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MCP (Movimento Cultural Periférico): A arte gera emprego e renda em BH

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Eles foram de Hollywood a “Marte”, mas não foram sozinhos. Ele foi até a Times Square, mas não foi só. Ela tocou no maior palco de música de Minas Gerais e também não chegou lá sozinha. Ele alcançou milhões nas redes sociais e não o fez só. Ele esteve na final da Champions League, e, não, também não esteve só.

Parece ostentação e talvez até seja. Mas eles avisam que não chegaram lá sozinhos, qualquer que tenha sido o “lá”: estádios lotados, título de melhor do mundo, milhares de views e plays nos principais tocadores de áudio e vídeo.

Gustavo Pereira Marques, o Djonga, alçou espaços inéditos por meio de versos provocativos, sempre acompanhado da sua galera. E que galera. São mais de 70 pessoas com ele em sua produtora. 

“Sem desmerecer ninguém”, mas cobrando respeito, ele narra as vivências na quebrada, os sonhos e desafios do menino que queria ser Deus enquanto era rotulado como ladrão. Hoje, é dono do seu lugar.

Pode soar apenas como um trocadilho com os títulos dos álbuns de quem hoje é ídolo dos pioneiros, mas na terra em que floresceram Milton Nascimento, Sepultura e Skank, brotou Djonga, que semeia o coletivo e impulsiona a arte e cultura do Serrão, o Aglomerado da Serra, a maior favela de Minas Gerais, para o mundo.

E ele não faz isso sozinho: é o poder do coletivo. Nas palavras do próprio, “lutando para favelado, junto, ser empresa”.

O Dono do Lugar, último álbum de Djonga, foi divulgado na Times Square, em Nova York (Reprodução / Djonga)

Lado a lado com Djonga, na DV Tribo, o rapper Fabrício FBC é outro que despontou nos últimos anos, atingiu o sucesso nas paradas, mas sem se esquecer das origens. É do Cabana do Pai Tomás, outra ‘quebrada’ de BH, que o autor do hit “Se tá Solteira” mantém a sua base e tira inspiração para suas músicas.

Assim como os dois, outros nomes das periferias de Belo Horizonte e da região metropolitana têm se destacado e impulsionado a economia do setor cultural. Todos os dias, ressignificando o senso comum. 

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 3% dos domicílios de Minas Gerais estão nas favelas. O número representa mais de 231 mil casas na capital e no interior. Em Belo Horizonte, mais de 12% das moradias estão nessas localidades. 

De acordo com dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), 2,91% do PIB do Brasil em 2020 estão ligados à chamada economia criativa. O termo remete ao conjunto de opções de mercado que se utilizam da criatividade, do capital intelectual e da cultura, para gerar valor econômico.

Um dos pilares é a cultura, englobados aí música, artes cênicas, audiovisual e outros. A coordenadora nacional de Economia Criativa do Sebrae, Denise Marques, classifica o ramo como forte gerador de emprego e renda, mas considera que o setor tem o desafio de compreender esse aspecto, principalmente quando se trata de artistas vindos da periferia.

Dados do IBGE mostram que a indústria cultural empregou quase 5 milhões de pessoas em 2020, ou seja, um total de 5,6% do total da população ocupada no Brasil. Isso no auge da pandemia e com vários serviços impossibilitados de serem prestados.

“Eles geram renda, mas não sabem que geram renda. Na verdade, eles não se enxergam como negócio. Muitas vezes, por não acreditar que aquela arte que eles estão realizando pode ser uma fonte de renda”. A afirmação não diz respeito a  artistas com a carreira no patamar de Djonga e os demais já citados aqui, mas à cadeia produtiva, em geral.

Gabriela Chaves, economista da NoFront, plataforma de empoderamento financeiro, enxerga que “o fortalecimento econômico promovido pelos artistas periféricos em suas comunidades é reflexo de como podemos pensar em políticas de descentralização de recursos da cultura”.

