Movimento dos Motoristas Unidos, o MMU. Em 2025, o movimento criou a Associação dos Motoristas Unidos do Brasil, AMUB, com diretoria formal de catorze membros, e elegeu primeiro presidente.

Mas a convicção teve um preço alto. Edson se manifestou e entrou para a “lista de excluídos” das empresas de ônibus. “Cheguei a mandar vários currículos para várias empresas. Nenhum deu retorno, apesar da minha experiência, de nunca ter faltado sem justificativa, de nunca ter feito nada além de me manifestar pelos direitos do motorista. Foi retaliado e não consigo mais entrar no sistema do transporte coletivo urbano.” A existência dessas listas no setor é uma alegação recorrente entre trabalhadores afastados por ativismo sindical, embora de difícil comprovação documental.

Tudo isso acontece dentro de um sistema bancado generosamente pelo dinheiro público. Em 2025, a Prefeitura de Belo Horizonte destinou R$ 704 milhões em subsídio às empresas de ônibus, valor que em 2026 sobe para R$ 756,9 milhões, pagos a R$ 4,66 por quilômetro rodado. O modelo foi criado pela Lei 11.367/2022 para segurar a tarifa ao usuário e ampliar o número de viagens.

Wenderson Aurélio, o motorista que há 28 anos serve à cidade antes do sol nascer, fecha a conversa com a serenidade de quem conhece o ofício e gosta dele, mas não ignora o que falta. “Adoro ser motorista e lidar com o público. Criamos vínculos com os passageiros, fazemos grandes amigos. A profissão ainda vale a pena e está no sangue. Só que aqui o salário não anda. Precisamos buscar mais, melhorias, porque nossas famílias merecem isso também”, declarou.

O sistema, em teoria, deve funcionar para quem pega ônibus. Mas a pergunta que fica sem resposta é: o que o contrato entre a Prefeitura e as concessionárias exige em relação ao trabalhador que faz o sistema rodar? Que garantias o poder público impõe às empresas sobre o pagamento em dia dos salários, o cumprimento das jornadas legais, o respeito aos direitos na rescisão? A Prefeitura pode acionar algum mecanismo contratual?

Audiência Pública

É esse conjunto de perguntas que o vereador Wagner Ferreira (REDE) vai levar para a audiência pública que propôs na Câmara Municipal de Belo Horizonte, nesta quinta-feira (18), às 13h30, no Plenário Helvécio Arantes. “Estou com os motoristas, não podemos permitir essa sacanagem que está acontecendo e o não cumprimento de direitos garantidos pela lei”, declarou o vereador.

*Foram utilizados nomes fictícios para preservar os motoristas

Pablo Nogueira

Pablo Nogueira é jornalista, formado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), com mestrado em Comunicação pela UFMG. Tem passagens pela Rádio Itatiaia, Rádio BandNews, Rede Minas, TV Alterosa, governo do estado, Agência Minas e Centro de Comunicação da Universidade Federal de Minas. Venceu os prêmios de jornalismo CDL, em 2024, MOL, em 2023, e Amagis, em 2022, além de ter sido finalista dos prêmios ABMES, em 2023, CDL, em 2022 e 2023, e C6 Bank, em 2022. É editor do BHAZ.
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