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Quando o afeto também tem quatro patas

12/10/2026 às 14h46
Convivência com animais de estimação tem despertado o interesse de pesquisadores (Pexels)
Convivência com animais de estimação tem despertado o interesse de pesquisadores (Pexels)

Você já sentiu que a presença de um animal transformou um momento difícil da sua vida? Tenho dois gatos como animais de estimação, mas a história que construí com eles vai muito além dessa definição. O primeiro chegou à minha vida em um momento de perda gestacional. E há uma coincidência que torna essa história ainda mais particular: ele já veio batizado pela pessoa que o resgatou com o nome que seria do meu bebê.


Não sei explicar o significado disso. Talvez nem tudo precise de uma explicação para ganhar sentido. Sei que aquele encontro aconteceu em um período de muita dor e que, desde então, o Chiquinho passou a fazer parte de uma história que também é de afeto, cuidado e reconstrução.

Depois, chegou o Mingau. Os dois passaram a ocupar um lugar especial na minha vida. A presença deles, as brincadeiras, o ronronar, as pequenas manias e até as interrupções inesperadas da rotina fazem diferença nos meus dias. E há algo nessa convivência que me toca profundamente, uma espécie de troca de energia que não sei traduzir completamente em palavras.

Quando falo em troca de energia, não me refiro a uma explicação científica, mas à experiência de perceber como a presença de outro ser vivo pode transformar o nosso dia e a maneira como nos sentimos.

Mas será que essa sensação é apenas pessoal? O que a ciência tem a dizer sobre a relação entre os animais e a saúde mental?

A convivência com animais de companhia tem despertado o interesse de pesquisadores porque os vínculos estabelecidos com eles podem representar fontes importantes de afeto e apoio emocional. Uma revisão sistemática publicada em 2018, na revista BMC Psychiatry, reuniu estudos sobre a relação entre animais de companhia e pessoas com problemas de saúde mental. Os pesquisadores identificaram relatos de conforto, companhia, conexão e ajuda no enfrentamento de dificuldades. Os resultados, porém, foram variados, indicando que os efeitos dessa relação não são iguais para todas as pessoas.

Isso nos ajuda a compreender que não basta ter um animal em casa para garantir bem-estar. É preciso considerar a qualidade do vínculo, as condições de convivência e a realidade de cada pessoa.

Para algumas, a presença de um animal ajuda a organizar a rotina, estimula atividades e oferece companhia nos momentos de solidão. Para outras, representa uma fonte de acolhimento durante períodos de luto, mudanças importantes ou sofrimento emocional. O cuidado cotidiano também pode criar pequenas referências de continuidade: alimentar, brincar, limpar, passear ou simplesmente estar junto.

E há algo particularmente interessante nessa relação: nem sempre precisamos falar para nos sentirmos acompanhados. Podemos estar em silêncio, sem disposição para explicar o que estamos vivendo, e, ainda assim, encontrar conforto na presença de um animal.

Isso não significa que eles compreendam nossas experiências exatamente como outro ser humano compreenderia. Significa reconhecer que o vínculo afetivo construído nessa convivência pode ter um valor próprio e significativo.

Em determinado momento, fiz uma pesquisa informal com meus seguidores nas redes sociais sobre a importância dos animais em suas vidas. Algumas respostas me marcaram profundamente: muitas pessoas relataram que, em períodos de sofrimento extremo, a presença de seus animais foi fundamental para que conseguissem atravessar aqueles dias e encontrassem motivos para continuar.

Algumas falavam da responsabilidade de cuidar de um ser que dependia delas. Outras mencionaram o amor recebido, a companhia nas horas mais difíceis ou o desejo de permanecer por perto porque aquele animal ainda precisava delas.

Esses relatos revelam experiências humanas que merecem ser escutadas. Eles nos lembram que, em determinados momentos, um vínculo pode representar muito mais do que companhia: pode oferecer sentido, responsabilidade, conexão e uma razão concreta para continuar cuidando da vida cotidiana.

