Em Brumadinho ‘é dia 25 todo dia’: A busca pelas joias e a importância de se lembrar

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Familiares de vítimas do rompimento prestam homenagem em Brumadinho (Moisés Teodoro/BHAZ)

“Quando alguém que você ama se torna uma memória, a memória se torna um tesouro, uma verdadeira joia”. Esta foi a frase que encerrou a cerimônia de homenagem às vítimas do rompimento da barragem de Brumadinho, realizada hoje (25), exatos dois anos após a tragédia. A sentença explica a adoção da palavra “joias” para se referir às vítimas, mas mostra também a força e a importância da memória, a importância de se lembrar. E, na Brumadinho que segue lutando contra o trauma trazido pela lama, tudo lembra alguma coisa.

As cruzes colocadas no chão, as flores deixadas na entrada da cidade e as camisas com centenas de rostos lembram as 272 vidas perdidas. A oração no início da cerimônia lembra que centenas de familiares, espectadores da tragédia, seguem buscando algum tipo de consolo e justiça. O choro de um bebê e o barulho de um caminhão – único som ouvido durante o minuto de silêncio em homenagem às vítimas – também entregam uma região marcada pela mineração e pela dor gravíssima causada por ela.

Walisson está entre as vítimas do rompimento em Brumadinho (Moisés Teodoro/BHAZ)

“A lembrança é dele sempre muito alegre. A dor é o que a gente vive hoje, mas ele sempre foi muito alegre, muito presente na família, tocava violão, cantava com todo mundo”, conta Maria José Paixão, mãe de Walisson Eduardo Paixão, que morreu no rompimento da barragem. Ela conversou com o BHAZ ao lado da cruz com o nome de Walisson e contou que, além do filho, aquele 25 de janeiro de 2019 ainda a tirou toda a felicidade que a família associava tão intimamente a ele: “Era muita alegria, ele chegava e aí aquele lugar ali era só alegria…”.

‘É dia 25 todo dia’

Este foi o primeiro evento em homenagem às vítimas a que Maria José compareceu. O filho, mesmo não estando mais aqui, foi quem a encorajou. “Eu nunca tinha vindo nessas reuniões, o tempo todo eu passei em casa, deitada, chorando, lamentando a morte dele. Mas aí eu falei ‘eu vou levantar e vou, porque se ele estivesse aqui, ele não ia querer que eu estivesse desse jeito’”, conta.

E, numa prova viva de amor sem limites, a mera lembrança do filho deu consolo à mãe. “Eu achei melhor eu estar aqui, porque o tempo todo que eu passei em casa foi deitada sozinha. Hoje eu estou aqui, reunida com todo mundo, num sofrimento só e no mesmo pensamento”, lembra. O sofrimento compartilhado também alivia a mãe de uma outra vítima, que pediu para não ser identificada.

Ao BHAZ, a mulher contou que é nos momentos em que se encontra com outros atingidos que consegue sentir mais conforto. “Fora isso, a minha vida é dia 25 todo dia. Todo dia eu acordo e revejo o que aconteceu, não tem sossego”, lamenta. O desejo dela, assim como o de todos os outros familiares, é dignidade: “A gente quer justiça. Eu quero que o meu filho seja respeitado, que a morte dele não seja esvaziada”.

‘A dor não passa’

Na Base Bravo – centro de operações do Corpo de Bombeiros, onde foi realizada a cerimônia de homenagem – os relatos dos familiares se misturam com as experiências dos bombeiros em um lugar que ilustra o capítulo mais triste da história de Minas. O próprio caminho até o local já é uma lembrança incontestável – as placas de “ponto de encontro” e “rota de fuga”, que se tornam mais frequentes à medida em que pedestres e motoristas se aproximam da mina, lembram que aqueles que sobreviveram também não têm paz. Já da entrada da cidade até a base de operações, tudo é coberto por uma camada marrom, de poeira ou lama, como uma forma silenciosa de mostrar que a vida ali pertence à mineração – e a morte também.

Apesar do tempo e da dor, é justamente a lembrança que faz os familiares encontrarem forças para fazer a vida seguir. É o caso de Adna Paixão, irmã de Walisson, que conseguiu encontrar o irmão em pequenos fragmentos de vida desde que foi separada dele. “A dor não diminui, mas a gente tem lembranças. Ele deixou três filhos e eu acho que eles também ajudam. Você vai vendo aquilo e vai criando esperança. Os meninos são iguaizinhos, a gente vê muito ele nos meninos”, conta ao BHAZ.

Tragédia sem fim

Sob a tenda da base, familiares ficaram de pé e prestaram continência como forma de estender aos bombeiros um agradecimento que palavra nenhuma consegue alcançar. Do lado de fora, o sol, que foi tão necessário à continuidade das buscas pelos que morreram, ardia nas fardas dos militares, que foram ao local consolar os que ainda vivem.

Enquanto olhares se viravam para o alto para acompanhar a chuva de pétalas de rosas feita por um helicóptero dos bombeiros, ficou claro que dois anos ainda não foram suficientes para medir tudo o que se perdeu em 2019.

Além de tirar 272 vidas, a lama de rejeito arrastou futuros, afetos, lembranças e histórias que não puderam ser escritas. Aos que ficaram, ela impôs uma dor que vai além da compreensão humana – porque, como diz a música tocada diante dos sobreviventes que prestavam homenagem aos entes queridos: “Sim, todo amor é sagrado”.

Edição: Roberth Costa
Giovanna Fávero
Giovanna Fáverogiovanna.favero@bhaz.com.br

Editora do BHAZ desde julho de 2021 e repórter desde 2019. Graduada em jornalismo pela PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais).

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