Enquanto a Região Centro-Sul ostenta 16 m² de área verde por habitante, a Regional Venda Nova respira com dificuldade, com apenas 6 m², a metade do que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o mínimo para uma vida saudável (12m² de área verde por habitante). Esse exemplo revela em BH o que estudiosos chamam de injustiça ambiental: a dura realidade onde o CEP de uma pessoa define a qualidade do ar que ela respira e a temperatura dentro de sua casa. Na prática, vivemos uma segregação climática, onde quem tem dinheiro compra o frescor das árvores, enquanto o morador de áreas menos abastadas herdam o asfalto quente e o mormaço sufocante das ilhas de calor. Para piorar, e se eu te dissesse que uma das poucas áreas verdes de Venda Nova está sendo transformada em um condomínio, e que casas já estão sendo construídas nas margens das nascentes?
É isso que está acontecendo agora no coração do bairro São João Batista, onde resiste uma área verde de 40 mil m² que abriga diversas espécies da fauna e flora: a Mata do Lareira. O espaço acolhe as nascentes que dão vida às bacias do Nado e Vilarinho, funcionando como um regulador natural contra as chuvas que, ano após ano, castigam a Avenida Vilarinho e a Rua Doutor Álvaro Camargos. O local também remonta a história do bairro, sendo a antiga sede do Clube Lareira, espaço desativado desde 2010 que foi por anos o principal espaço de lazer da comunidade.
Mais que uma simples área verde, é parte também da memória coletiva dos cidadãos da região. Morador do bairro há mais de 30 anos, o engenheiro José Eustáquio Faria relembra com carinho a importância da Mata do Lareira na criação dos três filhos: “Venda Nova é uma região precária em termos de uma área verde de qualidade. Se construírem casas ali, só teremos memórias do passado. Eu espero levar meus netos no local, temos que pensar como comunidade, no coletivo. Minha filha uma vez fez um trabalho na escola que era levar um mascote em lugares que ela gostava e ela escolheu a Mata, nos lembraremos para sempre disso”, contou.
A importância ambiental, cultural e paisagística da Mata do Lareira foi assegurada por uma Lei de minha autoria (Lei 11.836) na CMBH, e é também reconhecida pela comunidade, que luta bravamente por sua preservação há mais de dez anos por meio do Movimento Parque do Lareira. O que falta então para que esse espaço se torne definitivamente uma Área de Preservação Permanente (APP) livre da especulação imobiliária?
O que acontece hoje é uma fragilidade jurídica e ambiental que precisa ser resolvida urgentemente. No Plano Diretor de 2013, o espaço constava como Parque Lareira, ou seja, como área de preservação ambiental. Entretanto, após alteração do Plano Diretor em 2018, a área foi loteada para a construção de um condomínio. Em 2019, o espaço foi caracterizado como Zona de Proteção Ambiental 2 (PA2), apresentando-se restrições quanto à ocupação da área e quanto à permeabilidade do terreno, devendo-se manter 50% da área verde, o que abriu precedentes para que o terreno fosse dividido e as construções começassem. No entanto, a Lei 11.836 abre caminhos para a desapropriação da área por utilidade pública e a criação de um parque, porém, precisamos nos movimentar e reivindicar esse espaço tão importante.
O Movimento Parque do Lareira, formado por moradores incansáveis, mantém viva a memória dos tempos do antigo Clube do Lareira. O sonho deles é o meu: ver crianças e idosos ocupando novamente aquele espaço com pistas de caminhada, lazer e saúde. É uma luta pelo direito de pertencer a uma cidade que valoriza a vida acima do lucro imobiliário.
Não descansaremos até que a Mata do Lareira seja, de fato, um parque para todos. Que o Poder Público atualize seus registros, interrompa qualquer degradação e cumpra o seu papel de proteger esse tesouro da comunidade. O verde de Venda Nova pede socorro, e nossa resposta será a resistência firme. Pela nossa história e pelo nosso clima, a Mata do Lareira fica!
Assine a petição e ajude a salvar a Mata do Lareira, clicando aqui.