É importante, porém, não colocar sobre os animais a responsabilidade de sustentar sozinhos o sofrimento de alguém. Eles podem ser fontes valiosas de apoio emocional, mas não substituem uma rede de apoio, o acompanhamento psicológico ou outros cuidados profissionais quando necessários.

Reconhecer o quanto os animais podem fazer bem à nossa saúde mental também nos convida a olhar para o outro lado dessa relação. Afinal, se eles participam da nossa vida de maneira tão significativa, que responsabilidade temos diante da vida deles?

No Brasil, a proteção aos animais está prevista na Constituição Federal. O artigo 225 estabelece o dever de proteger a fauna e proíbe práticas que submetam os animais à crueldade. A Lei nº 9.605/1998, conhecida como Lei de Crimes Ambientais, prevê punições para atos de abuso e maus-tratos. Para cães e gatos, a Lei nº 14.064/2020 aumentou as penas previstas para esses crimes, que podem incluir reclusão de dois a cinco anos, multa e proibição da guarda.

Essas garantias legais são importantes, mas o compromisso com o bem-estar animal também precisa aparecer nas escolhas cotidianas. Adotar um animal significa assumir responsabilidades com alimentação, saúde, segurança, ambiente adequado e cuidados ao longo de toda a sua vida. Significa compreender que ele não é um objeto que pode ser descartado quando deixa de ser conveniente.

A relação entre humanos e animais não deve ser pensada apenas pelo benefício que podemos receber dela. Os animais têm necessidades próprias e merecem respeito independentemente daquilo que oferecem a nós.

No meu caso, meus gatos fazem parte da minha história de uma maneira que talvez nem eles pudessem imaginar. O Chiquinho chegou em um momento marcado pela perda e, sem apagar aquela dor ou precisar cumprir qualquer função, passou a compartilhar comigo uma parte importante da vida. O Mingau ampliou essa convivência e trouxe novas experiências de afeto e muitas sapequices.

Talvez seja isso que torna esses vínculos tão especiais: eles não precisam resolver nossos problemas para fazer diferença. Às vezes, o cuidado está na rotina, na brincadeira, na presença silenciosa e na responsabilidade de cuidar de outra vida.

Se você convive com um animal, vale a pena observar o lugar que essa relação ocupa na sua vida. O que vocês compartilham? Como essa presença participa do seu cotidiano? E como você tem cuidado desse vínculo?

Se estiver enfrentando sofrimento intenso ou dificuldades persistentes, lembre-se de que a convivência com um animal pode ser uma fonte de apoio, mas não precisa ser seu único recurso. Buscar ajuda profissional também é uma forma de cuidado.

Meus gatos não precisam conhecer a história que os trouxe até mim, nem compreender o significado que atribuo à presença deles. Basta que continuem sendo quem são, com seus ritmos, suas manias e suas formas particulares de estar comigo. Neste momento, Chiquinho e Mingau compartilham comigo o espaço do escritório, enquanto escrevo estas linhas. Entre uma pausa, um ronronar e uma presença silenciosa, eles também me ajudam a transformar em palavras o carinho que sinto e a dar forma a este texto, que, de algum modo, também é sobre eles.

Talvez o afeto também seja isso: uma presença que não elimina todas as dores, mas pode tornar alguns dias mais leves e nos lembrar de que a vida é feita de vínculos que merecem ser cuidados.

E, às vezes, enquanto acreditamos que somos nós que estamos cuidando deles, descobrimos que também recebemos muito cuidado em troca.

Com afeto,

Letícia Faleiro | CRP-MG 04/33265
Professora e Psicóloga Clínica

Letícia Faleiro

Letícia Faleiro é psicóloga graduada e mestra em Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialista em Psicologia Clínica Existencial e Gestáltica e pós-graduada em Gestão Estratégica de Pessoas. Ela atua como psicóloga clínica há mais de 15 anos, é professora universitária e cofundadora do Instituto Florere. Tem ainda formação continuada na abordagem fenomenológica em intervenções em crise, lutos atípicos, teoria do apego e psicofarmacologia.

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