Para ela, é crucial valorizar a dimensão econômica da cultura e seus impactos na geração de emprego e renda. “Sobretudo nos últimos anos de pandemia, conseguimos ver o quanto a cadeia da cultura emprega muitas pessoas. Além disso, vimos que a drenagem de recursos dessa indústria tem um impacto muito grande na vida de muitas famílias”, avalia.

Na música “Bença”, o rapper Djonga canta: “Irmão, você lembra de onde cê vem? E quando você chegar lá, o que cê tem vai voltar pra onde cê vem?”. E ele parece buscar, incessantemente, responder “sim” a essa pergunta. 

Volta e meia, o cantor mineiro não só expressa a gratidão e o retorno para suas origens, mas também coloca esse pensamento em prática ao gerar dezenas de empregos, de maneira empreendedora. 

Equipe e família de Djonga são essenciais para que o rapper faça tudo acontecer (Jonas Rocha/BHAZ)

Segundo a economista, essa visão de artistas, como Djonga, vem desde o nascimento do próprio ritmo musical. 

“Dentro da comunidade negra, você tem confrarias e articulações de pessoas negras visando auxílio mútuo desde a época de pré-abolição da escravatura. Rap, samba e funk são movimentos de origens periférica e negra. Esse sentido de cooperação sempre existiu. A grande questão é que a indústria sempre limitou o acesso de pessoas pretas e periféricas a um espaço do mainstream da cultura nacional”, apresenta. 

De acordo com Chaves, uma boa gestão financeira pode fazer a diferença na vida dos artistas e das pessoas à sua volta. “Esse cuidado de repartir o que foi conquistado dentro da comunidade é um movimento de gratidão, que faz parte da ética praticada dentro das regiões periféricas”.

A presidente do diretório de Mulheres da Central Única de Favelas (Cufa), Patrícia Alencar, considera que é preciso “apertar o play” para incentivar o setor. “São manifestações que vêm desse DNA da favela e, uma vez que são incentivados e que têm motivações financeiras, conseguem atingir uma cadeia produtiva muito extensa”.

Ela cita, como exemplo, o impacto do samba depois que deixou de ser um ritmo estigmatizado. “O samba estava dentro das cozinhas da favela, era extremamente marginalizado. Quando ele desce para o asfalto e toma outro corpo, passa a ser aceito porque uma parcela da sociedade branca passa a aceitar o samba. Assim foi com o funk, enquanto eram os MCs e as MCs de dentro da favela somente cantando e, enquanto não desceu para o asfalto e alguém ali deu o aval, foi extremamente marginalizado. Hoje, não tem uma festa de uma classe média alta que não toque um funk que venha da favela. Muitos até vão cantar ‘eu sou preto, favelado’”

Em resumo, eles fazem, de seus talentos, catalisadores de emprego e renda, fortalecem suas comunidades e criam suas próprias narrativas. 

E é isso o que também têm feito os amigos André, Gabriel, Maurílio e Thiago, da produtora Filmes de Plástico, de Contagem, e os rappers MC Anjim e L da Vinte. E mais deles estão por vir.

O dono do lugar

O “neguin” mudou de vida, mas, na hora de conjugar o verbo, escreve nós, e não eu, por não acreditar que se nasce e morre sozinho. Foi assim que surgiu a Quadrilha, produtora cultural de Djonga que atende ao próprio sócio e a outros dez artistas.

O movimento traduz o poder da cultura para gerar receita e, no caso deles, de como essa receita pode ajudar a pessoas de uma comunidade.

Rapper Djonga
Rapper Djonga leva o Serrão para o mundo (@coniiin/Divulgação)

Rosângela Pereira, mãe de Gustavo e diretora administrativa e financeira da Quadrilha, também tem o desafio de empregar a ideologia das letras do filho na empresa. 

