Morreu na noite desse domingo (2) o cantor e compositor Lô Borges, aos 73 anos. Mais de meio século de carreira marcaram o nome do artista na história da música popular brasileira. O mineiro ficou conhecido no Brasil e no mundo pela genialidade e parceria com Milton Nascimento. Juntos, fundaram o Clube da Esquina, grupo responsável por transformar a musicalidade da década de 1970. Lô e Bituca compartilhavam uma admiração mútua e, ao longo dos anos, desenvolveram uma relação profunda de irmandade.
Milton Nascimento e Lô Borges se conheceram nas escadarias do Edifício Levy, na avenida Amazonas, no Centro de BH. Naquele momento, Lô tinha dez anos de idade e ouviu Milton, de 20, cantando e tocando violão. Diante do encanto, aproximou-se de Bituca, que vinha de Três Pontas, no Sul de Minas, e se tornaram amigos.
Em entrevista para o programa ‘Conversa com Bial’, da TV Globo, em 2023, Lô contou: “Aos meus dez anos de idade, aconteceu muita coisa, eu conheci o Bituca. ‘Você gosta de música, né, menino? Você gosta de música, né?’ Eu falei que meus irmãos e meus pais adoravam e tocavam música. Ele fala assim: ‘eu acho que eu conheço algum dos irmãos mais velho. Estou para ir na sua casa. Eu conheço seus irmãos’. Aí ele passou a frequentar minha casa. Eu costumo dizer que é difícil de esquecer”.
Nos anos seguintes, Nascimento desenvolveu a carreira, lançou o primeiro disco: ‘Travessia’, em 1967, e alcançou projeção nacional. Carioca com alma de mineiro, Milton recorrentemente retornava à capital mineira e buscava se encontrar com Lô e com os outros irmãos Borges, Marilton e Márcio.
O primeiro violão que Lô ganhou, aos 13 anos, foi dado por Bituca. Uma das atividades favoritas da dupla era criar e tocar canções na esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis, no bairro Santa Tereza, zona leste da cidade. Lô mantinha o hábito mesmo quando o amigo estava em outro estado. No lugar, nasceram grandes composições do repertório dos dois artistas.
Aos 17 anos, Lô apresentou a Milton as linhas de ‘Para Lennon e McCartney’. Encantado, o cantor de ‘Travessia’ gravou a faixa, que se tornou um dos grandes sucessos da carreira de Bituca, em 1970.
Dois anos depois, em 1972, veio o convite que mudaria a vida do mais novo: gravar um álbum de estúdio com Milton. A ideia era homenagear o grupo de amigos, que se reuniam na rua. Lô aceitou e foi morar no Rio de Janeiro, ao lado do amigo.
Considerado inexperiente pela gravadora EMI, Lô quase ficou de fora das gravações. Milton insistiu e fez com que os executivos enxergassem todo o talento do garoto de 19 anos. Juntos, gravaram faixas marcantes como ‘O Trem Azul’, uma das favoritas da carreira do próprio Lô e parte da nova produção da dupla.
‘Sou do mundo, sou Minas Gerais‘
‘Clube da Esquina’, álbum colaborativo dos dois artistas, foi lançado em 1972. É considerado uma das principais gravações da música popular brasileira e é, até hoje, responsável por influenciar gerações. O trabalho já foi eleito o sétimo melhor disco brasileiro pela revista Rolling Stone.
A partir deste lançamento, o artista deslanchou trabalhos solos e colaborativos. Ele ficou conhecido em todo o país pela genialidade e profundidade das composições. Lô cantou, trocou e se divertiu com Milton Nascimento. Em entrevista ao Canal Brasil, em 2015, descreveu a relação fraternal:
“Desde aquele encontro mágico na escadaria do edifício Levy, ele com violão e voz, desde lá, nossa amizade só se faz crescer. A gente tem uma coisa de amor, de irmão. Estar com o Bituca é uma coisa fundamental para mim”, contou.
Em publicação nas redes sociais, nesta segunda (3), Milton Nascimento e equipe lamentaram a morte do amigo e falou sobre a importância do cantor na vida dele. “Lô Borges foi – e sempre será – uma das pessoas mais importantes da vida e obra de Milton Nascimento. Foram décadas e mais décadas de uma amizade e cumplicidade lindas, que resultaram em um dos álbuns mais reconhecidos da música no mundo: o Clube da Esquina. Lô nos deixará um vazio e uma saudade enormes, e o Brasil perde um de seus artistas mais geniais, inventivos e únicos. Desejamos muito amor e força à família Borges, a qual acolheu Bituca em sua chegada a Belo Horizonte, lá nos anos 60 e, principalmente, ao seu filho Luca. Descanse em paz, Lô”, escreveu.

Discografia
Nascido no dia 10 de janeiro de 1952, em Belo Horizonte, Lô fundou o Clube da Esquina ao lado do cantor e compositor Milton Nascimento e do irmão Márcio Borges. O movimento, que ganhou destaque na música popular entre as décadas de 1970 e 1980, foi batizado em referência ao disco homônimo de 1972. Entre as referências estavam o rock, o jazz, a bossa nova, a música psicodélica e as tradições mineiras.
Em 2024, o álbum ficou entre os dez melhores discos de todos os tempos, em lista criada pela revista norte-americana Paste Magazine. E, em 2022, foi eleito o melhor da história da música brasileira pelo podcast Discoteca Básica.
O Clube da Esquina surgiu entre as ruas Paraisópolis e Divinópolis, no bairro Santa Tereza, na região Leste de BH. O local ficava a poucos passos da casa da família Borges. O movimento musical contou com nomes como Toninho Horta, Beto Guedes, Fernando Brant, Wagner Tiso, Tavinho Moura e Ronaldo Bastos, e ficou eternizado por sua inovação e influência. Em 1978, o grupo lançou o segundo disco ‘Clube da Esquina 2’.











