“Eu ficava vendo as pessoas presas nos carros nas enchentes, principalmente mulheres e crianças, que são os mais vulneráveis. Se nada fosse feito, a água levaria todos.” Esse é o relato de Marcus Pinto, morador e proprietário de um salão de beleza há 41 anos na rua Doutor Álvaro Camargos, no bairro São João Batista, um ponto crítico de Venda Nova durante o período chuvoso. Cansado de presenciar tragédias diariamente, ele resolveu agir: investiu em um “kit” de salvamento e começou a estudar sobre o assunto. É assim que vivem os moradores da regional, sempre aguardando as próximas catástrofes durante as chuvas. Para mim, enquanto parte do Poder Público, essa situação é inaceitável, e como morador, fico ainda mais indignado.
Marcus me contou que quando a água “sobe” na rua tudo se alaga rapidamente e não dá nem tempo do Corpo de Bombeiros chegar até as vítimas para prestar socorro. O problema é antigo, mas segundo o empresário, se agravou com o processo desordenado de urbanização. “Eu nasci e fui criado aqui. Antes, havia um córrego nessa rua. Agora, com a urbanização, ele foi tamponado e o córrego passa por de baixo da rua. O problema é que depois disso as enchentes mais graves aumentaram, tivemos a primeira em 1997 e a cada ano só aumenta”, disse.
Hoje ele mantém um arsenal próprio para resgates, incluindo cordas, boias e ferramentas. Para o período chuvoso que se aproxima, Marcus demonstra profunda apreensão, motivada pela lentidão das soluções estruturais. “Esperava que as bacias de contenção ficassem prontas neste ano, fiquei cinco anos esperando por isso e as obras estão paradas.”
Ele lembra com tristeza da jovem Anna Luiza Fernandes, de 16 anos, que foi sugada em 2018 por uma galeria aberta após o carro dirigido pelo namorado parar no meio da enxurrada. “Era uma menina aqui da região, ficamos todos muito tristes. Eu sinalizei para ela e o namorado não descerem do veículo, mas estavam muito longe e não me ouviram”, contou.
Essas histórias de Marcus e tantos outros moradores que se arriscam nas chuvas para ajudar o próximo, ao mesmo tempo que me enchem de admiração pela coragem do povo venda-novense, também me preocupam. É inaceitável que a vida dos nossos cidadãos dependa da coragem individual, enquanto soluções estruturais, como as bacias de contenção do Nado, no São João Batista, e Vilarinho, permanecem paralisadas.
Venda Nova no período chuvoso é, infelizmente, uma crônica de promessas não cumpridas. A nossa regional é 186 anos mais velha que Belo Horizonte. Esse fator só reforça a necessidade de estudos constantes, obras complexas para drenagem urbana e um olhar atento às necessidades de uma população que sofre perdas incalculáveis e evitáveis anualmente.
Só falar não adianta e eu sei bem disso. Estou como relator da Comissão Especial de Estudo de Águas Pluviais e Prevenção de Riscos da Câmara de BH, durante este ano, realizamos 35 visitas técnicas e seis audiências públicas, ouvimos a população e mapeamos de forma aprofundada onde residem os problemas de drenagem da nossa cidade. Agora é hora de agir!

Chegamos a uma conclusão incontornável: a segurança hídrica de Belo Horizonte exige a liberação imediata de recursos e a conclusão célere das obras de macrodrenagem, aliadas a um plano de microdrenagem que resgate a permeabilidade do solo e abrace a sustentabilidade.
Entendo que Belo Horizonte também precisa de maior coordenação intermunicipal com os municípios da Região Metropolitana no combate às chuvas, especialmente Contagem, que também enfrenta questões semelhantes. Além disso, é urgente a melhoria contínua da manutenção de galerias, a limpeza eficiente e periódica de córregos e bocas de lobo, e o fortalecimento da fiscalização e da educação ambiental.
Que a coragem e a resiliência dos cidadãos de Venda Nova, como Marcus, sejam a força motriz que nos convida a agir e cobrar incansavelmente por respostas.









