‘O Agente Secreto’ é o filme do Brasil em 2025. Apesar de não ter chegado às salas de cinema do país, o novo longa-metragem de Kleber Mendonça Filho vem fazendo barulho por onde passa. Em BH, não foi diferente.
Cerca de mil pessoas compareceram à sessão exclusiva para o público mineiro, que aconteceu nessa terça (23) e lotou o Cine Theatro Brasil, na abertura da 19ª CineBH– Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte. Dos interessados, muitos ficaram do lado de fora, em uma fila que dobrou as esquinas da avenida Afonso Pena. O BHAZ esteve presente e acompanhou a exibição.
O Agente Secreto
Ambientada em pleno carnaval do Recife, em 1977, a obra acompanha Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário, que se muda de São Paulo para a capital de Pernambuco, em busca de paz. Alocado em um condomínio de moradores peculiares, que são, em maioria, refugiados políticos, o homem passa então a perceber que a nova cidade pode não ser o esconderijo ideal para o caos que tentou abandonar.
Como fio condutor, a discussão sobre memória e esquecimento permeia toda a história do filme, que ganha forma durante três atos. Os primeiros minutos são impactantes e gráficos, o que causa curiosidade sobre o que vem a seguir. Ao todo, o início, porém, age como um borrão de uma lembrança confusa, uma tentativa de ligar os pontos e entender os motivadores de todo conflito que persegue os personagens. É um tempo que passa arrastado, o que, para alguns, pode causar desprendimento das telas. Mas, à medida que o passado do protagonista é apresentado, principalmente a partir do segundo trecho, o longa fica mais interessante.
Logo pela metade, descobrimos que Marcelo é especialista em tecnologia e coordenador de pesquisas em uma universidade federal. Em tempos de ditadura militar no Brasil, tem seu núcleo acadêmico desmantelado por um empresário, responsável pelo financiamento dos projetos. Em desacerto com o homem mais velho, o professor vira alvo constante do poder tirano que o regime concede ao pagador.
Na nova vida, o personagem trabalha em um instituto de identificação, responsável por realizar o registro civil dos pernambucanos. As reflexões se intensificam quando o professor, que é natural do estado, passa a procurar por qualquer documento que comprove a existência de sua falecida mãe, que carregou, em vida, uma das mais comuns combinações de nomes brasileiros.
A pesquisa entre milhares de fichas, na busca pela foto de um rosto que nem sabemos qual é, cria a sensação sufocante de não conhecer nada, nem ninguém que nos trouxe até aqui. Realidade pura de um Brasil contemporâneo, que sofre, até hoje, com mazelas históricas e apagamento de povos marginalizados. Afinal, o que é mais brasileiro do que tentar contar a história da sua família e não conseguir?
O destaque de toda obra vai, sem surpresas, para Wagner Moura, que assume uma persona misteriosa e se revela, aos poucos, um pai e marido apaixonado, que teme a realidade. Wagner é a alma do filme. Não à toa, conquistou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes, na França, deste ano. No longa, divide a tela com outros artistas brilhantes como Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Alice Carvalho, Thomas Aquino, Hermila Guedes e os mineiros Carlos Francisco — de ‘Bacurau’ e ‘Marte Um’— e Laura Lufési, estreante nas telonas aos 26 anos.
Cinema 100% brasileiro

Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho. Crédito: Victor Jucá.
Profundo, ‘O Agente Secreto’ mantém o DNA dos filmes de Kleber Mendonça, que são críticos, reflexivos, exploram as nuances da sociedade brasileira e, agora, nos lançam para todo mundo. O projeto audiovisual foge da visão forjada sobre um cinema norte-americano, e dá valor às transformações das nossas próprias perspectivas, em iniciativas originais da nossa terra, que transcendem o achismo do que deve ser um filme.
O longa passeia por momentos de thriller e tem seu suspense bem construído, mas não consegue, efetivamente, firmar-se em um gênero cinematográfico específico, o que causa uma certa confusão no espectador.
Tal sentimento se intensifica com a mistura de sensações causadas pelo uso da fantasia no meio da história. Uma hora, acompanhamos o dilema de um perseguido pela ditadura militar, noutra vemos um monstro misterioso, que se materializa como uma ‘perna cabeluda’, perseguir recifenses durante a madrugada. Boas risadas aparecem nesse momento.
Nesta mesma linha, quanto ao gênero que o filme se enquadra, a surpresa vem logo no primeiro ato: a obra é, também, muito engraçada. Em meio ao caos, o clima fica tão leve, que é possível ver nos olhos dos personagens o ímpeto da risada dos atores.
Tamanha diversão acontece, em grande parte, graças à Dona Sebastiana— responsável pelo condomínio para o qual Marcelo se muda— interpretada pela atriz e artesã potiguar Tânia Maria, de 78 anos, que deve ter seu valor reconhecido. O primeiro papel da nordestina foi em “Bacurau” (2019), trabalho do mesmo diretor, como figurante, aos 72.
Agora, seis anos depois, Tânia foi cotada pelas revistas norte-americanas Variety e Hollywood Reporter, como possível indicação ao prêmio de melhor atriz coadjuvante no Oscar do próximo ano. Mesmo distante das primeiras colocadas na lista, a presença da artista brasileira volta os holofotes para um Brasil de grandes produções audiovisuais.
Sendo assim, há de ser dito que, mesmo que tente ser muitas coisas e às vezes falhe na missão, ‘O Agente Secreto’ vale a pena ser assistido e corre contra o imaginário coletivo e comum de um filme que se ambienta em tempos de ditadura militar no Brasil— não menos importantes, claro. O longa de Mendonça é uma história de pessoas comuns, para pessoas comuns. É, em sua cerne, um filme sobre família e uma tentativa de dar significado a um passado que muitos nem sabem que existiu.
Nova chance de Oscar?
Há menos de um ano atrás, coincidentemente durante a época de carnaval, o Brasil viveu a catarse coletiva de ver o primeiro filme do país conquistar uma estatueta do Oscar. “Ainda Estou Aqui” (2024), longa-metragem de Walter Salles, estrelado por medalhões do cinema nacional, como Fernanda Torres, Fernanda Montenegro e Selton Mello, foi quem trouxe o prêmio para casa.
A trama, baseada na história da família de Rubens Paiva— deputado assassinado em 1971— puxou a fila e trouxe luz não somente ao impacto e força do Brasil nos festivais, mas também cumpriu o papel de discutir o esquecimento coletivo da política dos trópicos.
Agora, nos resta a expectativa para o Oscar de 2026. É fato que ‘O Agente Secreto’ tem chances, já que realizou um grande feito no Festival de Cannes, na França, deste ano: conquistou os prêmios de melhor direção— além de melhor ator, citado anteriormente— e foi aplaudido ininterruptamente, durante longos minutos, por uma plateia fervorosa. O que devemos fazer agora é torcer.
‘O Agente Secreto’ tem estreia marcada para 6 de novembro em todo Brasil.