Ele abriu A Quadrilha para dar oportunidade aos artistas mineiros. Para ter visibilidade aqui em Belo Horizonte. A gente vê que no Rio e em São Paulo isso bomba né? Aqui em Belo Horizonte são poucos artistas que ficam. Quando eles crescem, saem daqui para poder ter um nome”, conta Rosângela sobre a proposta de Djonga, que, além dos músicos, emprega 70 pessoas, entre produtores, assessores, seguranças, fotógrafos, motoristas, videomakers e outros profissionais.

As palavras da mãe podem ser traduzidas pelo hip hop, nos versos do filho, na música Hat Trick: “Pra nós ter autonomia, não compre corrente, abra um negócio / Parece que eu tô tirando, mas na real tô te chamando pra ser sócio / Pensa bem, tirar seus irmãos da lama, sua coroa larga o trampo / Ou tu vai ser mais um preto que passou a vida em branco?”.

Formada em contabilidade e com mais de 20 anos de experiência na UFMG, a mãe, que um dia questionou os rumos do filho na música por ele ter que largar o curso de história numa universidade federal, diz sentir orgulho da humildade de sua cria.

“Ele é um artista que não nasceu para ganhar dinheiro. Ele veio ao mundo para ajudar as pessoas. Ele é a avó dele de novo”, diz a mãe de Djonga.

Nessa lista dos que Djonga leva consigo, estão familiares e companheiros de bairro “dos tempos do rap sem grana e sem glória”, como o primo dele, Pedro Marques, e o amigo Léo Gordo.

Léo foi convidado por Gustavo para deixar a cozinha do restaurante onde trabalhava e integrar a equipe do rapper como segurança, profissão que, entre tantas outras, ele já tinha experiência. “Eu já fui de tudo um pouco na minha vida. Já fui camelô, cambista, segurança, cozinheiro, tudo!”.

Hoje, ele está com Djonga pra cima e pra baixo – até participando da abertura de uma música – e, apesar de ser sua profissão, o laço criado entre eles torna tudo mais leve, segundo o próprio Léo. “Não tem preço. Nem nos meus melhores sonhos. É um trampo da hora. Eu não sinto que é um trabalho, para te falar a verdade”, conta.

Léo Gordo é amigo ‘de bairro’ do rapper (Jonas Rocha/BHAZ)

Com o primo Pedro Marques, não foi muito diferente. Ele nunca tinha trabalhado com música antes, e, num belo dia, Djonga o convidou para integrar a equipe.

O rapper disse precisar de um produtor técnico na equipe, mas Pedro não tinha nenhuma experiência na área. Foi então que Djonga decidiu pagar um curso para o primo, que se empolgou com a ideia. 

“Falei: ‘Vamos cair para dentro, estudar, aprender e tentar exercer da melhor forma’. Nesse tempo, fui aprendendo tantas outras coisas, que a produção técnica acabou virando um ‘bagulho’ meio que natural”.

Hoje, ele é responsável por conferir as dimensões do palco, configurações de som e luz e cuidar dos efeitos artísticos no show. E é mais um empregado da indústria cultural periférica de Belo Horizonte.

Para Pedro, a oportunidade de trabalhar com Djonga significou uma mudança na sua carreira. “O que ele me deu não foi só uma oportunidade, ele me deu uma profissão. Então, eu quero continuar nesse ramo de eventos, fazendo direção técnica, direção de palco, focando nisso”.

Uma nova esquina

Fabrício Soares é expoente de um movimento orgânico da cena cultural periférica de Belo Horizonte: o Duelo de MCs, criado há 15 anos na capital. Sem apoio do poder público, eles ocuparam as ruas da cidade para mostrar seus talentos.

Embaixo do Viaduto Santa Tereza, nascia FBC, o mais talentoso deles ou, pelo menos, o mais vitorioso dos duelos. 

