[Farsa ou Fato] Checamos se o Professor Wendel disse verdade, exagerou ou mentiu

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Professor Wendel é o 3º candidato checado pelo BHAZ (Arte/BHAZ)

Números, dados, milhões, milhares, melhor ou pior da história… Disputa eleitoral é sempre a mesma história: candidatas e candidatos disparam um monte de informação na hora de tentar conquistar o voto e o eleitor fica até confuso. É tudo verdade? Exagerou um pouco – ou muito? Viajou na quantidade apresentada? Pois o BHAZ resolveu tirar isso a limpo!

O portal, o primeiro em Belo Horizonte a criar uma editoria para checagem de fatos – o Farsa ou Fato -, fez um pente-fino nas 15 entrevistas realizadas com todos os postulantes à PBH (Prefeitura de Belo Horizonte). Como as sabatinas duraram mais de 45 minutos e abordaram assuntos diversos, limitamos a conferência para cinco áreas: ECONOMIA, EDUCAÇÃO, SAÚDE, SEGURANÇA e TRANSPORTE.

Todos os posicionamentos de órgãos oficiais procurados para realizar a checagem serão reproduzidos na íntegra ao fim deste texto.

Ah, e não conferimos a viabilidade das propostas apresentadas: apenas dados e informações objetivos já, digamos, consolidados. A ordem de publicação será a mesma das entrevistas, definida em sorteio:

economia farsa ou fato

Na área da ECONOMIA, o deputado estadual e candidato à PBH pelo Solidariedade, Professor Wendel, proferiu duas falas passíveis de checagem.

Crescimento do orçamento

“A nossa proposta é muito simples. É exonerar e buscar o incentivo do IPTU. ‘Mas, e o caixa?’ O caixa nós estamos estudando, a prefeitura cresceu 13% do orçamento. Tem o recurso, tem que cortar no supérfluo”.

Professor Wendel sustentou duas informações na fala: o orçamento da PBH está crescendo e que a última dessas evoluções foi de 13%. O BHAZ analisou o avanço do orçamento ano a ano desde o início da gestão atual, em 2017 – como ainda estamos em novembro, foi usada a LOA (Lei Orçamentária Anual) para 2020.

De acordo com dados registrados no TCE-MG (Tribunal de Conta do Estado de Minas Gerais), Belo Horizonte aumentou a receita ano a ano desde que Kalil assumiu: de R$ 9,7 bilhões, em 2017 para R$ 10,5 bilhões, em 2018; e R$ 12,2 bilhões, em 2019. Mas as despesas, apesar de se manterem estáveis entre 2017 e 2018, subiram em 2019: R$ 10 bilhões para R$ 11,5 bilhões.

AnoReceitaCresc. %DespesaCresc. %
2017R$ 9,7 bilhõesR$ 10 bilhões
2018R$ 10,5 bilhões8,2%R$ 10 bilhões0%
2019R$ 12,2 bilhões16,1%R$ 11,5 bilhões15%
2020*R$ 13,7 bilhões12,2%R$ 13,7 bilhões19%
Dados do TCE-MG e da LOA 2020*


A previsão da LOA para este ano é de novo crescimento tanto de receita quanto para despesas – inclusive, estas teriam um salto proporcional maior do que os ganhos. Vale lembrar que, por ter sido aprovada em 2019, a LOA não leva em consideração os impactos da pandemia. A PBH tem até o fim de janeiro de 2021 para informar se as previsões da lei se concretizaram.

farsa ou fato

De fato, o orçamento da PBH tem crescido nos últimos anos. Mas os 13% citados por Wendel devem ser um arredondamento equivocado da projeção de 12,2% da LOA para a receita neste ano. Além disso, a projeção terá um impacto considerável causado pela pandemia.

Gabinete do prefeito

“Só o gabinete do prefeito tem um custo anual, eu estava estudando o orçamento, de R$ 40 milhões. Se a gente tirar R$ 20 milhões disso aí, olha o quanto dá para fazer”.

Também de acordo com os dados registrados no TCE-MG, de fato, o gasto com gabinete do prefeito Alexandre Kalil no ano passado se aproximou da casa dos R$ 40 milhões. Segundo o portal de transparência do órgão, em 2019, o custo total foi de R$ 38,8 milhões.

Em 2018, o gasto com gabinete de Kalil foi de R$ 37,9 milhões. Já em 2017, ano de sua primeira gestão, o valor foi de R$ 21,7 milhões. Portanto, o custo do gabinete saltou 74% em 2018, em relação ao ano anterior; e subiu 2% em 2019, também comparado ao ano anterior.

farsa ou fato

O candidato provavelmente arredondou a quantia para facilitar a compreensão do eleitor. Como se aproximou muito do valor, trata-se de um FATO.

educação farsa ou fato

Na área da EDUCAÇÃO, o deputado estadual e candidato à PBH pelo Solidariedade, Professor Wendel, proferiu uma fala passível de checagem.

Lista de espera

“A prefeitura diz que 3 mil crianças de 0 a 3 anos estão fora da escola. Pelos dados e pesquisas que fiz, esse número é maior e pode chegar a 5 mil, então a gente tem que ampliar e colocar mais alunos no tempo integral”

De acordo com Professor Wendel, a fila de espera de alunos de 0 a 3 anos em BH é maior do que os 3 mil informados por Kalil. De acordo com o deputado estadual, o número pode chegar à casa dos 5 mil.

No entanto, procurada, a administração municipal afirmou que “existem 181 crianças de 2 anos em toda a cidade esperando vaga e há 1.671 crianças de 0 a 1 ano e 11 meses”. Portanto, de acordo com dados oficiais da PBH, existem atualmente 1.852 crianças de até 3 anos incompletos fora da escola – ou seja, número menor do que o apresentado por Wendel.

