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Livros de autoajuda ajudam mesmo? O que eles podem (ou não) fazer pela saúde mental

14/09/2026 às 12h43 - Atualizado em 14/09/2026 às 12h49
escolas queimam livros
FOTO ILUSTRATIVA: Banco de imagens/Unsplash)

Você já terminou um livro de autoajuda com a sensação de que alguma coisa dentro de você mudou? Talvez uma frase tenha feito sentido, uma história tenha despertado uma lembrança ou uma ideia tenha ajudado a enxergar um problema por outro ângulo.

Mas também pode ter acontecido o contrário. Você leu, sublinhou páginas, fez anotações, tentou colocar as orientações em prática e, ainda assim, continuou se sentindo da mesma maneira.

Afinal, livros de autoajuda ajudam mesmo?

A resposta mais honesta é: podem ajudar, mas não da mesma forma para todas as pessoas e não em todas as situações.

Antes de falar especificamente sobre os livros de autoajuda, vale lembrar que a própria leitura já é uma experiência importante para o cérebro. Ler não é simplesmente decodificar palavras. Durante a leitura, diferentes regiões cerebrais relacionadas à linguagem, atenção, percepção, memória e processamento de informações trabalham de forma integrada. Uma meta-análise publicada em 2025, que reuniu 163 estudos, confirmou o envolvimento de uma ampla rede cerebral durante diferentes tipos de leitura.

A leitura também está relacionada à aprendizagem e à neuroplasticidade, isto é, à capacidade do cérebro de modificar suas conexões e seu funcionamento a partir das experiências. Revisões de estudos de neuroimagem encontraram alterações de ativação, conectividade e estrutura em diferentes regiões do cérebro associadas a intervenções de leitura. Isso não significa que qualquer livro irá “mudar o cérebro” de maneira automática, mas mostra que ler é uma atividade cognitivamente complexa, capaz de mobilizar diferentes sistemas.

E é justamente por isso que um livro pode produzir algo muito importante: uma nova forma de pensar sobre aquilo que estamos vivendo.

Um livro de autoajuda pode oferecer informação, ampliar perspectivas, apresentar estratégias, estimular perguntas e ajudar uma pessoa a perceber padrões que antes passavam despercebidos. Pode funcionar como um ponto de partida para o autoconhecimento.

Às vezes, a pessoa lê sobre ansiedade e percebe que aquilo que considerava “frescura” tem nome. Lê sobre limites e percebe o quanto tem dificuldade de dizer não. Lê sobre autoestima e começa a questionar uma relação marcada por autocrítica. Lê sobre luto, relacionamentos, perfeccionismo ou procrastinação e encontra palavras para experiências que até então pareciam confusas.

Nesse sentido, um livro pode abrir uma porta. E, para algumas pessoas, essa porta pode levar justamente à busca por ajuda.

Há ainda outro aspecto interessante: ler pode ser uma experiência de descoberta. Às vezes, começamos um livro procurando uma resposta e encontramos uma pergunta:

“Por que eu aceito isso?”

“Por que tenho tanta dificuldade de descansar?”

“Por que preciso agradar todo mundo?”

“Por que tenho tanto medo de fracassar?”

“Por que continuo repetindo esse comportamento mesmo sabendo que ele me faz mal?”

Essas perguntas podem ser desconfortáveis, mas também podem ser importantes. O autoconhecimento nem sempre começa com uma resposta. Muitas vezes, começa quando conseguimos formular melhor aquilo que estamos vivendo.

E existe uma dimensão que pode tornar essa experiência ainda mais rica: compartilhar a leitura com outras pessoas.

Clubes de leitura, grupos de discussão e encontros em torno de livros podem transformar uma experiência individual em uma experiência de troca. Falar sobre aquilo que lemos, ouvir interpretações diferentes e perceber que outras pessoas também enfrentam dúvidas e dificuldades pode favorecer conexão, pertencimento e socialização.