Do Cabana para o Brasil, FBC estourou com Se tá Solteira (Jonas Rocha/BHAZ)

Quase dez anos depois, ao longo de 2022, o artista fez 140 shows pelo Brasil. Com ele, pelo país, são ao menos seis pessoas trabalhando a cada evento.  

Colados, a cantora Iza Sabino e o DJ Cost, que está com FBC há 10 anos e é seu produtor, acompanham o rapper por aí.

“De tudo o que ganhei, as pessoas falam assim: ‘Pô, FBC, você ficou rico!’. Eu não fiquei rico, consegui dar oportunidade para oito pessoas, não é muita gente, não vai mudar o mundo, mas também não é mudar o mundo que eu quero. Só quero as pessoas ao meu redor bem. Se ao meu redor estiverem bem, com certeza ao redor dos que estão bem outros vão ficar bem”.

Outra forma que o artista encontrou para contribuiu com o desenvolvimento financeiro ao seu redor é apoiar as marcas de BH através do consumo. “Seja o que for que a galera estiver fazendo e eu conheça, eu apoio comprando, apoio indo no restaurante da galera, apoio pedindo a comida da galera”.

“Hoje, já entendo que sou uma pessoa um pouco conhecida em BH. Vou ao Mercado Central e não consigo comer um pastel”, brinca FBC.

“Então, sei que, se eu for ao lugar, vai ser bom para a galera. E eu faço isso. Uso a roupa da galera, gosto de comprar, é a mesma coisa que faço aqui no morro”.

Com inúmeras músicas que tratam das diferenças sociais e de consciência de classe, FBC aplica os próprios conceitos em sua vida pessoal quando reconhece a importância de gerar renda para os moradores do morro onde vive.

No Cabana mesmo, um lava a jato usa o apelido de FBC, Padrim, mas ele não ganha nada com o estabelecimento. “Não é meu, só empresto o nome para o pessoal. Todo o dinheiro que eles ganham ali é deles. Comigo é só o compromisso de não dar ‘mole’, fazer o trabalho certo, tratar as pessoas bem”.

Max Müller, vizinho de FBC e atualmente à frente do lava a jato, reconhece o impacto positivo que o músico causa. “Ele ajuda financeiramente e influencia também, por causa do nome dele, porque, querendo ou não, o FBC ganhou uma fama e, através dele, muita gente vem lavar os carros aqui com a gente”, conta Max, que ainda presta serviço de motorista para o rapper em algumas viagens. “Não é um dinheiro fixo, mas, querendo ou não, ajuda”.

FBC também tem o próprio estacionamento e lava a jato, no bairro Floresta, além de uma camisetaria. O dinheiro conquistado na música é reinvestido em outras formas de se ganhar dinheiro.

Um dos aprendizados de FBC é que não é preciso ter vergonha de ganhar dinheiro, um sentimento que ele enxerga em muita gente da periferia, como ressaltado acima pela coordenadora de Economia Criativa do Sebrae.

Sabendo disso, o rapper procura ser exemplo para as pessoas ao seu redor, mostrando que elas podem melhorar suas condições de vida por meio do trabalho.

E a inspiração vem da própria família. “Minha mãe acorda às 5h para fazer faxina. Sai lá de Mário Campos para fazer faxina no Buritis. Então, quem sou eu para não estar acordado antes dela? Tudo o que conquistei ninguém me deu. Construí, fui acordando todo dia e trabalhando na internet e divulgando meu som”.

O sucesso de FBC e Djonga é reflexo de uma cena do movimento hip hop construída em Belo Horizonte, na última década, que tem o Duelo de MCs como vitrine.

O festival é transformado em um catalisador de talentos a partir das seletivas e das disputas de rimas entre pessoas de todas as partes da cidade e até de fora do estado. É de lá que também saiu Thaís Aparecida Pires Alvim, conhecida como DJ Kingdom.

Nascida e criada em Contagem, a professora de educação física começou a acompanhar as batalhas no Viaduto Santa Tereza, há quase uma década, e “largou tudo” para se tornar DJ e viver da música.