Parte da informação foi confirmada pela defensora Daniele Bellettato, que faz parte da comissão montada pelo MPMG (Ministério Público de Minas Gerais), Defensoria Pública e Conselho Tutelar para acompanhar a fila. De acordo com a profissional, quando a atual gestão assumiu, na verdade, a fila era ainda maior.

“Eram mais de 30 mil crianças, mas com o cadastro unificado, caiu para 19 mil, pois existiam muitos cadastros duplicados e outros problemas. Com isso, nós começamos a acompanhar diariamente o trabalho da prefeitura e, hoje, realmente, não existe fila para crianças de 3 a 5 anos”, afirma a defensora.

No entanto, segundo Daniele Bellettato, existe uma fila de espera que se aproxima de 2,2 mil crianças de 0 a 3 anos aguardando vagas, número maior que o informado pela PBH, mas abaixo do que informou o candidato em entrevista.

Importante apenas fazer uma observação: a oferta do serviço educacional para essa faixa etária não é obrigatória, já que, por exemplo, alguns pais optam por não levar os bebês, em fase de amamentação, às escolas.

farsa ou fato

Por conta da discrepância em relação aos dados oficiais, a informação trata-se de uma FARSA.

saúde farsa ou fato

Na área da SAÚDE, o deputado estadual e candidato à PBH pelo Solidariedade, Professor Wendel, proferiu uma fala passível de checagem.

Dívida do hospital

“Eu tava fazendo um estudo, só o hospital Belo Horizonte deve para a prefeitura R$ 40 milhões. E por aí vai… São vários outros hospitais da rede particular que não conseguem hoje pagar os impostos. Por que não transformar essa dívida que está lá e até hoje não foi paga em serviço prestado para a sociedade?”

De fato, existe uma dívida do hospital citado com a prefeitura, ambas as partes confirmaram essa informação. Ao BHAZ, o gestor da unidade hospitalar, Ângelo Marcos de Deus, diz que existe uma negociação, mas que o assunto é sigiloso e, por isso, a empresa não se manifestaria quanto aos valores. “Lamentamos a posição do deputado de expor isso sem nos consultar antecipadamente”, afirma.

A PBH, por sua vez, explica que o Hospital Belo Horizonte “é uma instituição privada, mantida pela empresa Gestho Gestão Hospitalar”. “Essa empresa possui débitos junto à Dívida Ativa do município de Belo Horizonte, especialmente relativos ao ISSQN”, diz, por nota.

Ainda de acordo com a gestão, já existe um acordo para quitação do débito e outra parte ainda depende da Justiça. “Parte da dívida encontra-se parcelada. Entretanto, há débitos em cobrança judicial, mediante ação de execução fiscal, e outros com exigibilidade suspensa em razão de reclamação administrativa em tramitação no Conselho Administrativo de Recursos Tributários do Município”, ressalta.

Por fim, a prefeitura também confirma a informação de que existe um sigilo sobre o tema. “Os valores não são divulgados, pois trata-se de informação sujeita ao sigilo fiscal, conforme artigo 198 do Código Tributário Nacional”, conclui.

inconclusivo farsa ou fato

As partes confirmam que existe uma dívida, mas os valores estão sob sigilo. Portanto, a afirmação do candidato é inconclusiva.

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Na área da SEGURANÇA, o deputado estadual e candidato à PBH pelo Solidariedade, Professor Wendel, não proferiu fala alguma passível de checagem.

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Na área do TRANSPORTE, o deputado estadual e candidato à PBH pelo Solidariedade, Professor Wendel, não proferiu fala alguma passível de checagem.

Notas na íntegra

Confira as respostas dos órgãos oficiais na íntegra:

Respostas da PBH

Fila de espera

Sobre a cobertura do atendimento de 0 a 3 anos na cidade de Belo Horizonte, conforme auditoria realizada pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, dados do censo, IBGE e IPead, a cobertura hoje está em 74,03%. Hoje não há crianças de 3 a 5 aguardando vagas. Todas foram atendidas.

Existem 181 crianças de 2 anos em toda a cidade esperando vaga e há 1.671 crianças de 0 a 1 ano e 11 meses. Portanto, ultrapassamos a meta de 50% que estava prevista para 2024 no plano municipal de educação. Como o atendimento nesta etapa não é obrigatório e nem todos os pais optam por levar bebês em fase de amamentação para a escola, considera-se praticamente universalizado o atendimento, com 1.671 matrículas que estão em curso, dependendo da finalização de obras e credenciamentos já em andamento”.

Hospital Belo Horizonte

“O Hospital Belo Horizonte é uma instituição privada, mantida pela empresa Gestho Gestão Hospitalar. Essa empresa possui débitos junto à Dívida Ativa do município de Belo Horizonte, especialmente relativos ao ISSQN. Parte da dívida encontra-se parcelada.

Entretanto, há débitos em cobrança judicial, mediante ação de execução fiscal, e outros com exigibilidade suspensa em razão de reclamação administrativa em tramitação no Conselho Administrativo de Recursos Tributários do Município. Os valores não são divulgados pois trata-se de informação sujeita ao sigilo fiscal, conforme artigo 198 do Código Tributário Nacional”

Edição: Thiago Ricci
Rafael D'Oliveirarafael.doliveira@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde janeiro de 2017. Formado em Jornalismo e com mais de cinco anos de experiência em coberturas políticas, econômicas e da editoria de Cidades. Pós-graduando em Poder Legislativo e Políticas Públicas na Escola Legislativa.

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