De olho na reeleição, Zema acelera viagens em MG, filma tudo, distribui máscaras e sofre pressão de prefeitos

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Agenda do governador inclui inauguração de posto de saúde (Reprodução/@romeuzemaoficial/Instagram)

 Apesar da pandemia, agravada por atrasos na vacinação, há mais de um mês o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), não para no Palácio Tiradentes, a sede do governo do estado. Entre 27 de maio e 7 de julho visitou pelo menos 18 municípios no interior.

A agenda do governador no período inclui inauguração de posto de saúde, anúncio de construção de ponte e reunião com professores.

Em uma espécie de salvo-conduto por viagens num momento em que a regra é evitar deslocamentos, Zema também distribui máscaras e lembra cuidados contra a Covid a pessoas que encontra durante caminhadas em praças e ruas.

Tudo é filmado e colocado nas redes sociais do governador, que usa equipamento específico para captação dos diálogos que mantém com as pessoas.

O vai pra lá vem pra cá do chefe do Poder Executivo e a preocupação do envio de tudo para as redes sociais mostra que, restando cerca de um ano e três meses para as eleições de 2022, o governador pôs o pé na estrada já pensando em mais quatro anos no comando do estado. Os deslocamentos são feitos de avião e carros oficiais.

Ao mesmo tempo em que viaja, Zema vem sendo pressionado pela Associação Mineira de Municípios (AMM) pelo não pagamento de R$ 6 bilhões em convênios fechados com as prefeituras principalmente na área da saúde.

O governo afirma que os valores referentes ao seu governo, ou seja, aos anos de 2019, 2020 e 2021 estão em dia, e que o passivo é relativo à gestão de Fernando Pimentel (PT), que comandou o estado de 2015 a 2018.

A assessoria do ex-governador afirma em nota que o valor da rubrica “restos a pagar” aos municípios em 31de dezembro de 2018 é bem menor, de R$ 1,4 bilhão. Também diz que a crise financeira que gerou o atraso dos repasses às prefeituras teve origem “nos governos que antecederam Fernando Pimentel”.

Em meio ao empurra-empurra, a cobrança feita pela AMM é um fator de preocupação para a gestão Zema, já que prefeitos são considerados importantes cabos eleitorais sobretudo em disputas para governos de estado.

Ritmo de campanha

Nas viagens de Zema, há a preocupação para que tudo ocorra de modo a evitar acusações de campanha antecipada.
Em Perdões, por exemplo, na região centro-oeste de Minas, onde o governador esteve no dia 1º de julho, Zema, em agenda oficial com líderes locais, afirmou ter necessidade de contato com o mundo real.

“Quando fico lá no meu gabinete trancado, eu tô é ficando alienado do que acontece no mundo real. Então pra mim vir aqui escutar os senhores mesmo que brevemente é muito importante porque me deixa situado sobre o mundo real, sobre aquilo que Minas Gerais precisa. Porque as coisas acontecem nas cidades.”

Na mesma cidade, porém, percorreu o comércio, perguntou a vendedoras como está o movimento e prometeu: “Quero deixar claro que a vacinação está avançando e até outubro vamos estar aí com todo mundo vacinado”.

Empresário, Zema foi eleito em 2018 com fortes críticas ao mundo político. Em giro por três cidades na última semana de junho, Conselheiro Lafaiete, Ouro Preto e Ouro Branco, todas na região central de Minas, falou sobre os cuidados com a Covid.

“Deixar uma máscara aí para lembrar da importância… e vocês estão de parabéns que tá todo mundo usando aí. Na pandemia não vamos facilitar”, afirmou, enquanto distribuía a proteção a moradores em rua de Conselheiro Lafaiete. A agenda na cidade incluiu ainda encontro com professores.

Em todas as filmagens o governador aparece de máscara. Na mesma semana, Zema esteve em Moeda e Belo Vale, também na região Central. Em Moeda entregou um posto de saúde.

Antes, no dia 18 de junho, esteve na cidade de São Francisco, no norte de Minas, para anunciar a construção de uma ponte sobre o rio São Francisco, ligando o município à vizinha Pintópolis.

A ponte faz parte de um pacote de obras viárias prevista por Zema para o norte do estado no valor total de R$ 257 milhões. Os recursos, porém, ainda não estavam garantidos.

Conforme o governo, o dinheiro para as obras sairá do acordo de R$ 37 bilhões fechado pelo estado com a Vale como contrapartida pelo impacto provocado pelo rompimento da barragem da mineradora em Brumadinho.

O termo, no entanto, motivo de embate entre o governo Zema e a Assembleia Legislativa, só ficou pronto para votação em primeiro turno no Plenário da Casa nesta quarta-feira (14). Entre outras cidades visitadas por Zema na região norte estão Januária, Brasília de Minas e Pedras de Maria da Cruz.

Cadê o dinheiro?

Presidente da Associação Mineira de Municípios, Julvan Rezende Araújo Lacerda afirma que Zema começou o pagamento às prefeituras de uma dívida total de R$ 13 bilhões originada antes de seu governo.

O valor é referente a convênios e repasses que o estado deveria ter feito pelo recolhimento de tributos como ICMS e IPVA, impostos que têm parte da arrecadação obrigatoriamente destinada aos municípios.

Dos R$ 13 bilhões, Zema e os prefeitos entraram em acordo para pagamento de R$ 7 bilhões, em 33 parcelas, a partir de janeiro do ano passado, compromisso que vem sendo cumprido, segundo Lacerda.

Mas os R$ 6 bilhões restantes, que o governo afirma serem da gestão Pimentel, seguem sem perspectiva de pagamento. “Não é um problema que Zema criou, mas que foi se agravando no governo dele”, aponta o representante da associação. “Os prefeitos não estão muito satisfeitos.”

Lacerda afirma reconhecer que o governador assumiu um estado em más condições financeiras. “Mas já deu tempo de arrumar a casa.”

A maior parte dos R$ 6 bilhões que permanecem sem pagamento é referente a convênios na área da saúde. “São parcerias, por exemplo, para fornecimento de medicamentos. O estado deveria entrar com uma parte dos recursos e os municípios com outra. Mas os municípios acabaram pagando tudo”, diz Julvan.

O Governo de Minas afirma que, de um total de R$ 7 bilhões, já pagou R$ 4,3 nilhões dentro do acordo fechado com os municípios. Em relação à dívida restante, de R$ 6 bilhões, diz estar em curso negociação envolvendo a associação, o Tribunal de Justiça, o Tribunal de Contas do Estado e conselhos de secretarias municipais de saúde.

Sobre os deslocamentos de Zema, o governo afirma que o governador vai ao interior em compromissos oficiais.
“As viagens fazem parte da agenda do chefe do Executivo para discussão e desenvolvimento de ações, lançamento de programas e inauguração de projetos estritamente de governo, voltados para o desenvolvimento das diferentes regiões de Minas Gerais”, diz o Palácio Tiradentes, em nota.

O texto diz ainda que nas viagens são respeitados todos os protocolos sanitários. Conforme o governo, como forma de reduzir gastos, parte dos deslocamentos do governador ocorrem via terrestre.

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