Aos 33 anos, Kingdom tem duas filhas e respira a arte periférica da região metropolitana de Belo Horizonte. “Tô na área do rap desde criança, porque meus pais sempre consumiram a black music e é um polo muito forte aqui onde eu moro”, conta. 

Ao longo da carreira como educadora, ela até tentou se desvincular da música. Mas a paixão foi mais forte  e, como ela própria descreve, o hip hop acabou voltando para sua vivência por diversas vezes.

Antes do Duelo, Kingdom nunca havia subido em palcos maiores. A primeira vez discotecando, no evento, foi uma virada de chave que abriu, inclusive, portas que hoje possibilitam um sustento 100% vindo da música. 

Ela já fez e segue fazendo parcerias com nomes como Vhoor, Bebela Dias e Linguini. E foi ao lado de D.A.N.V e Kramer, com o projeto Baile Room, que DJ Kingdom tocou no Mineirão em agosto de 2022, no festival Sarará.

“Sem esse encontro, a gente não cria pontes, a gente não se conecta. Eu acho que faz muito sentido o Duelo existir e fazer com que o hip hop respire, pra gente continuar tendo conexões. E, criando conexões, a gente vai se tornando um movimento cada vez maior e imparável”, diz.

DJ Kingdom pontua que a economia local é impactada pelo Duelo de MCs, desde os vendedores até o momento da batalha em si. Além do duelo oficial, muita gente forma “rodinhas” para rimar entre si e, quem sabe, alcançar o próprio espaço em cima do palco.

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Para Kingdom, o duelo vai muito além da música (Jonas Rocha/BHAZ)

“Não é só a gente quem ganha. Tem os ambulantes, a galera que vai pra vender sua arte, leva camisa grafitada pra vender, leva o quadro que fez pra vender também. É um movimento muito forte e que engloba várias camadas até acontecer ali no palco”, afirma Kingdom.

Mas não para aí. Tem apresentadores, DJs, jurados, equipe de vídeo, foto e som, limpeza e muito mais.

E hoje a força do Duelo de MCs extrapola e muito o Baixo Centro de BH. A disputa já se nacionalizou. No ano passado, todos os estados fizeram processos seletivos para escolher os melhores artistas. Cada um classificou 16 MCs para a final estadual. 

Assim, o evento passou por todas as capitais, em três meses, até a grande final embaixo do Viaduto Santa Tereza, em 23 de dezembro, quando mais de 100 pessoas foram contratadas para a festa de encerramento.

“O Duelo nacional é, talvez, o resultado da tentativa, do exercício e do trabalho de profissionalização dessa cena das batalhas. Entendendo, percebendo e enxergando esses MCs como profissionais do improviso. Profissionais que precisam de treinamento, dedicação, investimento para poderem alcançar esse lugar desta competição e de tantas outras que acontecem no Brasil e mundo afora”, avalia Pedro Valentim, o PDR, como é conhecido o organizador do festival.

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PDR idealizou o duelo em 2007 (Jonas Rocha/BHAZ)

Mas PDR diz que, apesar dos 15 anos de história do Duelo de MCs, as barreiras a serem transpostas para a sustentabilidade na cena independente ainda são muito árduas.

O grupo vive em constante diálogo na tentativa de angariar recursos, indo atrás desde políticas públicas até o consumidor final. 

“É quase que um exercício diário de sobrevivência no qual a gente fica tentando encontrar a melhor saída o tempo todo, além desse diálogo com as instituições e políticas públicas para a cultura, as marcas, as empresas, o investimento privado, o consumo das pessoas propriamente dito”.

Duas empadas e um sonho

De Contagem até Marte… Um longo caminho e, quem hoje vê os cineastas mineiros em Nova York e Los Angeles apresentando seus filmes, talvez nem imagine a trajetória da Filmes de Plástico, produtora que colocou a periferia no roteiro do cinema mundial. 

