Abusador não tem ‘cara’: Entenda como prevenir, identificar e denunciar abusos infantis

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Delegada esclarece que pais e responsáveis devem se atentar às linguagens corporais das crianças (FOTO ILUSTRATIVA: Unsplash)

A repercussão negativa de um vídeo publicado no Instagram de Wesley Safadão voltou a trazer à tona o debate sobre os riscos aos quais as crianças são expostas diariamente. As imagens, que mostram o pastor André Vitor tentando abraçar uma criança por trás, geraram revolta em milhares de brasileiros, dividiram opiniões e voltaram os holofotes para um tema delicado: o abuso infantil. Diariamente, são centenas de casos reportados – boa parte deles, praticados por pessoas próximas às vítimas, o que apenas comprova a complexidade do problema que muitos ainda insistem em minimizar.

Uma cartilha atualizada recentemente pelo governo federal mostra que, apenas em 2020, o Disque 100 teve 95,2 mil denúncias de violência contra crianças e adolescentes. Os registros corresponderam a mais de 368 mil denúncias e incluem, além de abuso sexual, estupro e exploração sexual, violência física e psicológica. Os dados são da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos.

De acordo com a cartilha, de 2011 ao primeiro semestre de 2019, foram registradas mais de 200 mil denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes no Disque 100. “Considerando o fato de que pesquisas afirmam que apenas 10% dos casos são notificados às autoridades, somos impactados com a impressionante cifra de mais de 2 milhões de casos neste período em nosso país”, aponta o material.

dados violência contra crianças 2020
Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos/Divulgação

Vítimas vulneráveis

Em conversa com o BHAZ nesta terça-feira (27), a Delegada Iara França Camargos, da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente de Belo Horizonte, alerta que o abusador infantil não tem “cara”. E é justamente essa ausência de sinais que dificulta o processo de denúncia, já que o criminoso pode ser, como acontece na maioria dos casos, alguém “de confiança” da família ou até mesmo um familiar.

“A gente normalmente não tem nenhuma pista sobre o autor e é aí que mora a dificuldade. Ele pode ser uma pessoa super bem quista, conhecida e respeitada, e ao mesmo tempo também pode ser alguém mais humilde. Fatores financeiros ou sociais não são determinantes, nosso papel é investigar qualquer indivíduo sob suspeita”, explica a delegada.

Há pouco menos de uma semana, mais um caso que ilustra justamente essa dificuldade foi detectado em Minas Gerais. Na última quarta-feira (21), a Polícia Civil prendeu, por abuso de crianças, um homem que era considerado confiável por pais e familiares das vítimas. As investigações começaram após o neto do suspeito, um garoto de apenas 9 anos, contar das violências ao pai e dizer que “não aguentava mais” (veja aqui).

Inimigo mora ao lado

Conforme pontua a delegada, nesse tipo de crime, o agressor vai abordar crianças que se aparentam mais “indefesas”, ou seja, aquelas que não possuem uma rede de apoio segura para relatar os abusos. “O abusador normalmente procura a vítima mais vulnerável e vai ganhando a confiança até chegar em um abuso mais intenso. Mesmo que a criança não saiba o que é aquilo, ela vai se sentir incomodada, vai perceber que aquele toque não é normal”, afirma Iara.

Os mesmos traços são ressaltados pela cartilha do governo federal. Em uma seção exclusivamente dedicada a detalhar o perfil de autores de abuso infantil, o texto afirma que é comum haver a “existência do ‘elo de confiança e responsabilidade’ unindo a criança à pessoa do agressor”. A cartilha cita ainda a “traição da confiança” como um dos aspectos mais marcantes desse tipo de violência.

O documento ainda traz diversas orientações, mitos e verdades sobre o assunto, informações sobre legislação e detalhes sobre perfis comumente identificados em vítimas e autores. Para acessar a cartilha na íntegra, basta clicar aqui.

Diálogo é fundamental

Para a titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, a principal forma de se prevenir abusos infantis é manter uma comunicação aberta com a criança. Isso porque, quanto mais ela conhece o próprio corpo e seus limites, menores as chances de o crime persistir. Além disso, o canal de comunicação aberto facilita a identificação das violências.

“É preciso manter um dialogo aberto com os filhos sobre sexualidade desde a mais tenra idade. Não se deve tratá-la como tabu, porque é exatamente nesse ponto que o abusador vai pegar. Os pais devem esclarecer o que são as partes íntimas, quem pode pegar, quem pode dar banho… Esse processo de ’empoderar’ a criança é que vai fazer a diferença e cessar a progressão dos abusos”, explica Iara.

É importante, também, que as crianças se sintam seguras para se abrir com os pais. Para isso, a delegada esclarece que é fundamental que os responsáveis ouçam tudo o que seus filhos têm a dizer, sem julgamentos e questionamentos.

Atente-se aos sinais

Decifrar os sinais deixados pelas crianças nem sempre é uma tarefa fácil. Iara França esclarece que cada criança ou adolescente, vítima de abuso, se comporta de maneira diferente. É importante que os pais ou responsáveis se atentem a todas as mudanças e às linguagens corporais, já que nessa faixa etária os filhos têm mais dificuldade de verbalizar o que estão sentindo.

“Geralmente a criança tem muita dificuldade de fingir linguagem corporal, então de alguma forma ela vai demonstrar que não esta bem. Algumas crianças começam a urinar na cama, outras ficam mais apegadas aos pais, algumas ficam deprimidas e ‘chorosas’. Elas vão mostrar através de sinais que algo está incomodando”, explica a delegada.

Em caso de suspeita de que o menor esteja vivendo esta situação, é necessário ainda mais cautela para ganhar a confiança e conseguir denunciar.

“Ao menor sinal de abuso, se há qualquer suspeita, não se deve ficar questionando a criança, nem repetindo o que aconteceu. Também não é aconselhável contar para outras pessoas do convívio, a única solução é ir fazer a denuncia por meio de qualquer canal para relatar essa suspeita”, orienta Iara.

Onde denunciar?

Caso você descubra um caso de violência contra crianças ou conheça alguém que precisa de ajuda, é possível denunciar nos seguintes canais:

  • Disque 100;
  • Disque 181;
  • Disque 180;
  • 190 – Polícia Militar;
  • 197 – Polícia Civil;
  • Conselhos Tutelares (em Belo Horizonte, os endereços podem ser consultados no site da prefeitura);
  • Delegacias de Polícia.

Edição: Giovanna Fávero
Larissa Reis
Larissa Reislarissa.reis@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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