Jovens conservadores debocham e atacam mulher trans em live; cristãos reagem

Live de cristãos
Entre os participantes da conversa, estavam o vereador Nikolas Ferreira e a deputada Ana Caroline Campagnolo (Reprodução/Michelle Brea Soares/Youtube)

Uma live repleta de comportamentos transfóbicos promovida por jovens cristãos conservadores, com a participação de uma mulher transsexual, provocou um movimento de apoio à influenciadora digital Michelle Brea Soares, vítima dos ataques, desde a noite dessa sexta-feira (18). Entre os participantes da conversa, estavam o vereador de BH Nikolas Ferreira (PRTB) e a deputada estadual Ana Caroline Campagnolo (PSL-SC).

Durante a live, os jovens desrespeitaram a identidade de gênero de Michelle, mulher trans, se referindo a ela como “ele”, ” o cara” e “o Michelle”, além de rir e debochar da influenciadora enquanto ela expunha seus argumentos no “debate”. Diversos trechos da conversa foram compartilhados nas redes sociais, junto da hashtag #RESPEITOPORMICHELLE, que se tornou um dos assuntos mais comentados do Twitter neste sábado (19)..

Cristãos pedem perdão

Depois da onda de revolta com a conduta desrespeitosa dos jovens na live, outros internautas cristãos resolveram se mobilizar para pedir perdão à comunidade LGBT+ pelo comportamento dos participantes da conversa. Por meio de um vídeo compartilhado no TikTok, vários jovens religiosos se manifestam contra os argumentos defendidos pelos jovens que apareceram na transmissão.

“Nós não iremos pregar nada que irá feri-los. Viemos pedir perdão para vocês. Perdão pelas vezes em que nossos irmãos colocaram as leis acima do amor de Jesus e da propagação do evangelho. Nós entendemos que precisamos falar de Jesus para todas as pessoas, mas não podemos desrespeitar a individualidade de cada um”, começam os jovens.

“Nos entristece muito ver os tiktokers cristãos se envolvendo só em polêmicas e brigas. Perdão se desrespeitamos o gênero que tu se identificas. Por vezes, alguns irmãos focaram demais na lei, mas pouco no amor e na empatia ao próximo. Aqui fica nosso mais sincero pedido de desculpa a vocês. Nós amamos vocês da mesma forma que amamos a nós mesmos. Esperamos que esta mensagem seja recebida com amor por cada um de vocês. E que Deus os abençoe”, finaliza o vídeo.

LGBTfobia

Há mais de 20 anos, ainda em 1990, a OMS (Organização Mundial da Saúde) retirou a homossexualidade da lista de doenças. No entanto, a luta por equidade, bem-estar social e qualidade de vida da população LGBTQIA+ segue diária. Em 17 de maio, comemora-se o Dia Internacional da luta contra a LGBTfobia e, no Brasil, a data é ainda mais importante.

É que o país é o que mais mata e discrimina pessoas LGBTQIA+. Em 2020, segundo o Relatório: Observatório de Mortes Violentas de LGBTI+ no Brasil, produzido pelo Grupo Gay da Bahia, 237 LGBT+ tiveram morte violenta no Brasil, vítimas da homotransfobia: foram 224 homicídios e 13 suicídios.

E engana-se quem acredita que a LGBTfobia só ocorre quando há violência física. Em 2017, por meio de dados do Disque 100, que recebe denúncias, a Transgender Europe identificou que a maior parte dos relatos da comunidade LGBTQIA+ diz respeito à violência psicológica, que inclui ameaças, humilhação e bullying. Tais comportamentos podem afetar a saúde mental das pessoas e levá-las, até mesmo, ao suicídio e à depressão.

Transfobia

Em junho de 2019, o STF (Supremo Tribunal Federal) reconheceu que a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero é crime. Com a decisão da Corte ficou definido o seguinte:

  • “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito” em razão da orientação sexual da pessoa poderá ser considerado crime;
  • a pena será de um a três anos, além de multa;
  • se houver divulgação ampla de ato homofóbico em meios de comunicação, como publicação em rede social, a pena será de 2 a 5 anos, além de multa;
  • a aplicação da pena de racismo valerá até o Congresso Nacional aprovar uma lei sobre o tema.

Nos votos que fizeram durante a sessão, os ministros fizeram ressalvas a respeito de manifestações em templos religiosos. Os espaços não serão criminalizados por dizer que são contra as relações homossexuais. No entanto, não podem incitar ou induzir, mesmo que no interior de suas dependências, discriminação ou preconceito.

Como denunciar?

As denúncias de crimes LGBTfóbicos podem ser realizadas em delegacias especializadas em crimes de ódio e nas comuns. Em Belo Horizonte, há a Delegacia Especializada em Repressão aos crimes de Racismo, Xenofobia, Homofobia e Intolerâncias Correlatas. Nenhum agente pode se recusar a abrir um boletim de ocorrência quando solicitado. Se a vítima for menor de 16 anos, os casos também pode ser direcionados aos conselhos tutelares.

Além das delegacias, outras instituições auxiliam pessoas LGBTQIA+, como as defensorias públicas, núcleos especializados da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e ongs como a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), a ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexo) e a Cellos (Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual de Minas Gerais).

Em casos de crimes em ambientes virtuais, a orientação é de que as vítimas juntem provas, como prints, áudios, fotos e vídeos, se possível, e procurem as autoridades.

Edição: Giovanna Fávero
Sofia Leão
Sofia Leãosofia.leao@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Escreve com foco na editoria de Esportes no BHAZ.

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