Nas telas, os filmes dos amigos e sócios André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurílio Martins e Thiago Macêdo Correia inspiram, provocam e dão esperança. 

filmes de plástico
Maurilio, Gabriel, Thiago e André chegaram a Hollywood com ‘Marte Um’ (Leo Lara/Divulgação)

Por trás delas, a soma de talentos e muita disposição ajudou a construir novas narrativas. Sonhos tão grandiosos quanto o do garoto que queria ir ao planeta vermelho, pano de fundo do filme Marte Um, produção do quarteto mineiro, indicada pelo Brasil para tentar o Oscar 2023.

Os três diretores e o produtor chegaram a dividir duas empadas quando se reuniram pela primeira vez, ocasião em que cada um dos integrantes pensava em ganhar dinheiro trabalhando para outras empresas. A pretensão era juntar alguma grana para investir no futuro. De lá pra cá, muita coisa mudou, e, hoje, o grupo compartilha mais do que poderia imaginar. 

Seja com o público de exibições de Marte Um, realizadas em festivais por sete países – sem contar o Brasil –, seja com aqueles que os assistem nas periferias e fora delas, a Filmes de Plástico reflete o agora e vislumbra o amanhã. A produtora cresceu pela força da união, incorporou e foi incorporada pela comunidade, gera renda por meio da arte e transforma vidas ao passo em que democratiza o acesso ao tão elitizado “fazer-cinema”.

A empresa tem uma estrutura com sede própria em Belo Horizonte, desde 2013, e emprega assistentes e estagiários. 

Quando os filmes estão em produção, a equipe aumenta, envolvendo motoristas, equipes de filmagem, atores, atrizes e vários outros profissionais. E a expectativa é de que o quadro de funcionários seja ampliado em breve. 

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‘Marte Um’ quase representou o Brasil no Oscar (Filmes de Plástico/Divulgação)

Com 24 filmes já lançados, entre curtas e longas, a Filmes de Plástico não usa uma fórmula fechada para tentar alcançar sucesso. A produtora tem, no entanto, a honestidade como norte: das temáticas abordadas à forma como uma cena é levada ao ar. É o que diz Thiago quando questionado sobre o “segredo” das produções colocadas no mundo por eles.

Para Thiago Macêdo, sem as pessoas e sem Contagem, os rumos da Filmes de Plástico também seriam diferentes. “A gente não subestima a importância dessa representatividade. É sobre as pessoas se verem na tela, reconhecerem o bairro. Então, não passamos uma semana sem receber mensagens do tipo ‘eu me vejo em vocês, estou fazendo cinema por causa de vocês’”.

Mas, novamente, não se encerra aí a relação. “A gente pensa a arte e também a responsabilidade financeira. Quando recebo mensagem de um motorista perguntando do próximo filme, é que ele está precisando de grana. É o meu futuro e o futuro do motorista, que precisa ter dinheiro para pagar conta e colocar comida na mesa”, pontua Thiago.

E diz mais: “Acessando lugares, a gente foca no mundo que a gente quer, mas tem plena consciência de que é preciso abrir portas, continuar acessando lugares para que a continuidade se dê. Então, eu me entendi como produtor, mas não dou conta só mais do meu. Preciso dar conta do restante, é uma estrutura conectada”.

Uma bala de milhões

Da mesma região de Djonga, nascido e criado no São Lucas, Lucas Yann morava no Aglomerado da Serra quando emplacou seu primeiro hit, já sob a alcunha de MC Anjim: Bala Love. E segue os passos empreendedores do vizinho mais famoso.

No YouTube, são mais de 100 milhões de visualizações do clipe, gravado nas vielas do Serrão. A música o colocou no rol de funkeiros mais requisitados do país, com shows até fora do Brasil, e mudou completamente a vida do artista. Mas não só a dele.

mc anjim
Anjim é mais um representante do Serrão pelo Brasil (Jonas Rocha/BHAZ)

Foi em 2019 quando o MC conquistou seu primeiro dinheiro com o funk. “O primeiro salário com a música a gente nunca esquece, foi uma das minhas maiores satisfações. Foi tipo…”, diz Anjim dando um respiro de alívio para traduzir o sentimento.