Isso nos lembra de algo importante: às vezes, não é apenas o livro que faz diferença. É o que fazemos com aquilo que o livro provoca em nós.

Podemos ler sozinhos e refletir. Podemos conversar sobre o que aprendemos. Podemos experimentar uma pequena mudança. Podemos perceber que precisamos de ajuda. Podemos descobrir que determinada orientação não faz sentido para a nossa realidade. E tudo isso também é aprendizado.

Mas existe uma diferença importante entre uma leitura que provoca reflexão e um processo psicoterapêutico. A psicoterapia oferece um espaço de escuta, acolhimento e construção conjunta, no qual o profissional pode compreender a história de cada pessoa, identificar padrões de pensamento e comportamento, trabalhar emoções e desenvolver estratégias de enfrentamento de acordo com as necessidades de cada caso.

Dentro desse processo, indicações de livros, textos e outras leituras podem, inclusive, fazer parte do plano terapêutico como recursos complementares, quando fizerem sentido para os objetivos do tratamento. A leitura pode ajudar a ampliar a compreensão sobre determinadas experiências, estimular reflexões e favorecer novas perspectivas, mas não substitui o acompanhamento profissional.

Afinal, o que pode ser útil para uma pessoa pode não ser adequado para outra. E isso é diferente de dizer que qualquer livro de autoajuda funciona como tratamento.

Um livro não conhece a sua história. Não sabe o que aconteceu antes daquele sofrimento, quais são os seus recursos, quais são as suas dificuldades ou quais experiências estão por trás dos seus sintomas. Também não pode avaliar, acompanhar e ajustar uma estratégia de cuidado de acordo com aquilo que você está vivendo.

Por isso, um dos riscos da cultura da autoajuda é transformar uma ferramenta em uma promessa.

“Se você realmente quiser, consegue.”

“Basta mudar seus pensamentos.”

“Pense positivo.”

“Leia este livro e transforme sua vida.”

Frases assim podem parecer motivadoras, mas também podem produzir culpa. Se a pessoa tentou e não conseguiu, pode concluir que o problema está nela: não se esforçou o suficiente, não teve disciplina, não aplicou corretamente ou não acreditou de verdade. Mas sofrimento psíquico não funciona como uma receita.

Nem sempre aquilo que ajuda uma pessoa ajuda outra. E, principalmente, nem todo sofrimento pode ser resolvido apenas com informação, força de vontade ou mudança de hábitos.

Talvez, então, a melhor pergunta não seja “qual livro vai mudar a minha vida?”, mas:

“O que este livro está me ajudando a compreender sobre mim?”

Um bom livro de autoajuda não precisa prometer transformar você. Pode simplesmente oferecer uma nova perspectiva, uma pergunta importante, uma informação que faltava ou um primeiro passo. E, às vezes, esse primeiro passo é reconhecer que precisamos de algo além do livro.

Se você está enfrentando sofrimento intenso, sintomas persistentes ou dificuldades que estão comprometendo sua vida, seus relacionamentos, seu trabalho ou sua capacidade de cuidar de si, procure ajuda profissional. Ler pode ser um recurso importante, mas não precisa ser o seu único recurso.

A saúde mental não cabe inteira dentro de um livro.

Mas um livro pode, sim, ajudar a abrir uma página que ainda não tínhamos conseguido ler sobre nós mesmos.

Com afeto,

Letícia Faleiro | CRP-MG 04/33265
Professora e Psicóloga Clínica

Letícia Faleiro

Letícia Faleiro é psicóloga graduada e mestra em Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialista em Psicologia Clínica Existencial e Gestáltica e pós-graduada em Gestão Estratégica de Pessoas. Ela atua como psicóloga clínica há mais de 15 anos, é professora universitária e cofundadora do Instituto Florere. Tem ainda formação continuada na abordagem fenomenológica em intervenções em crise, lutos atípicos, teoria do apego e psicofarmacologia.

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