Com o dinheiro no bolso – R$ 10 mil – e o espírito empreendedor, comprou os primeiros itens para montar seu estúdio em casa, com caixas de som, microfone e outros itens mais necessários para “gravar minhas ideias”, além das melhores roupas para “estar bem aparentado para a mídia”.

Com outros ganhos, comprou uma câmera para um amigo que tirava umas “fotos fodas” e o chamou para viajar para os Estados Unidos para gravar o videoclipe de Festa na Minha House. Nascia ali o fotógrafo e videomaker da equipe do MC, Wellington.

“Tudo com a câmera. Aprendemos a editar e soltamos tudo. Sempre tem um jeito de ajudar. Tenho amigos que não largo a mão, estão na minha produção. Fora os agregados que sempre ‘colam’ para ajudar. (…) Vi oportunidades para todos, e vi que sempre tem como ajudar um pouco”, conta MC Anjim.

Para 2023, o artista pretende empreender em outras áreas. “Vai acontecer, vamos abrir uma marca de roupas. Ainda não posso dar detalhes, mas vai vir à tona. Mas o funk é meu ponto fixo, graças a Deus, vivo de música. Minha vida mudou graças a isso. Penso também em fazer algo para vender as tintas para cabelo”. Ele complementa dizendo que o foco agora é estruturar, montar uma produtora, para agenciar novos artistas.

O craque e o hit

Até Neymar dançar Parado no Bailão com a camisa do PSG num jogo da Champions League, Leonardo Miranda de Souza, o MC L da Vinte, era, segundo ele mesmo, mais um quebrado das quebradas de BH.

Aos 16 anos, o funkeiro começava a despontar na cena em 2017, e, no ano seguinte, estourou com o hit que virou sucesso no Tik Tok e no Instagram. 

L da Vinte
L da Vinte estourou no funk aos 17 anos (Jonas Rocha/BHAZ)

A vida do menino do bairro Paulo VI mudaria por completo. Não só porque agora mora em um condomínio fechado numa casa de dois andares com piscina e churrasqueira, mas principalmente porque oportunidades surgiram. “Na quebrada você não tem muitos bons incentivos. Você pode virar algo não tão bom assim. O mais importante foi eu ter seguido um trabalho honesto”.

Os números de Parado no Bailão impressionam até para os artistas mais famosos. São quase 400 milhões de visualizações no YouTube e mais de 246 milhões de streams no Spotify, figurando entre as mais tocadas do Brasil em 2018. 

E depois que Neymar fez a dancinha na final da Champions, em 2018, ela virou gif, figurinha e, com isso, a música se multiplicou pelas plataformas digitais. “Depois disso consegui fazer turnê pela Europa, fui reconhecido fora do Brasil”.

O sucesso é fonte de renda para L da Vinte, e também para amigos e familiares que formam a equipe do funkeiro. São oito pessoas diretamente envolvidas na produção do artista, além de outros empregos criados indiretamente pela agência que gerencia a carreira dele.

“Na favela, acho que pode ter mudado a perspectiva das pessoas. Em questão de ‘ah. nunca vai dar certo, não consigo’. Eu consegui. Acho que isso ajuda a criançada e as pessoas que pensam que as coisas são impossíveis”, diz o artista.

Assim como Djonga e FBC, que buscaram formas de diversificar suas receitas, L da Vinte também dá os primeiros passos. O funkeiro está construindo uma casa para vender e enxerga possibilidade de ampliar os negócios caso tenha sucesso no setor imobiliário. “Se no futuro tiver muita demanda, pretendo abrir uma empresa de construção”, explica.

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